Depois do carnaval

carnaval

Na medida em que me misturava à multidão, estranhamente os rostos iam ficando mais indefinidos. Quanto mais perto, mais junto, mais integrada, menos detalhes.
A massa me conduzia de um lado para o outro e eu não conseguia mais que acompanhar em pulos miúdos e sem ritmo o que ela ditava, até a música às vezes ouvia, às vezes não. Mesmo assim pulava.

É estranha essa sensação de se mexer sem vontade própria. Não que o carnaval me fosse uma obrigação, ao contrário, eu gostava de estar ali, mas não era dona das minhas vontades, simplesmente seguia a turba pra lá e pra cá, aê, aê, aê, ê, ê, ê, mãos pro alto, palmas, imenso coro… O carnaval de rua da Bahia é quase um estado de espírito, um transe, que não permite autonomia de coreografias. Nem a quero, prefiro me mover conforme manda aquela pasta de gente.

Era o meu terceiro ano seguido naquele endereço. Desde que Jorge foi embora com uma bailarina do teatro, resolvi fazer tudo às avessas. Deixei que o corpo ganhasse generosas curvas, larguei mão das roupas discretas, soltei meus pensamentos e agora todo ano saracoteio com um abadá recortado que serve de top e minissaia pelo Centro Histórico da Bahia. Ali no Pelourinho sou escrava ao revés. Um ano inteiro de economias para a carta de alforria.

E foi assim, disfarçada de multidão, que a vi chegar. Me olhou nos olhos, sorriu e afastou meu cabelo do rosto. Zonza, não consegui articular palavra quando ela enganchou no meu braço e me puxou para o meio do desfile. Eu aprendi que seguir o carro perto do cordão é melhor, porque além dos seguranças, tem a facilidade de deixar o cortejo mais facilmente se necessário. Mas ela me puxou para o meio e eu fui.

Dançamos juntas alguns minutos e ela me beijou. Beijou na boca. Nunca uma mulher havia me beijado antes e eu mesma não tinha esse tipo de interesse. Fiquei num misto de excitação e vergonha. Procurei amedrontada os olhares do padre Étno, da tia Júlia, de mamãe. Claro, nenhum dos três estava ali, mesmo assim me acompanhavam por todos os lugares, a me apontar o dedo. Assustada e imóvel, apesar da turba me carregar, reconheci seu deboche. Ela ria, ria muito.

Desapareceu no meio da turba. Passei as horas de pula-pula na inútil função de procurá-la. Exausta, voltei pro hotel. Quando me preparava para o banho, descobri um bilhetinho dentro do meu sutiã, havia o nome, Solange, acompanhado de um telefone. Foi a primeira ligação que fiz na inauguração de uma nova vida.
Ali vi, vivi, descobri.

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