Sobre histeria, seriados e vibradores

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Certo dia, assistia a um seriado denominado American Horror Story quando me surpreendi com um diálogo entre duas mulheres discutindo sobre a histeria feminina. Segundo uma delas, o termo teria sua origem na Grécia antiga da palavra Hystera, que significaria útero. A explicação continuava, dizendo que os gregos assim denominavam essas manifestações de descontrole das emoções por acharem que a patologia era unicamente feminina, já que proveniente do fluxo do sangue “contaminado” entre o útero e o cérebro, daí o comportamento “histérico”. O diagnóstico naturalmente seria, segundo a personagem, muito machista e significaria a dominação e exploração da mulher pelo homem. Até aí nada demais, até porque um personagem masculino dissera a uma delas em bom tom que, para ele, a mulher só servia para duas coisas: fazer sexo e sanduíches. Complementando a humilhação, disse ainda que como não estava a fim de transar com ela, então que fosse até a cozinha e lhe preparasse um belo sanduíche. Para um machista fundamentalista (está na moda) como muitos que conheço, também nada demais.

No entanto, o que mais chamou a atenção no primeiro diálogo foi a informação de que o tratamento médico para tal distúrbio era, até o início do século 20, realizado através da manipulação clitorial, sendo então as mulheres portadoras desse mal submetidas nos gabinetes médicos a um constrangimento para alcançarem o paroxismo através do orgasmo intenso, ou seja, masturbadas de forma profissional. Às vezes os médicos, muito cansados do trabalho manual, passavam a manipulação para enfermeiras e parteiras. A vida era dura para os médicos também!

Pesquisando a título de curiosidade, transcrevo um pequeno trecho retirado da revista Scientific American, de outubro de 2009, de um artigo publicado por Mara Hvistendahl que traz ao vibrador um importante papel para a “cura” da “histeria” e seu tratamento “caseiro”.

“Para um artefato sexual, as origens do vibrador parecem surpreendentemente antissépticas e clínicas. Prescrito como terapia para a curiosa doença da histeria durante décadas, o dispositivo teve aplicações clínicas como uma pretensa terapia médica.

Derivada da palavra grega para “útero”, a histeria ocorria em mulheres com energia sexual reprimida – ou assim pensavam curandeiros e médicos antigos. Freiras, viúvas e solteironas eram particularmente suscetíveis, mas durante a era vitoriana muitas mulheres casadas também sofriam do mal. No fim do século 19, uma dupla de prestigiados médicos estimou que 75% das mulheres americanas corriam risco de sofrer de histeria.

A prescrição de orgasmo clitorial como tratamento consta em textos médicos desde o século 1 d.C. Mulheres histéricas normalmente recorriam aos médicos, que as curavam por manipulação, induzindo-as ao “paroxismo” – termo que camufla o que conhecemos como orgasmo. Mas a estimulação manual era demorada e – pelo menos para os médicos – tediosa. A invenção da eletricidade tornou a tarefa mais fácil. Joseph Mortimer Granville patenteou o vibrador eletromecânico no início da década de 1880 para aliviar dores musculares, mas os médicos logo perceberam que podia ser usado em outras partes do corpo. A inovação diminuiu a duração do “tratamento” da histeria, engordando as carteiras dos médicos.”

O seriado, enfim, estava certo. Mas a verdade é que do tratamento humilhante da histeria, originou-se a popularização de um dos primeiros eletrodomésticos utilizados em larga escala no mundo feminino, qual seja, os modernos, criativos e populares vibradores sexuais, campeões de venda e ícones atuais das lojas de sexy shop espalhadas pelo mundo afora. Então, convenhamos, foi através da terapia médica rudimentar da histeria que trouxe ao mundo a invenção do vibrador moderno, beneficiando finalmente a mulher, que, assim, amealhou sua independência sexual. Estou assistindo cada vez mais seriados.

 

 

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