Dias de fúria

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Ninguém gosta de óleo de rícino, de injeção de óleo canforado, de choque nas têmporas e ninguém, absolutamente ninguém, gosta de ajuste fiscal. Ainda mais num país em que todos dependem das benesses do Estado. Pois, pois, o governador Beto Richa decidiu fazer o que qualquer governante responsável faria nas circunstâncias. Encaminhou para o Legislativo um pacote de medidas de ajuste fiscal e de contenção de despesas. Ou seja, decidiu apertar o cinto, cortar privilégios e arrumar o caixa, arrombado por certo prodigalismo na concessão de vantagens. E pela crise financeira do país causada pela gestão deficiente e corrupta do PT nos últimos 12 anos.

A reação foi feroz e estimulada pelo sentimento de revanche política dos partidos e partidecos que comandam a principal corporação de funcionários públicos, a dos professores, superorganizada, com representação própria na Assembleia e com uma verba anual de R$ 25 milhões que lhe permite organizar grandes manifestações. Vamos aos fatos.

No dia 10 de fevereiro, a Assembleia Legislativa do Paraná foi invadida por manifestantes ensandecidos contra um pacote de medidas de ajuste fiscal do governo. A absoluta maioria era de professores, que ocuparam a praça diante da Assembleia e defronte ao Palácio Iguaçu a partir do dia 9. O governo pretendia aprovar todas as medidas como manda a sabedoria política desde Roma antiga. Fazer todas as maldades de uma só vez e as bondades aos poucos. Apresentou tudo num pacote só, elaborado pelo novo secretário da Fazenda, Mauro Ricardo Costa, um técnico em finanças públicas da escola tucana, esperto nessa tarefa em outras praças. A última, a de Salvador, onde ajustou as receitas e os gastos para o governo de ACM Neto.

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Foto: Orlando Kissner/Fotos Públicas

Aprovar todo o pacote de uma só vez, na semana anterior ao carnaval, e com a Assembleia ainda sem as suas comissões temáticas instaladas, parecia coisa fácil. Afinal, o governo Beto Richa estava legitimado pela vitória em um só turno, com folga, contra os seus principais adversários políticos. Dispunha de maioria mais que confortável no Legislativo. Elegera sob suas asas 40 dos 54 deputados. O plenário seria transformado em Comissão Geral e a toque de caixa as medidas estariam vigentes. Fato consumado. Esqueceram de comunicar a turba que crescera ao redor do palácio.

Em primeiro lugar, a maioria da base de apoio diminuiu. Dos poucos deputados do PT, evoluiu para 19 votos num primeiro momento. E depois deixou o governo com apenas 32. Ainda suficiente para aprovar todos os seus projetos, mas um acontecimento que estimulou o avanço dos professores, servidores e militantes do lado de fora da Casa. Quando a votação para transformar o Plenário em Comissão Geral deu vitória para o governo, o sinal dos deputados de oposição, especialmente do professor Lemos, representante da categoria na Casa, comandou a invasão. Das galerias desceram manifestantes, as cercas foram rompidas e os deputados governistas obrigados a se retirar às pressas e se esconder numa sala atrás do plenário. Acabou aí a tentativa de fazer passar o pacote de uma vez só. O tratoraço, como prometera o líder do governo, Luiz Claudio Romanelli, transformou-se em fiasco.

À massa de professores juntou-se a militância dos partidos e facções derrotadas nas eleições de outubro. A manifestação ganhou força combativa, militância experiente e capaz de organizar ações muito coordenadas. Um dia de fúria. A violência acabou com a sessão. Os manifestantes decidiram não mais sair do plenário até que o governo retirasse seus projetos e negociasse novas reivindicações. Os deputados passaram a se reunir no restaurante da Casa.

No dia seguinte, ainda houve uma tentativa pífia e patética. Os deputados tentaram entrar na Assembleia dentro de um ônibus camburão da polícia. Mas não conseguiram fazer mais nada. A decisão mais sensata, para os riscos que a situação de violência propunha, foi cancelar tudo e todos. Rumaram para os seus carnavais.

Desde esse dia, os professores que impediram a Assembleia de se transformar em Comissão Geral trataram de transformar seu acampamento em arraial dos humilhados e ressentidos que perderam as eleições de outubro.

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Foto: Reprodução/Flirck Assembleia Legislativa do Paraná 2015

A greve passou a ser política e o objetivo fundamental, atendidas todas as reivindicações do funcionalismo, passou a ser meramente político. Ali está o baluarte de defesa do PT e de seu governo federal, o de Dilma Rousseff, o de Lula, o dos mensaleiros, o dos corruptos do Petrolão. Neste momento, misturar tudo para deixar todos os políticos e governos na vala comum é a única saída. Lula pediu à CUT que desista das manifestações nacionais que marcou para sexta, 13 de março. Há quem pense que é para evitar um fiasco – é difícil manifestar-se “em favor da Petrobras” ao lado do pessoal que passou os últimos anos a sugá-la. Há quem pense que é para evitar que a manifestação marcada para o domingo, dia 15, contra o governo, ganhe mais ímpeto. Nada disso, explica o jornalista Carlos Brickmann: o governo federal quer concentrar todas as forças de destruição no Paraná. O objetivo é demonizar o governador paranaense, o tucano Beto Richa, e criar um novo alvo que tire Dilma do foco das notícias negativas. Culpar só FHC já não é suficiente.

Beto Richa, diz ele, enfrenta uma série de problemas neste início de segundo mandato. A Associação Paranaense de Professores, radicalizadíssima, ligada a partidos como PSOL, PSTU e comandada pelo PT, está em guerra com o governador. Richa enfrenta a necessidade do ajuste fiscal, sempre doloroso e impopular. O Paraná – que formava com São Paulo a dupla de Estados que o PT tinha como prioritários em 2014, e nos quais perdeu já no primeiro turno – é visto como possível contraponto ao desmanche do prestígio do governo federal. É no Paraná o foco da luta.

Grandes grupos de militantes pró-PT foram enviados ao Paraná – CUT, MTST, MST – que Lula chamou de “exército do Stedile”, referindo-se ao chefe dos invasores de terras. Devem manifestar-se contra Beto Richa e os tucanos; e ficar por aqui no mínimo até domingo, 15, para contrapor-se às manifestações contra o governo federal. O clima em Curitiba é o mais quente do país.

 

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Foto: Reprodução/Flirck Assembleia Legislativa do Paraná 2015

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