O coro da multidão

Foto: Orlando Kissner

“Fora Dilma” e “Fora PT” tornaram-se uníssono nas ruas do Paraná e do Brasil

 

A pior traição é aquela do amigo, do parceiro, do companheiro de viagem. E junto com a decepção, formaram o sentimento de três grupos de pessoas que a Ideias acompanhou no protesto contra a presidente Dilma Rousseff e o PT no último dia 15 de março em Curitiba. Mais de 120 mil pessoas ocuparam as ruas centrais da capital do Paraná, 285 mil em 20 cidades do Estado e 2,2 milhões em todo o Brasil. “Fora Dilma”, “Fora PT” foram o uníssono das ruas, a voz rouca das que atordoou o petismo pelo país afora.

“É a pior decepção da minha vida”, resumiu um jornalista, ainda filiado ao PT, mas já sem militância partidária, que com sua mulher, uma médica e três filhos, dois pequenos e um adolescente, foram do Juvevê até a Praça Santos Andrade, no centro de Curitiba. Dez quadras antes, quando conseguiram estacionar o carro, um professor de educação física se juntou ao grupo. A tarde ensolarada ajudou as levas e levas de pessoas, de todos os cantos da cidade, que se confluíram na Rua XV de Novembro e suas transversais. Era uma multidão de gente nunca vista em Curitiba, nem nas manifestações que varreram a cidade no mês de junho de 2013.

 

Fora Dilma
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Foto: Orlando Kissner

De verde e amarelo, as pessoas cantavam o hino nacional e gritavam, de forma sistemática, “Fora Dilma” e “Fora PT”. Muitas faixas pediam o impeachment de Dilma e outras o fim da corrupção. A manifestação em Curitiba foi maior do que a “Diretas Já”, em 1984, com 50 mil participantes, e ato pelo impeachment de Collor, que reuniu 15 mil pessoas em 1992 na Boca Maldita. “Eu gritei pelo Fora Collor e hoje é pelo Fora Dilma”, disse uma senhora, já idosa, extasiada.

Muitas bandeiras, apitos e milhares de cartazes que pediam a saída de Dilma e do PT do governo apoiavam o juiz federal Sérgio Moro, cobravam rigor nas investigações do Petrolão e punição para os envolvidos, como a senadora Gleisi Hoffmann (PT) e o ex-deputado André Vargas (ex-PT), e ‘exigiam’ o fim da corrupção no país.

 

Separatistas

Outro grupo, formado por 20 estudantes do ensino superior, saiu do prédio-república, onde moram em quatro apartamentos, registrou tudo o que viu em fotos, vídeos e depoimentos, os quais pretende editar num documentário da memória do dia 15 de março.

“Este 15 de março entra para a história do Brasil. Um dia que será lembrado e que vai servir para representar um momento frágil da nossa ainda juvenil democracia. O que vejo não é ‘elite branca’ ou ‘protesto de rico’, vejo um movimento que está aí para comprovar para quem quiser que sua origem é popular, resultado da ojeriza coletiva com as instituições políticas”, disse um dos estudantes enquanto gravava o depoimento dos separatistas “O Sul é o meu País”.

Os separatistas, em peso no protesto com faixas, cartazes, camisetas e adesivos, farão uma consulta pública para medir o apoio dos moradores de Santa Catarina, Paraná e Rio Grande do Sul à proposta de separação do restante do Brasil. “Queremos que o plebiscito ocorra paralelo às eleições municipais de 2016”, foi o registro acompanhado por Ideias na gravação dos estudantes curitibanos. Numa busca no facebook se constata que o “Sul é o meu País” tem centenas de grupos e comunidades e milhares de simpatizantes na rede social.
“Os mais de R$ 80 bilhões roubados da Petrobras embrulham o estômago de muita gente, que está cansada, fatigada de tantas trapalhadas e com a roubalheira escancarada do dinheiro público”, comentou o estudante ao final da gravação com os separatistas.

 

Da periferia

“Certamente não havia quem chutasse algum número, se iria muita gente ou não, mas o fato é que a manifestação tomou uma proporção que surpreendeu”, disse o jornalista Cleverson Lima, que acompanhou outro grupo de manifestantes que veio de ônibus dos bairros de Curitiba.

Ao contrário do que o governo esperava, adianta Cleverson Lima, os atos no Paraná reuniram pessoas não só dos bairros de classe média e alta, mas também aqueles de bairros mais afastados, de pessoas que obtiveram aumento no poder de renda nos últimos anos.

É o caso do bairro São Braz, na região Oeste de Curitiba. Na linha de ônibus que liga o bairro ao centro da cidade, o jornalista encontrou outras 20 pessoas que seguiam em direção à manifestação. O mestre de obras Devacir Oliveira foi acompanhado da mulher Olga. “Pensávamos que com o ‘Mensalão’ e a prisão de toda aquela gente a corrupção ia dar um tempo, ou pelo menos acalmar. Mas ai vem o ‘Petrolão’ e cai como a gota d’água que faltava para o povo dizer que chega, não dá mais mesmo!”

Conforme mais próximo do centro, outros ônibus estavam lotados de manifestantes. Nas janelas dos prédios diversas bandeiras do Brasil eram expostas em apoio. “A partir daí, já se sentia que certamente haveria muitas pessoas.”

 

Povo na praça

“Descemos no ponto final, na Praça Tiradentes, e mais pessoas se juntavam no caminho para a Santos Andrade, o ponto de concentração. Na Rua XV já era possível ver grandes grupos que só se comparava a um jogo de Copa do Mundo. Em uma cidade cujo povo é tido como contido, tímido, até mesmo comparar com um jogo da Copa não faria muito sentido. Havia muito mais gente.”

As bancas de jornais que vendiam água e refrigerantes logo esgotaram todo o estoque em pouco tempo. A professora de ensino fundamental Helena Castro, por exemplo, se disse simpatizante de algumas políticas do PT, mas que estava participando da manifestação pelos seus alunos. “Eu estou aqui participando pelo futuro dos meus alunos. Estes desvios e corrupção acabam tirando os recursos que deveriam ser investidos em educação e não permitem um país melhor para eles. Sinto como uma obrigação.”

“O impeachment não adianta. O jeito é protestar, ir pra rua e pedir mudança. Houve uma possibilidade no ano passado, mas não se conseguiu. Então, o momento é de ir pra manifestação, chamar a atenção, conscientizar a população para pressionar os políticos para que haja as mudanças”, dizia o contador Rogério Fonseca.

 

Cidades

No Paraná, não foi só Curitiba que protestou. Outras cidades do Estado – Londrina, Maringá, Ponta Grossa, Cascavel, Foz do Iguaçu, Guarapuava, Paranaguá, Paranavaí, Barbosa Ferraz, Umuarama, Pato Branco, Apucarana e Francisco Beltrão – reuniram mais 165 mil manifestantes.

Em Londrina, o protesto reuniu 60 mil pessoas, conforme os organizadores e 45 mil, segundo a Polícia Militar. O protesto começou por volta das 15 horas, em frente ao Colégio Estadual Vicente Rijo, na região central. Acompanhada por pelo menos três carros de som, a multidão seguiu rumo ao calçadão, passando pelas avenidas Higienópolis e Paraná. O grupo novamente se concentrou em frente à Praça da Bandeira.

Em Maringá, mesmo com chuva, mulheres, homens, jovens, crianças, famílias foram ao protesto contra Dilma. Os organizadores apontaram que entre 20 mil e 30 mil pessoas compareceram à Praça da Catedral, mas a PM calculou em 7 mil. O ponto alto da manifestação foi o abraço coletivo na catedral.

Em Cascavel, mais de 15 mil pessoas participaram da manifestação. Como em todo Brasil, os manifestantes foram com camisetas amarelas e verdes, e concentraram-se na área em frente à Catedral na Avenida Brasil e de lá seguiram em passeata até o Centro Cívico, em frente à prefeitura.

Os manifestantes foram expressivos em Ponta Grossa (20 mil), Guarapuava (20 mil), Paranavaí (15 mil), Foz do Iguaçu (10 mil) Apucarana (5 mil), Francisco Beltrão (5 mil), Pato Branco (5 mil), Umuarama (3 mil) e Barbosa Ferraz (2 mil). Os números foram levantados pelos organizadores no facebook que registraram protestos ainda em pequenas cidades do interior.

 

Ordeiro e pacífico
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Foto: Orlando Kissner

Um dia depois dos protestos no Paraná, a Secretaria de Segurança Pública adiantou que as manifestações foram “ordeiras e pacíficas”, sem registro “de qualquer grave incidente”, bem diferente da tumultuada invasão patrocinada pelo PT há um mês na Assembleia Legislativa.
“Os protestos transcorreram de forma pacífica e ordeira. A Polícia Militar e a Polícia Civil acompanharam de perto os manifestantes. Apesar do grande número de pessoas nas ruas não foram registradas ocorrências graves. A manifestação foi pacífica, mostrando ser possível protestar contra a corrupção de forma organizada e inteligente”, disse o secretário de Segurança, Fernando Francischini.

A Polícia Militar atuou com 1.914 policiais militares, que estavam em 346 viaturas em todo o Paraná. Em Curitiba, o 1º Comando Regional da Polícia Militar utilizou 950 policiais militares em 113 viaturas e nenhuma ocorrência foi registrada. Também foi utilizada uma aeronave do Batalhão de Operações Aéreas e a Cavalaria também auxiliou com a segurança do protesto.

 

Atordoados

Na mesma noite dos protestos, dois ministros do governo Dilma foram conversar com a imprensa em Brasília. Atordoados, José Eduardo Cardozo (Justiça) e Miguel Rosseto (Secretaria-Geral) acusaram o golpe. Enquanto Cardozo tentava ser republicano, Rosseto dizia que os manifestantes eram eleitores que não tinham votado em Dilma. Enquanto falavam, Cardozo e Rosseto não ouviram mais um panelaço contra Dilma e seu governo.

Dois dias depois, o Datafolha deu mais uma estocada na tese dilmista. A reprovação de Dilma subiu de 44% registrados em fevereiro para 62%. De cada 10 brasileiros, oito acreditam que a presidente sabia da corrupção na Petrobras, e para 61%, Dilma “deixou” que ocorressem os crimes na estatal. Os resultados são parecidos entre todas as divisões socioeconômicas, faixas etárias e preferências partidárias, inclusive entre eleitores da petista. A pesquisa entrevistou 2.842 pessoas logo após as manifestações do dia 15.

Em Curitiba, o Instituto Paraná Pesquisas revelou que 85,24% dos curitibanos querem o impeachment da presidente. A pesquisa foi feita na manifestação do dia 15 e entre os entrevistados, 26,99% criticaram o governo do PT, 25,77% responsabilizaram Dilma pela crise econômica do país e 24,54% afirmaram que a corrupção é ligada ao governo como um todo.

 

Fogo amigo

Dilma continuou sangrando após as manifestações e pesquisa. Na mesma semana da pesquisa, um documento debitado na lavra do jornalista Thomas Traumann, titular da Secretaria de Comunicação, jogou mais gasolina na crise governamental.

“Ironicamente, hoje são os eleitores de Dilma e Lula que estão acomodados brigando com o celular na mão, enquanto a oposição bate panela, distribui mensagens pelo Whatsapp e veste camisa verde-amarela. Dá para recuperar as redes, mas é preciso, antes, recuperar as ruas. Os robôs que atuaram na campanha (de Dilma) foram desligados e a movimentação dos candidatos do PT foi encerrada”, diz trecho do documento.

Para Traumann – em Brasília e no petismo, o texto é creditado a Franklin Martins –, houve um descolamento entre o governo e a militância do PT. “A mudança nas regras do seguro-desemprego e pensão por morte, o desastrado anúncio de cortes do Fies, o aumento nos preços da gasolina e energia elétrica e o massacre nas TVs com as denúncias de corrupção na Petrobras geraram entre os dilmistas um sentimento de abandono e traição.”

Constata-se hoje nas redes sociais, diz o outro trecho do documento, uma mágoa dos eleitores de Dilma, registrada em frases como “votamos nela e a política econômica é do Aécio”, “não tinha como ela não saber dessa corrupção toda na Petrobras”, “ela disse que a vaca não ia tossir, mas tossiu”, “ela mexeu nos direitos dos trabalhadores”, “na hora de pedir voto ela aparecia e agora sumiu”, “ela disse que ia segurar a conta de luz e soltou”.

 

Pagar caro

Outra pá de cal veio no dia 23, uma semana após as manifestações. A presidente continua com alta reprovação, conforme pesquisa nacional da CNT (Confederação Nacional do Transporte). A maioria dos brasileiros considera que o desempenho de Dilma como presidente é ruim ou péssimo. A avaliação negativa chegou a 77,7%, contra 40,1% registrados na última pesquisa. A maioria, 59,7%, disse ser a favor do impeachment de Dilma.

Na pesquisa, 81% avaliam que Dilma não está cumprindo o que prometeu. Sobre o escândalo da Petrobras, 85% afirmaram que estão acompanhando as denúncias de corrupção e 68,9% avaliam que a presidente Dilma é a culpada pelo esquema.
De acordo com a CNT, foram entrevistadas 2.002 pessoas, em 137 municípios de 25 estados entre os dias 16 e 19 de março, portanto, após os protestos contra o governo, no dia 15 de março.

“A sociedade paranaense pode ser tudo, menos otária. Nós estamos sendo duramente criticados, nós do PT, por uma série de erros que aconteceram, por uma série de equívocos que continua acontecendo. Vamos pagar um preço muito alto. O PT vai pagar um preço muito alto pelos seus erros. Não tenho dúvida disso. A sociedade hoje olha para o PT e não vê o PT como via em 89, 94, 98, 2002 e até seis meses atrás. Vê com muita desconfiança porque (o PT) cometeu muitos erros que não poderia cometer na ética”, resumiu o deputado Tadeu Veneri, líder emergente do PT, em mea-culpa no legislativo paranaense.

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Foto: Orlando Kissner

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