Gláucio

Quando entrei em seu apartamento, vi que seus olhos estavam diferentes. Coisa que eu não sabia muito bem explicar nem definir. Senti. Pareciam duas imensas amêndoas ocas. Primeiro pensei que ele não queria que eu ficasse, fui ficando.

Conversamos sobre o taxista que me levou, conhecia-o bem, era quem ele mandava me buscar e me levar e para quem sempre falava, cuide bem de minha joia, pagava a corrida e batia duas vezes no capô. Depois virava as costas, abria o portãozinho e entrava no prédio acendendo o cigarro. Sempre senti falta que ele não olhasse o carro sair, não me acenasse, nem fizesse uma cara triste, por eu estar indo embora, mesmo que fingida. Ele nunca me esperou partir, todas as vezes, fez isso antes.

Mas me olhava com aqueles caroços vazios. E eu, por não saber o que fazer, tratei de desabotoar sua camisa, não tinha muita vontade, mas não me sobrava muita coisa. O primeiro foi fácil, comecei por baixo. Vi que Gláucio ia ficando nervoso na medida em que minhas mãos subiam, por isso o tateei antes de continuar. Minhas mãos percorriam suas costas, seu peito, as costelas, escorregava devagar e queria beijá-lo. Ele tenso, imóvel, mãos derrubadas ao lado das pernas, me disse que não queria, hoje não minha joia, hoje não. E por que mandou o carro me buscar?

Desde que comecei a sair com Gláucio, a história era sempre a mesma: o táxi me pegava em casa, eu chegava em seu apartamento, esfriávamos as febres do corpo, eu tomava banho e voltava pra casa. Só de vez em quando comíamos alguma coisa ou víamos um pouco de televisão.

Perguntei o que ele queria. Se sentou no sofá, apoiou os antebraços nas coxas de um jeito que suas mãos pareciam folhas mortas e derrubou a cabeça pra baixo. Não me olhava nem dizia. Me ajoelhei em sua frente e tentei abrir os botões de cima. Os segundos entre a minha ação e a dele de se esquivar revelaram em seu ombro e pescoço algumas marcas. Quis saber, exigi saber. Arranquei sua camisa com força que nem sabia que tinha. Marcas de unhas, vestígios de outro amor, sinais de paixão. No compasso de sua respiração aqueles vergões faziam dança de avanço e recuo, aumentavam e diminuíam, pulsavam vermelhos, vivos e quentes.

Lembro que uma vez eu dei uma mordiscada no pescoço de Gláucio e ele ficou cheio de fúria, segurou meus cotovelos e me afastou longe, disse que eu não podia marcá-lo, que o pessoal do escritório era exigente, que não dava para aparecer assim no trabalho. Ficou fulo mesmo.

Eu comecei a gritar. Xinguei-o, derrubei coisas, maldisse seu pai, falei da sua mãe, joguei no chão o cinzeiro e chorei. Nem era um choro sincero, mas eu chorei muito. Gláucio me levantou com delicadeza, beijou meu rosto salgado e me conduziu, como quem leva dama para pista de dança, ao quarto. Quando me vesti, o táxi já estava me esperando.
Entrei no carro, ele pagou o chofer, não disse, bateu no capô e ficou olhando eu ir embora. Na quarta-feira seguinte, o motorista não veio me buscar.

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