Adianta substituir Mauro Ricardo?

Mauro Ricardo Costa. Foto: Reprodução/site vvale.com.br

 

O Sr. Mauro Ricardo Costa, é bom esclarecer logo, não é o emblema acabado da vilania. Há grandeza no seu fanatismo monetarista, na sua fé em cortes, apertos, arrochos. É o Pedro, o Eremita, da contenção inflacionária. O Calvino do ataque ao déficit público. Se reza pela cartilha liberal, é a atualização de Thomas de Kempis debruçado sobre um manual de boas ações. É, pelo menos, o que Mauro Ricardo passa, como se diz, aos cidadãos perplexos deste Paraná enfiado na crise nacional até o pescoço. E nas suas próprias circunstâncias, de quem deu muito e agora precisa moderar as benesses e os privilégios.

Assim é a imagem que podemos ter de Mauro Ricardo Costa, o novo secretário da Fazenda, personagem moralmente inatacável, segundo consta.Vilões perfeitos são de outra têmpera e catadura, de sorte que deliramos ao vê-los abatidos a tiros na poeira da rua principal pelo revólver do mocinho. Mas para o atual secretário da Fazenda é de se desejar um fim bem mais tranquilo, como convém ao seu aspecto bem mais tranquilo, de burocrata bem-sucedido, para alegria da mamãe e dos amigos.

Os olhos nem sempre são, ao contrário do que afirma Milan Kundera, os espelhos d’alma. Talvez a aparência não seja tão reveladora do espírito quanto se acredita. Em entrevista recente, o secretário foi tomado de súbito ataques contra os riscos da recessão, dos excessos na folha de pagamentos, do descontrole das contas públicas. Chegou a pronunciar palavras e expressões nada parlamentares, para contar que conta os tostões e que mal tinha para pagar “mal e porcamente” a folha de fevereiro.

Mauro Ricardo sabe defender suas teses. Diz os números do Estado de cor e salteado. A exposição da situação econômica do Paraná que fez na Assembleia Legislativa serviu para esvaziar boa parte do discurso da oposição. Firme, preciso, sem ocultar as dificuldades que o Paraná enfrenta em nenhum momento, o secretário desmontou um a um os argumentos da bancada de oposição que pretendia levá-lo às cordas.

Repetiu como um mantra a tese que é preciso aumentar a arrecadação e cortar despesas para que o Estado possa voltar a fazer obras e prestar serviços de qualidade. Implodiu o argumento de que os problemas financeiros do Paraná decorrem de um suposto inchaço no quadro de funcionários comissionados. O percentual de funcionários comissionados é ínfimo (menos de 3%) do total dos quadros da máquina pública. Ainda que todos comissionados fossem demitidos a situação de desequilíbrio da máquina pública, provocada principalmente pela queda de arrecadação em um contexto recessivo, continuaria. O trabalho pela frente é duro e a situação não será resolvida com clichês e palavras de ordem.

Consta que rodou a baiana em reunião recente na Secretaria da Fazenda e levantou-se furibundo contra o que chama de espírito tacanho dos técnicos fazendários que veem a árvore e não conseguem ver a floresta, como se fossem seus piores desafetos, em tom audível à beira-mar. A reunião de trabalho dava-se em Curitiba. Alguns dos presentes, que ainda não conheciam o novo secretário da Fazenda, ainda não se restabeleceram do espanto e um deles, sabe-se ao certo, consultou fonoaudiólogo para tratar-se de repentina crise de gagueira.

Nos últimos dias, cresceram os rumores de que Mauro Ricardo poderia cair. O sempre disponível e disposto Luiz Carlos Hauly, responsável pela gestão anterior da Fazenda, logo espichou o pescoço a se oferecer para o posto, como se nada fosse de sua responsabilidade no caos em que as finanças do Estado do Paraná se encontram. Mauro Ricardo não caiu e as informações mais credenciadas dão conta de que o governador Beto Richa nunca pensou em demiti-lo. Por enquanto.

E de que serviria substituir Mauro Ricardo por alguém que teria de fazer a tarefa exatamente como ele e sem currículo de sucesso em gestão de crise e diante da necessidade atroz de conter despesas. Com disposição suficiente para encarar os movimentos corporativos, organizados e ruidosos, que tentarão barrar qualquer medida de contenção em nome da justiça social e do amparo dos coitadinhos. Ninguém abre mão de nada, nem dos anéis mais baratos. Ao contrário, os professores aproveitam o ensejo para exigir mais. Muito mais.

O governo de Beto Richa, este é o ponto, precisa estabelecer-se a partir de um pensamento novo. Reduzir a taxa de clientelismo, estabelecer barreiras para as pretensões do corporativismo, para que se possam colher, a partir de um dia razoavelmente próximo, os primeiros efeitos de uma contemporaneidade tantas vezes adiada.
Esta transição tem um compromisso com um futuro efetivamente melhor. Quanto a Pedro, o Eremita, clamava pela libertação do Santo Sepulcro, mas, de fato, favorecia os interesses do comércio europeu. A história não explica, até hoje, se sabia o que fazia.

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