Tancredo Neves e o Paraná – 1

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O começo: o papel de José Richa e Affonso Camargo Netto

 

Este início de 2015 marca os trinta anos da eleição de Tancredo Neves à Presidência da República, ao fim de uma campanha que mobilizou o país e, como ele mesmo disse, transformou uma eleição indireta numa virtual eleição direta, que, por sua vez, acabou com o resto de uma ditadura de exatos vinte anos. Aquele ano de 1985 marcou, também, a tragédia da morte de Tancredo Neves, mas não impediu que se completasse a transição pacífica da ditadura para a democracia, compromisso pelo qual Tancredo estava disposto a sacrificar e de fato sacrificou a própria vida.

Não sei se se sabe, no Paraná, da importância desse Estado na campanha presidencial de Tancredo. Espero que se saiba e que o presente registro seja redundante e até inútil, mas faço questão de fazê-lo em homenagem à memória de três líderes políticos do Paraná aos quais o triunfo de Tancredo tanto ficou devendo: o então governador José Richa, o então senador Affonso Camargo Netto e o então deputado Norton Macedo. Falo nesses três porque, como jornalista primeiro e em seguida como assessor de Tancredo, testemunhei do início ao fim a luta e a coragem deles nos momentos mais difíceis.

Richa foi eleito governador do Paraná no mesmo ano em que Tancredo foi eleito governador de Minas, 1982, na primeira eleição direta desde 1965 para os governos estaduais. Era mais uma das conquistas da oposição, mais um passo da abertura política iniciada pelo presidente Ernesto Geisel e então conduzida, ou melhor, levada nas costas, com mais recuos que avanços, por seu sucessor João Figueiredo.

Nessa eleição, a oposição tinha conquistado dez governos estaduais e, entre eles, os mais importantes: São Paulo, Minas e Rio. Não só por essas conquistas da oposição, mas pelo simples fato de ter sido pelo voto direto a escolha de todos os novos governadores, ressurgiu de imediato a questão: por que não ser também pelo voto direto a eleição do próximo presidente da República?

Dos governadores eleitos pela oposição, quem tinha mais possibilidade política de levar a Figueiredo essa pergunta, na verdade uma reivindicação, era Tancredo, que o fez imediatamente depois de empossado. E quem tinha maior possibilidade de aplacar a fúria intermitente de Figueiredo era Richa, talvez por ter sido um dos auxiliares mais próximos de Ney Braga, militar como Figueiredo, seu contemporâneo na escola militar e governador do Paraná em 1960.

Quando se convenceu de que Figueiredo não concordaria com a eleição direta para presidente, prisioneiro como estava de seu dispositivo de segurança, Tancredo avisou-o, lealmente, de que a oposição iria para as ruas pedir “diretas já!” numa grande campanha popular. E sugeriu a Richa que aproveitasse a próxima visita do presidente ao Paraná, para a inauguração de mais uma turbina de Itaipu, e lhe esfriasse a cabeça frequentemente febril.
Ainda em 1983, ao ser renovada a direção nacional do PMDB, o maior dos partidos oposicionistas, o grupo pró-Tancredo já era majoritário na convenção, mas Tancredo fez questão de apoiar a recondução de Ulysses Guimarães à presidência do partido. A Tancredo coube indicar o secretário-geral e ele indicou o senador Affonso Camargo Netto, que não só vinha da antiga Arena, o partido do regime militar, mas era também biônico, escolhido em eleição indireta.

A indicação de Affonso foi, inicialmente, muito mal recebida, mas Tancredo não só confiava na lealdade, competência e coragem dele, como sabia perfeitamente o que estava fazendo. A oposição não conseguiria, apenas com seus votos no Congresso, impor o retorno das eleições presidenciais diretas. Ela já tinha teoricamente a maioria de metade mais um, insuficiente para alcançar os dois terços de votos, na Câmara e no Senado, necessários para a aprovação da emenda constitucional respectiva. Era preciso atrair bom número de votos do novo partido governista, o PDS. A indicação de Affonso Camargo significava que Tancredo estava disposto a um diálogo sem preconceitos com o outro lado – o lado do qual viera Affonso.

Affonso revelou tal competência e inteligência na secretaria-geral do PMDB que logo conquistou a confiança de todos aqueles que não tinham visto com bons olhos sua indicação. Foi ele, aliás, que desencadeou a campanha das “Diretas já!”, com o apoio de Richa e Tancredo, de um lado, e de Ulysses do outro.

A campanha começou nos primeiros dias de janeiro de 1984, com um comício em Curitiba, anterior ao próprio comício da Praça da Sé, em São Paulo. Affonso escolheu Curitiba por sabê-la uma cidade “fria”, não muito novidadeira. Se o comício esquentasse a cidade, isso seria sinal de que a ideia das “diretas já!” estava madura para ser levada ao Brasil inteiro. Se o comício fracassasse, Affonso seria crucificado. Mas ele correu o risco, o comício de Curitiba foi um sucesso e estabeleceu a certeza de que os comícios seguintes seriam ainda maiores. Até a cor escolhida para a campanha, e logo materializada nas gravatas amarelas que todo mundo começou a usar no Congresso, foi proposta por Affonso, acolhendo sugestão do chefe da pequena equipe de publicitários que montara, liderada por um profissional de Curitiba, Antoninho de Freitas.

O sucesso da campanha foi tão grande que Figueiredo, enquadrado por seus órgãos de segurança, recorreu às maiores violências, até a censura à televisão, e conseguiu impedir que a emenda das “Diretas já!”, de autoria do deputado Dante de Oliveira, fosse aprovada no Congresso.

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