Os piores anos de nossas vidas

Dilma Rousseff. Foto: Valter Campanato/Agência Brasil

 

FMI estima que economia brasileira vai encolher 1% em 2015. E crescerá menos de 1%  em 2016. Com algum otimismo, talvez volte a crescer 2% em 2017

 

A massa que vai às ruas uivar desesperadamente pelo impeachment de Dilma Rousseff não é um ente especializado em economia e finanças. Mas sente no bolso, no estômago e em suas ilusões perdidas que a vida piorou. E muito. Os preços subiram. A inflação real cresceu. A população aumenta e as pressões sociais chegam ao limite. As corporações se agitam pedindo aumentos salariais impossíveis. Governar nesta época não é para amadores ou picaretas. Para completar o quadro desesperador aos olhos da população, os políticos e governantes chafurdam no mar de corrupção sem-fim.

O mundo encantado do PT virou pó. Usando os critérios absurdos da Secretaria de Assuntos Estratégicos, que define como classe C renda entre R$ 291 e R$ 1.019, Dilma gosta de afirmar que fez o maior salto social do planeta, elevando mais de 40 milhões de brasileiros à classe média. Mentira, mesmo a das grandes, tem perna curta. Essa falácia ruiu num piscar de olhos. Bastou o aumento nas contas de luz para quebrar o encanto. Preparem-se. Esse foi apenas o primeiro dos ajustes necessários para corrigir a quantidade de besteiras feitas no primeiro mandato. Outros virão. Mais graves e mais caros.

Trocar Dilma por Michel Temer ou por outro eleito não resolve o problema. E nem há suporte legal para um gesto desse. Quem vai cassar Dilma Rousseff? Este Congresso constituído por deputados e senadores enfiados até o pescoço nas roubalheiras descobertas, uma atrás de outra, que, além da Petrobras, chega às obras de energia e de transporte, na sagrada Caixa Econômica?

 

As piores previsões

Nada ajuda a diminuir as frustrações. A sociedade inteira, com exceção dos muito ingênuos ou muito cínicos, reclama a mudança, pede o impeachment de Dilma Rousseff, como se a simples substituição da presidente pudesse resolver todos os problemas e iniciar uma nova fase de prosperidade e consumo.

Não há remédios que curem a doença do Brasil com dose única. Teremos de pagar em longo prazo os equívocos, os erros crassos e a falta de visão de uma esquerda que não produziu, em décadas, um único projeto digno de se levar a sério para tirar o país do rol dos subdesenvolvidos. Todos sabem que priorizamos o consumo e não a produção e a produtividade. Privilegiamos as relações com os parceiros pobres porque o filósofo Luiz Inácio Lula da Silva decretou que os países ricos tinham afundado na crise de 2011. Coisas do gênero, de burrice tão funda que nos colocou neste impasse. E permanecemos um país de população majoritariamente estatólatra, que tudo espera do Estado e que por isso mesmo aceita um trambolho enorme que nos custa caro.

Sem ilusões. Em documento, o Fundo Monetário Internacional considera prioridade imediata a resolução de questões ligadas à Petrobras e encoraja o governo brasileiro a fortalecer as empresas estatais do país.
Tempos bicudos. O FMI estima que a economia brasileira vai encolher 1% este ano, e que a retomada do crescimento depende em grande medida das medidas de ajuste fiscal anunciadas pelo governo, de acordo com documento divulgado pela entidade internacional.

 

As verdadeiras prioridades

As considerações nada alvissareiras foram feitas após visita de funcionários do FMI ao Brasil, dentro do cronograma de consultas periódicas realizadas aos países-membros, e que depois são avaliadas pela diretoria do organismo. O FMI disse que as políticas fiscal e monetária mais restritivas e os cortes de investimento da Petrobras devem piorar neste ano no cenário para a atividade econômica, que já vem se deteriorando desde o ano passado.

Por outro lado, o documento apontou que o sucesso na implementação do ajuste fiscal e outras medidas podem contribuir para o fortalecimento da confiança, ajudando a atrair investimentos no fim de 2015 e consolidando as bases para a volta do crescimento no ano que vem. O FMI projeta crescimento de 0,9% do PIB em 2016 e de 2,2% em 2017.

Os diretores do Fundo também apontaram a necessidade de reformas para impulsionar a produtividade e a capacidade de crescimento econômico, recomendando prioridade na área de investimento em infraestrutura e iniciativas para melhorar, por exemplo, a eficiência tributária.
“A priorização de reformas e maior participação do setor privado serão chave para o sucesso”, disse trecho do documento. É o óbvio ululante, diria Nelson Rodrigues.

 

A cura, segundo Levy
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Joaquim Levy. Foto: Edilson Rodrigues/Agência Senado

Com apenas uma frase – “essa brincadeira da desoneração custa R$ 25 bilhões por ano, não tem criado e nem sequer protegido empregos” –, o ministro da Fazenda, Joaquim Levy, conseguiu fazer o que a oposição nem tentou ousar. Lavrou, de forma inconteste, a incompetência de Dilma Rousseff, e enterrou todos os argumentos que ela e o PT insistem em usar para transferir a outros a responsabilidade dos estragos que fizeram.

Para Dilma e o PT, todos os males são externos – culpa de FHC ou da mídia. Ou, quem sabe, do imperialismo e das forças externas, ressuscitadas recentemente para explicar o inexplicável. Sem tergiversar, para Levy, um técnico frio e sem paixões clubísticas pelo PT, o problema vem de dentro mesmo. Cordial, chama de “derrapadas” ou de alternativas “grosseiras” o que foi feito no mandato anterior.

Levy mostrou discurso afinado com o do FMI depois de participar de reunião com secretários da Fazenda dos Estados, reforçando a importância da convergência de alíquotas do Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS) e ressaltando que a agenda de infraestrutura estaria entre os próximos passos do governo.
“A palavra-chave para o investimento é a parceria com mercados de capitais e setor financeiro”, disse o ministro.

Levy enfrenta um problema de ordem política que não é dele. Dilma Rousseff, Lula, o PT et caterva têm pressa para dar solução ao caos que inventaram. Com índices de desaprovação nos píncaros – 64%, de acordo com o Ibope –, e míseros 12% de avaliação positiva, ao governo petista resta apenas uma torcida: que os números das manifestações diminuam, que a população se canse de ir às ruas.

 

Contas externas

O FMI se mostrou preocupado com a situação das contas externas brasileiras, que classificou de “mais fraca do que o desejado”, após o déficit em conta corrente ter subido para 4,2% do PIB em 2014, ante 2,4% em 2012.
Mas o organismo saudou a recente decisão do Banco Central de diminuir as intervenções no câmbio e recomendou que as interferências sejam feitas apenas para suavizar a excessiva volatilidade do mercado, “permitindo assim uma maior depreciação da taxa de câmbio em linha com os fundamentos e a promoção da competitividade externa”.

No relatório, os diretores do Fundo concordaram, de maneira geral, com a manutenção da política monetária apertada e saudaram o comprometimento com a meta de inflação e prontidão para tomar novas medidas de forma a não ameaçá-la. O FMI estima que a inflação medida pelo IPCA fechará o ano em 7% – acima do teto da meta –, desacelerando em 2016 para 5,4%.

No início de março, o Banco Central deu prosseguimento ao aperto nos juros básicos da economia, elevando a Selic a 12,75% ao ano. Houve grita imediata. Protestos dos mais radicais.
Mas a esta altura, não há o que fazer. O estrago está feito e trata-se de consertar a imagem do PT e tudo aquilo que ele passou a simbolizar: um governo que enganou, fez pouco, mentiu a quem nele apostou. O partido que privatizou o Estado para si, que se elegeu para combater todos os males e se tornou o senhor absoluto de todos os males. Que fez e faz o que condenava com veemência. Que enriqueceu em nome dos pobres.

 

Sem opções

São os remédios. Amargos, mas insubstituíveis. Se Aécio Neves, do PSDB, ou Marina Silva, do PSB/Rede, tivessem assumido o poder, teriam de fazer algo parecido. Com inflexões diferentes sobre as políticas sociais e de meio ambiente, conforme o acento ideológico de cada qual. Mas no básico, o mesmo. Não se trata de uma dor de cabeça. É câncer, alimentado pela incompetência e pela corrupção.

Não há receita nova. É preciso cortar gastos, aumentar a receita, controlar o consumo pelos juros altos, o que reduz os investimentos produtivos e apresenta efeitos colaterais como todos os remédios fortes. Desemprego em alta, achatamento salarial, encurtamento das verbas para programas filantrópicos, queda na oferta e na qualidade dos serviços públicos.
Vai ser duro para os crentes na felicidade terrena oferecida pelo PT. A conta de luz vai ficar três vezes mais alta do que era antes da redução da tarifa que Dilma inventou em 2013. A inflação alcançou 1,33% em fevereiro, 7,36% em 12 meses, quase 1% acima do teto da meta, ou se o crescimento da população desocupada foi de 22,5% no mês passado. A indústria tem crescimento negativo e a economia estagnou, o mundo de fantasia petista foi pelo ralo.

Em meio a essa crise que se aprofunda, o governo perdeu completamente a credibilidade e se mostra incapaz de controlar os próprios aliados. Mais do que nunca, Dilma Rousseff é refém da banda mais podre da política instalada no Congresso. Não pode ir ao banheiro sem pedir licença ao PMDB. Tem pesadelos com Eduardo Cunha, o presidente da Câmara Federal, que não lhe dá sossego.

Em 400 cidades de diferentes portes, o Brasil voltou às ruas neste abril com o bordão Fora Dilma, expressão maior para tudo aquilo que se abomina no petismo, a começar pela institucionalização da corrupção.

 

O PT não desiste, quer mais

A absoluta inabilidade da presidente para gerir o apetite da base aliada e do amigo da onça PMDB, a combinação do caos na economia – inflação e desemprego em alta – com a roubalheira generalizada derrotou o que o PT considerava impossível: o apoio popular, incluindo aí os mais pobres, para quem o partido dizia governar.
As manifestações que os petistas adorariam poder limitar aos “coxinhas”, aos que não suportam ter de dividir viagens de avião com pobres, e a golpistas, ganharam apoio farto entre todas as faixas sociais e em lugares impensáveis.

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Foto: Valter Campanato/Agência Brasil

Esse PT que tenta negar a realidade para salvar as fantasias, detesta Joaquim Levy. O problema é que Levy não tem compromisso com o projeto de poder de Lula. E, ao que tudo indica, não está disposto ao jogo do vale-tudo. Muito menos a brincadeiras que coloquem o país em risco. Na outra ponta, ainda que defenda teses que os tucanos apoiam, Levy assiste ao PSDB, em surtos cegos, negar-lhe apoio.
A Dilma, Lula e Cia, por enquanto, resta o de sempre. Fingir que não é com eles. Instruída pela propaganda palaciana a manter as cores do discurso de campanha, Dilma repete à exaustão a cantilena de que tudo que faz é em nome dos pobres, em favor do emprego e de “mais crescimento”.

Mas para o PT também não há saída. Estropiado, desmoralizado, vaiado, se segura no que pode. Aguentar o neoliberal Levy e defender ajustes que privilegiam o equilíbrio das contas, cortar privilégios e benefícios, é preço alto demais para o petismo. Difícil de defender nas centrais sindicais. E em nome de quê? De Dilma? Bem, o PT sabe que é preciso salvar o mandato depauperado da presidente. Afinal, Dilma não pode atrapalhar a campanha de 2018, quando o PT pretende reeleger Lula para ficar mais quatro, talvez oito ou para sempre no poder.

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