Diploma de malandro

Uma figura mítica de Curitiba, o Michi Boy era um frasista de primeira ordem e sua definição sobre a malandragem se escudava um tanto quanto nos jogadores de futebol ao afirmar que “se ginga fosse o máximo nessa busca, ninguém superaria o marreco”. De fato, nem Romário ou qualquer outro deus dos estádios suplantaria o balanço do animal, um saque adequado a observadores da natureza e dos bichos que a habitam e nos quais reconstituímos o homem ao tratá-los também como ratos, lobos, raposas ou patos.

Quando se queria comprovar que o que se falava era verdade, um exercício comum da infância dos anos trinta, quarenta, costumava-se recorrer a um juramento pesadíssimo, no fundo religioso e mórbido: quero ver minha mãe morta atrás da porta se isso não tiver acontecido. Michi amaciava a confissão com o seu falar de tom imigrante, europeu do Leste, com deslumbrante afirmação de amor maternal: “Quero ver a minha mãe atrás da porta… com o corpo coberto de brilhantes…”. Aí um pouco do temor reverencial e supersticioso por declarações do gênero e uma esparramada e também debochada afeição maternal.

Das figuras clássicas da boemia curitibana do mundo dos cassinos e casas de tavolagem, o velho Mylla era uma das expressões fortes: parecia transferir para suas aventuras as artes de quem lida com joias, o ourives aplicado que era seu campo mais profissional.

Sobre malandragem costumava contar como adquirira o seu diploma na matéria: andava nas matas do Passeio Público, lá pelos anos trinta, ainda criança, atrás de coleirinhos, passarinhos amestráveis para tirar água de minúsculos poços, quando viu à sua frente um policial com uma gaiola cheia da ambicionada ave e com ar meio súplice, adequado a um menino pidonho, demonstrou que gostaria de levar um deles, ao que o enorme caçador perguntou o que ganharia em compensação, sugerindo nada mais nada menos do que um troca-troca, um folguedo sexual. Quando Mylla captou que estava numa enrascada diante de um parceiro gigantesco saiu correndo, entre os plátanos, e gritando “para que eu quero um coleirinho se nem gaiola eu tenho!”. E repetia, orgulhoso, que nesse dia ganhou seu primeiro, mas também definitivo, diploma de malandro.

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