Música erudita. Ed. 161 – Técnicos ou performáticos?

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David Garrett e Vanessa-Mae

 

O conceito de virtuose está diretamente ligado ao músico que alcançou elevadíssimo nível de entendimento e competência técnica no desempenho ou na realização de sua própria arte. Muitos já foram assim chamados, sendo [talvez] o mais conhecido de todos Amadeus Wolfgang Mozart, que brilhava aos seis anos tocando em casas de nobres e em palácios. Reza a história que, certa vez, o imperador Francis I testou o pequeno Mozart, cobriu o teclado com um lenço, pedindo que ele tocasse com apenas um dedo de cada mão, e ele tocou com a mesma destreza de antes. O imperador ficou extremamente admirado. Nascia aí o culto ao Mozart virtuose, técnico e, quem sabe, performático.

Músicos técnicos ou performáticos, a escolha é difícil, pode depender da necessidade de ouvir ou ver, do momento ou, até quem sabe, de uma maneira de se praticar e pôr em prova sua própria performance.

David Garrett é um dos que bebeu na fonte. É alemão, nascido em Aachen, em 1980, violinista dos bons. Começou cedo, aos cinco anos já participava de competições, ganhando prêmios, aos sete já tocava em público e aos treze assinou contrato de exclusividade com a famosa gravadora de música erudita Deutsche Grammophon.
Era preciso mais, por isso foi para Nova York estudar na famosa escola de música Juilliard, para aprofundar seus conhecimentos do violino, se formou e não parou mais.

Garrett tem presença de palco, figura estonteante, com seus cabelos louros compridos. Interpreta como se estivesse amando as notas musicais e demonstra isso nos movimentos de seu corpo, na interação com o violino, no ritmo da orquestra, que dita movimentos rápidos, intensos, pausas.

O violinista toca um Stradivarius e se dedica à música três horas por dia, às vezes mais, principalmente quando está preparando um repertório para um novo CD. Sua discografia é farta e vale a pena conhecer. Garret Vs Paganini, lançado ano passado, é imperdível. Mistura o gênero clássico, Pop com estilo Moderno e Neoclássico. É singular. Técnico, performático, ou ambos?

 

Vanessa-Mae

Ame-a ou deixe-a. É como se pode definir Vanessa-Mae. Esta violinista cingapuriana de 37 anos já tem muita história para contar. Aos 13, entrou para o livro de recordes Guinness Book, por ser a pessoa mais jovem a gravar os concertos de violino de Tchaikovsky e Beethoven.

Apesar de formação clássica, Vanessa-Mae deixou o lado conservador e partiu para um estilo que ela mesma define como uma fusão techno-acústica, misturando clássico, Pop e Jazz.Além disso, mescla o violino tradicional com o violino elétrico [heresia?].

Suas apresentações em concertos são um misto de performance, apelo e show. Costuma usar diferentes tipos de violino em suas apresentações, com formatos de gosto duvidoso, coloridos, transparentes, que podem ser de dois tipos, finíssimos, com uma largura que nem dá para acreditar que possa ali existir uma “alma”, e outro, ornamentado e com partes em madeira dourada. Quem sabe ato midiático, premeditado, mas que juntando tudo redunda na conquista de um público jovem, avesso à música erudita, mas que vai no embalo e acaba conquistado.

Sua discografia é igualmente farta e seu primeiro CD, intitulado The Violin Player, vendeu mais de três milhões de cópias no mundo todo. Vale a pena ouvir, nem tanto apreciar os DVDs.

Vanessa-Mae é controversa, performática sim, tem em Mahler seu compositor favorito. Está explicado: Mahler é para poucos, também o é a violinista.

Assim como Mozart foi, David Garrett e Vanessa-May são prodígios [guardadas as devidas proporções, claro]. Os contemporâneos dialogam com o público, em perfeita harmonia com o seu tempo, explorando diferentes formas de atuação para expressar seu virtuosismo – com destreza, habilidade especial e desempenho ímpar.

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