Estúdio Mix, uma tarde em 2015

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Em 1967 aconteceu o Festival de Música Popular Brasileira, que revelou grandes nomes da canção brasileira. Agora, quase 50 anos depois, podemos estar a assistir o surgimento de outro festival

 

Antes, quando a novela ainda não era a rainha da televisão brasileira e a Rede Globo não era o castelo, os musicais embalavam as famílias brasileiras na Rede Excelsior e Record. A tevê não era chata, era tubo. A imagem nem tão boa, mas boas coisas se passavam. Entre tantas, o Festival de Música Popular Brasileira, que obviamente anos mais tarde foi para a Globo, que não dá ponto sem nó.

Paulinho Machado de Carvalho, um dos fundadores da TV Record e que ficou à frente dos negócios por 60 anos, falou no documentário Uma noite em 67 que a iniciativa de promover um festival de música popular brasileira não era nada mais nada menos que fazer um bom programa de televisão, esta fora a motivação primeira.

Os músicos que participavam também não encaravam a competição tão a ferro e fogo, como a mídia na altura fazia questão de publicar. Chico Buarque declarou que aquilo não passava de amigos a tocar juntos, a provocação de tirar o primeiro lugar e desbancar o colega era pueril, uma gozação. “Quando entrou o Caetano foi uma vaia monumental e para vocês verem que o ser humano não vale nada, eu pensei: ‘meu deus, menos um’. […] Aí a música foi andando, o Caetano Veloso foi dobrando o público e as vaias foram baixando, começaram os aplausos e mais aplausos e mais e mais e ele virou o público e quando olhei, provando que o ser humano vale alguma coisa, até eu estava aplaudindo e ovacionando o meu concorrente”, assumiu entre risadas Nelson Motta, que naquele ano também tinha uma música inscrita.

E nesse festival, talvez o mais célebre de todos, pois revelou canções como Ponteio, Domingo no parque, Roda Viva e Alegria, Alegria, foi o acontecimento da MPB, embora Edu, Gil, Chico e Caetano já estivessem na cena, a partir desse ano eles aconteceram para o Brasil. Todos puderam vê-los e o que traziam: da revolução estética tropicalista com as guitarras elétricas à impecável melodia de Edu Lobo.

Hoje, quase 50 anos depois, a tevê está chata e as novelas governam. Entretanto, curiosamente, na mesma Rede Record – ou quase nela – está a surgir um novo Festival da Canção. E aqui na terra dos pinheirais. Na Rede Mercosul, a Record News no Paraná – como anuncia a belíssima apresentadora Adriane Grott.

A Record News é um braço da Rede Record, hoje nas mãos do pastor Edir Macedo, e a Rede Mercosul é a Record News local. Orgulhemo-nos! Por aqui temos um pessoal a trabalhar duro para buscar a canção perfeita, cuja ambição é o mote do programa Estúdio Mix – em busca da canção perfeita.

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Adriane Grott. Foto: Lina Faria

Estúdio Mix é um programa gravado ao vivo que conta com duas apresentações (elas podem ser individuais ou não), três jurados (Fabio Elias, cujo sucesso atingiu níveis nacionais com sua banda Relespública, é um jurado permanente. Os outros dois revezam a cada programa) e a apresentadora Adriane Grott, que organiza o movimento e orienta o carnaval. O objetivo é descobrir o novo da música paranaense, um pessoal que faz música, mas ainda está trancado na garagem, nos saraus com a galera da faculdade e em outros lugares que o grande público não tem acesso.

Para participar do programa o músico passa por uma seletiva, se aprovado é chamado para gravar. Lá não há distinção de gênero musical, afinal mix é uma palavra inglesa que vem do latim mixtus, o particípio passado de miscere, que quer dizer misturar, e é essa a proposta do Estúdio Mix, misturar vários tipos de música. “As músicas inscritas devem ser autorais e em português”, diz a produtora Fran Bianchi. Isto para valorizar a língua e a música brasileira.

Estar fora do circuito musical não significa ser jovem. No dia em que a Ideias foi acompanhar a gravação do programa predominou o pessoal digamos que de outra geração. A começar com Mr. Celio Junior, que diz estar na estrada há 20 anos.
Mr. Celio concorreu com a banda BlackPipe, um pouco mais jovem, formada em 2012. A música Boa noite da garotada mexeu mais com os jurados e ganhou por três votos a zero. Os jurados avaliam letra, ritmo, harmonia e performance.

Por dia de gravação são dois programas. E olha, dá trabalho. Adriane entra a anunciar o programa do dia. O diretor Claudio Roberto da Silva, o Claudinho, incisivo, diz “corta”. A plateia se assusta e pergunta por quê? “Mais simpática.” Sério mesmo? Mas ela por si só é simpática. Tudo bem. Televisão tem dessas coisas. Lá vai ela de volta. Eita! Se embanana no texto, volta. Ufa, agora deu. Tudo certo, veio tão simpática como uma miss, declamou o texto com precisão de poeta. Alguém grita “tem que refazer, não bateram claquete”. É companheiro, ver o programa do sofá da sua sala está a parecer mais fácil do que já é, não é?! E a produção anuncia que o tempo passa, vai esgotar a hora do estúdio, tem o jornal às 17h30. Uma pressão de todos os lados que no final das contas resulta em muitas gargalhadas e diversão.

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Foto: Lina Faria

A gravação do segundo programa contou com a participação da velha guarda (?), nem tão velhos assim, mas nem tão novos. Quem protagonizou o palco na primeira apresentação foi o grupo Wella e Ozômi, aqui temos um embate quase filosófico. Quem carrega Ozômi é Wellington Wella, professor de português de dia e de noite dono de bar, como o próprio diz.

Em 2002 venceu o Prêmio Jabuti junto com Luciana Worms com o livro “Brasil século 20 – ao pé da letra da Canção Popular” e também comandou por 12 anos um programa de música popular na rádio e-Paraná, também ao lado de Luciana Worms. Estava de jeans, tênis confortáveis e uma T-shirt, como qualquer jovem. Ozômi são três garotos que ainda não podem se alcoolizar em qualquer lugar do mundo, recém alcançaram a maioridade e se vestiam como distintos cavalheiros, engravatados e tudo mais. O velho era novo e os novos eram velhos. Seriam eles os novos velhos de hoje? Talvez. E a música que apresentaram trazia esse dilema, o refrão pegajoso brincava com as palavras e dizia: “Eu prefiro ser um mau véio do que um bon jóvi”.

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Foto: Lina Faria

O outro grupo também beirava a esquizofrenia (do bem, se é que existe). Cláudio Pimentel e Os Misantropos, nome irreverente. Misantropos, àqueles pouco familiarizados com o Aurélio, são pessoas que têm aversão a pessoas. Aqui entra a esquizofrenia, Cláudio Pimentel é deveras comunicativo, fala pelos cotovelos, ri de tudo e de todos, ri de si próprio. Eles já lançaram um álbum, Psiconáutica, doze faixas de autoria de Cláudio e arranjo dos Misantropos.

Entre ambos os conjuntos esquizofrênicos o que levou a melhor foi o mau véio Wella. Agora ambos os vencedores – Wella e Ozômi e BlackPipe – juntar-se-ão a outros vencedores do mês de fevereiro e farão uma finalíssima do mês. Esta é a proposta do Estúdio Mix, buscar a canção perfeita, e o vencedor dos vencedores terá a gravação de um disco e a produção de um videoclipe.

O programa vai ao ar todo sábado às 15h30, com reprises aos domingos, no mesmo horário. O Estúdio Mix está se encaminhando para o quarto mês e há boatos que a Record News quer tirá-lo do âmbito local e torná-lo nacional.
Será que estamos a assistir o surgimento de um novo festival da canção, como aqueles que revelaram Caetano, Gil, Chico e Edu?

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Foto: Lina Faria

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