Um Francisco para o século XXI

14923885613_b186b27206_o

Minha mais recente surpresa com o papa Francisco ocorreu dias atrás, no começo deste ano, quando ele fez as nomeações dos novos cardeais, os chamados “príncipes da Igreja”: ao contrário do esperado por conhecedores dos costumes do Vaticano, as assim denominadas sedes cardinalícias vagas do Brasil não ganharam seus ‘príncipes’ eleitores do papa.

Elas são habitualmente duas sedes arquiepiscopais que abrigam cardeais – Brasília e Salvador, esta a mais antiga sede, fortemente ligada aos primórdios da história do Brasil, e cujo titular é chamado de Primaz do Brasil.

Perguntam-me se me surpreendi com a não escolha do sempre citado dom Murilo Kriger, um catarinense fortemente espiritualizado e com grande inserção em Salvador, de onde é arcebispo. Confesso que, em princípio, sim. Mas depois, raciocinando melhor, acabei concluindo que essas novidades estão perfeitamente dentro do comportamento de Francisco, que vai demolindo “tradições” e rompendo com expectativas. Ele é o pontífice das surpresas e promotor de muitas iconoclastias. Uma delas, a de quebrar a expectativa do habitual que acabava até sendo confundido como lei da Igreja.

 

“Alzheimer espiritual”

Nesse capítulo dos cardeais, a grande surpresa já ocorrera em 2014, quando Francisco nomeou um bispo haitiano para ser o primeiro cardeal do mais pobre país das Américas, depauperado pela miséria, pelo último terremoto e vergastado há centenas de anos pela corrupção, cupidez e toda sorte de barbaridades de um mundo político local associado com interesses espúrios de além-mar.

A rigor, que importância tem o pequeno e pobre Haiti no contexto de uma Igreja de 1,2 bilhão de católicos, quando humanamente pareceria mais interessante criar sedes cardinalícias e cardeais em países europeus ou num dos cantos mais promissores para a Igreja, como é a Índia e seu Estado de Kerala fortemente católico?

A lógica de Francisco não se pauta pelas expectativas dos habituais observadores das realidades católicas. Este papa está totalmente fora do “esquadro”, não se pode esperar dele ações e respostas tomando por base aquilo que foi se transformando quase em lei pela ação da Cúria Romana, o aparelho burocrático controlado por italianos.

Cito como exemplo: nada mais significativo, e ao mesmo tempo engraçado, do que aquele triste ‘pito’ que o papa Francisco passou recentemente nos cardeais da Cúria. Deles reclamou pela “cara de defunto” que alguns mostram, longe da alegria que deve caracterizar os remidos por Cristo.

Cutucou aqueles burocratas da Igreja, condenando sobremaneira a fofoca institucionalizada dentro dos muros da Santa Sé. E, com aquele ar de pai – que ama até quando repreende duramente os filhos – condenou os que buscam cargos, são carreiristas dentro da Igreja e mostram-se com vida espiritual cauterizada por uma visão interesseira, alguns deles acumulando bens e riquezas incompatíveis com as propostas sacerdotais.

Eu nunca dantes soubera de uma manifestação pontifícia tão dura e tão humana, dissecadora de realidades intramuros da Igreja, como ouvi da boca de Francisco.
Para mim, ficou antológico, nesse pito do papa Francisco, a condenação e os anátemas que dirigiu aos que, no mundo do clero, mostram-se atingidos por “Alzheimer espiritual”… Quer dizer: são caducos e estéreis do ponto de vista espiritual, antítese do que se pede aos discípulos do Cristo.

 

Nada tradicionalista

Quantos são os tipos humanos especialíssimos que vivem no papa Francisco, o Jorge Bergoglio que, cardeal de Buenos Aires quando da eleição de Bento XVI, já surpreendera o mundo católico “quase empatado” com Ratzinger na eleição do sucessor de João Paulo II?
Acho, por essas e outras marcas dele, que são múltiplos os tipos humanos que identificam o papa.

Acredito mesmo não ser exagero classificar Francisco de estrategista, no que apenas ele estaria sendo fiel à herança de Inácio de Loyola, e dos jesuítas. Pois os passos dele podem surpreender aos que desconhecem a biografia do pontífice argentino. Não aos que, por exemplo, acompanharam o afinco com que Bergoglio, depois da eleição de Bento XVI, passou a estudar italiano, a língua de seus avós, que ele não dominava, embora fosse partilhada em casa com o espanhol.

A imersão no idioma de Dante foi, pois, um dos sinais de que Bergoglio de alguma forma se preparava melhor para viver na Roma dos papas, um dia. Ou para ser escolhido pelo Conclave?
Acredito que vive também no papa Francisco um pontífice pouco ou quase nada apegado à chamada tradição católica. Isso significa que os tradicionalistas apoiados por João Paulo II e Bento XVI não têm mais as simpatias de outrora da sé de Pedro.

Esses papas estimularam movimentos favoráveis à liturgia romana pré-Concílio Vaticano II (como a chamada Missa de Pio V), instituindo organismos eclesiais como os gerados pela “Ecclesia Dei Aflicta”, de 1988.
E em 2007, Bento XVI, em Carta Apostólica – em forma de Motu Próprio denominada “Sumorum Pontificum” –, foi além do esperado: autorizou o uso mais amplo do missal de 1962 (de João XXIII).

Papa Francisco, ao que me consta, não deu até agora nenhum sinal de estar preocupado com os tradicionalistas católicos, aqueles que estão em Comunhão com a Igreja (como os da Sociedade Cristo Rei ou do Instituto São Pedro e São Paulo ou Instituto Bom Pastor). Muito menos mostra-se preocupado com os tradicionalistas “extra ecclesiam”, como os filhos do bispo Marcel Lefebvre, que parece quase ignorar.

 

Mulheres e MST
novas-papa-20141125_0003

Foto: União Europeia 2014 – Parlamento Europeu

Esse Francisco do século XXI estende discretos mas significativos afagos aos chamados movimentos sociais populares, como fez em recente encontro mundial que a Igreja promoveu com essas instituições no Vaticano. Afagos suficientes, no entanto, para fazerem do radical homem do MST, João Stedille, um dos representantes brasileiros no encontro, manifestar-se como ardoroso defensor do papa.
Francisco de alguma forma reproduz na sede da Igreja o espírito franciscano que o identificou em Buenos Aires, onde andava de transporte coletivo e cozinhava sua própria comida diária.

Morar na residência Santa Marta e comer no grande refeitório da casa com seus amigos e convidados é apenas um exemplo de quanto mudou a chamada corte papal com Jorge Bergoglio.
Essa simplicidade ele vai impondo gradativamente na própria estrutura do aparato eclesiástico. Um dos primeiros gestos nesse sentido foi acabar com o título de monsenhor, na Santa Sé, e também recomendar que essa honraria seja extinta nas dioceses (as chamadas igrejas particulares). O que já acontece em Curitiba, por exemplo.

Há nós que ele não poderá desatar, como alguns cerceados por anteriores manifestações papais. É o caso de manifestação clara, oficial, do papa João Paulo II, contra a ordenação de mulheres, consistente reivindicação de feministas, especialmente de freiras norte-americanas que até há pouco ameaçavam criar uma igreja paralela por verem rejeitados seus projetos. Cabe ao cardeal sulista, formado em Curitiba, dom João Braz de Aviz, dialogar com as iradas religiosas.

Há outras armadilhas com as quais Francisco terá também de defrontar-se um dia. Uma delas, a questão das segundas núpcias, que interessa muito aos católicos engajados na prática dos sacramentos.

Nesse tocante, diz-se que Francisco tem uma linha que consideraria possível para os católicos: seguir o modelo das igrejas ortodoxas. Elas aceitam apenas um divórcio como exclusiva porta para novo matrimônio na igreja.

Na verdade, a Igreja aceita que seus tribunais realizem a ruptura do vínculo matrimonial. “Isto quer dizer que a Igreja considera que realmente não houve casamento, aceitando a dissolução da união, sujeitando a decisão a argumentos apresentados pelas partes interessadas. Alguns tribunais eclesiásticos, como da Austrália e Estados Unidos, são tidos há muito tempo como extremamente liberais e facilitadores da dissolução do vínculo”, observa um professor do Studium Theologicum de Curitiba.

Francisco fala bastante. Quase sempre responde às indagações dos jornalistas, sendo que uma de suas falas que mais repercutiram foi a manifestação dele em favor dos gays, quando voltava, em 2013, do Rio para Roma. Disse que se um gay procura a Deus, “quem sou eu para julgar?”. Mas não arredou um só passo da condenação que marcou Bento XVI e Paulo II, sobre a pedofilia: um delito, um crime, um pecado.

Até que ponto papa Francisco conseguirá manter seu combate contra as muralhas de uma instituição duas vezes milenar, que se proclama divina e humana, e cujos traços pecadores – mais do que suas ações humanitárias – repercutem pela orbe toda?
Essa é a pergunta que fica. Mas há pistas claras de que Francisco, esse Francisco do século XXI, não brinca em serviço: meses atrás tirou da Diocese de Ciudad Del Este o bispo conservador acusado de ter acolhido um padre argentino procurado por prática de pedofilia na Argentina. Com a mesma presteza e sem meias palavras mandou prender no Vaticano e iniciar-se o processo de laicização do arcebispo que ocupava as funções de núncio apostólico (embaixador) na República Dominicana, por molestar garotos.

Para mim, dos mais significativos exemplos das mudanças promovidas pelo papa foi a intervenção sumária que promoveu no IOR, o chamado banco do Vaticano, uma autêntica caixa-preta responsável por escândalos financeiros e de lavagem de divisas. Por tudo isso, e diante do vigor com que enfrenta fortins da Sé Romana, amplio minha certeza de que o Espírito do Senhor está com ele.

Afinal, por ser “um filho da Igreja”, como já lembrou certa vez, o pontífice, ele sabe que nos dias de hoje não mais basta arguir a ordem do “Roma locuta, causa finita”. Ou Roma falou, tá falado…

O tempo é este mesmo de agora, em que Francisco sabe viver sua fé, espalhando-a aos quatro ventos. Não importa se se transformando num papa midiático.
Afinal, por que as boas novas não podem ser proclamadas pelas mídias modernas, na voz de um carismático Bergoglio, dono de muita acústica, fruto de sua coerência?

15440438102_d0bcd2e27f_o

Foto: Mazur/Catholic Church England and Wales

Leia mais

Deixe uma resposta