Tancredo Neves e o Paraná (2)

Depois das “Diretas Já!”

 

A derrota da emenda das diretas era prevista pela oposição. No fim de semana anterior à votação da emenda, Roberto Gusmão, secretário de Governo e principal articulador político do governador Franco Montoro, de São Paulo, convidou alguns jornalistas para um encontro reservado com Fernando Henrique Cardoso, José Serra e ele próprio.

Eu estava entre os convidados, como comentarista político da TV Bandeirantes, e ouvi Gusmão abrir o encontro explicando que Fernando Henrique, então senador, chegara de Brasília com os números finais das oposições e a certeza de que a emenda das diretas teria maioria absoluta na Câmara dos Deputados, mas não conseguiria os dois terços de votos exigidos pela Constituição e nem iria à votação no Senado, sendo imediatamente arquivada.

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Tancredo Neves. Foto: Célio Azevedo/fotospublicas.com

Fernando Henrique confirmou a informação e explicou que as lideranças oposicionistas estavam muito preocupadas com o day after, o dia seguinte à votação, pois a decepção popular poderia resultar em explosões de violência, sobretudo em São Paulo. Sugeri de imediato, com mais sofreguidão que ingenuidade, querendo o furo jornalístico, que Fernando Henrique gravasse comigo, ali, uma entrevista para a Bandeirantes, denunciando as violências do governo naquele momento, em razão das quais a emenda seria derrotada. Como chefe de redação que também era da Bandeirantes, eu podia garantir que a entrevista seria transmitida sem cortes e sem os truques de edição tão temidos pelos políticos.

Nesse momento Serra interveio pela primeira vez:
– O Fernando não pode fazer isso. Ele é presidente do PMDB de São Paulo. Se ele disser de público que a emenda não vai passar, aí é que não passa mesmo, e vamos perder muitos votos que já conquistamos.

O que Fernando Henrique, Serra e Gusmão queriam era que jornalistas como nós começássemos a preparar a opinião pública para a derrota das diretas. Os jornalistas presentes à reunião eram todos colunistas ou comentaristas, não precisavam revelar a fonte de suas informações e afirmações.

Nas oposições já se pensava num plano B para a sucessão de Figueiredo: se a emenda das diretas fosse derrotada, derrotar o governo no próprio colégio eleitoral. A ideia que Fernando Henrique sustentava já por algum tempo no PMDB era a da ação simultânea em duas frentes: lutar pelas diretas, mas desde logo preparar-se para as indiretas.
Na passagem dessa teoria à prática foi decisiva de novo a participação de Affonso Camargo e José Richa.

Affonso, assim que derrotada a emenda das diretas, lançou o raciocínio e a convocação: “diretas já!” significava “mudança já!”. Negadas as diretas, “mudança já!” passava a significar “Tancredo já!” A ideia pegou e alastrou-se rapidamente. A Richa coube nesse momento a tarefa, para a qual foi convocado por Tancredo, de esfriar a cabeça de Montoro, que queria uma reunião imediata dos dez governadores da oposição, para lançarem a candidatura de Tancredo, à revelia de Ulysses.

Tancredo queria esperar e convencer Ulysses a aceitar a disputa no colégio eleitoral, a desistir da própria candidatura (o Sr. Diretas aceitaria ser o Sr. Indiretas, e nada haveria de desonroso nisso, pois o dever das oposições era derrotar o governo e derrubar a ditadura, ainda que em eleições indiretas) e afinal apoiar Tancredo. No colégio eleitoral, Ulysses perderia e Tancredo tinha todas as chances de ganhar.

Richa conseguiu segurar Montoro e em seguida foi encarregado por Tancredo de acalmar Figueiredo, que temia, na hipótese da eleição de Tancredo, a vingança dos dissidentes do PDS, que já tinham formado no grupo Pró-Diretas e se preparavam para organizar a Frente Liberal.
– Se o Tancredo for eleito – dizia Figueiredo – não vão me dar tempo nem para chegar ao aeroporto.
– Ao contrário, presidente, contestava Richa. O senhor vai ser tratado com toda consideração.

Aos poucos, com paciência e obstinação, Richa sossegou Figueiredo, que acabou gostando de encerrar seu governo passando a Presidência a um civil e oposicionista como Tancredo. Isso seria o coroamento do projeto da abertura.

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