Um artista, um fotógrafo

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Macaxeira. Foto: Kraw Penas

 

No dia 9 de abril, o Paraná perdeu um de seus principais militantes. Macaxeira militava sem discursos prosélitos pela cultura caiçara

 

Um homem? Um artista? Um resistente? Um fotógrafo! Carlos Roberto Zanello de Aguiar, o Macaxeira, guardião de tradições, ousou em nos deixar após 65 anos de vida. Um câncer o pegou e o corpo não resistiu. Ele foi um dos principais responsáveis pela visibilidade da cultura caiçara paranaense. Com sua máquina fotográfica revelou várias faces de um Paraná marginalizado, sua irmã gêmea Sandra Aguiar disse que “Ele foi o responsável por tirar aquelas pessoas e a cultura delas da invisibilidade”. Vivia em Curitiba, mas seu reduto era a ilha de Superagüi, onde tinha casa. Em 1980 entrou na Secretaria de Estado de Cultura (SEEC), um ano após a sua primeira exposição, e lá ficou até sua morte.

 

Um homem

Cheio de amigos, por onde passava ganhava a simpatia do grande público. Não era de jogar conversa fora, mas por aí afora jogou muita conversa. Sua seriedade com as palavras não escondia sua sensibilidade com as pessoas e coisas do mundo e da vida. Estava sempre em contato com seus pares: fotógrafos, artistas, escritores. Aos que não reconhecem o Maca pelo nome, certamente reconhecerão pelo trabalho, ao menos um: a foto de Paulo Leminski a soprar um dente de leão. A amizade se deu por ambos frequentarem o Bife Sujo, bar onde a classe artística se encontrava na década de 1980.

De caráter singelo e jamais simplório, Macaxeira gostava e gozava das coisinhas da vida, não abria mão de uma leitura, vinis e CDs faziam parte de seu arsenal, o samba de Cartola ditava o ritmo e o artesanato caiçara enfeitava sua jornada. Vindo de italianos, a massa e os almoços promovidos pelas irmãs eram constantes, fazia questão de falar sobre sua irmã gêmea e prezava pela família.

 

Um artista

Seus olhos capturavam imagens singulares, não foi um fotógrafo de reproduções, suas lentes tinham um quê de pincéis, traduzia um momento em arte. Sem dúvida a maior parte do seu acervo está voltada para o litoral paranaense, tanto que dela fez sua maior obra: Fandango do Paraná: Olhares, com mais de 150 fotografias colhidas em vinte anos por suas lentes, o texto é assinado por Edival Perrini.

Quem já foi ao Superagüi certamente já o viu, discreto e observador, quem o conhecia e o encontrou por lá teve mais sorte, pois as dicas eram inesgotáveis. O mau humor às vezes era percebido, o Maca não gostava da popularização cada vez maior da ilha, era um dilema como o de celebridades, artistas e afins – lutam para serem conhecidos e quando são, batalham pelo anonimato. Queria dar voz e vez à cultura caiçara, mas queria mantê-la daquele jeitinho, intocável, inexplorável, quem sabe invisível.

 

Um resistente

A tecnologia contemporânea trouxe muitos benefícios para a vida prática, facilita um bocado e um monte de coisa. A comunicação nem se fala. A fotografia também foi atingida pela revolução tecnológica e hoje parece que qualquer um é fotógrafo, está sujeito a fotografar um momento preciso. Verdade? Talvez. Qualquer um pode captar um momento, mas não são todos que são fotógrafos. Precisa ter um olho cirúrgico, além disso, uma referência de mundo, mais, fotógrafos precisam de um saco de coisas. Os de hoje, além das técnicas de cliques, necessitam saber das técnicas digitais, manusear uma câmera com todas as funções e botões.

E é aqui que Macaxeira se mostra outra vez diferente na classe, não abandonou o seu rolo de 35 mm, fazia todo o processo de revelação, negativo, etc., etc. Um conservadorismo que muitos podem classificar como desnecessário (talvez como qualquer conservadorismo), mas que não o impedia de captar coisas lindas como essas que ilustram a matéria, que são as mesmas que estão no Museu de Arte Contemporânea do Paraná, na exposição “A Fotografia no Acervo do MAC/PR”.

Todos estes elementos, sua resistência, sua arte e sua vida, compunham o fotógrafo Macaxeira. Faltou dizer que era um militante, militava pela cultura paranaense, militava para mostrar o belo no simples, militava para dar vida à fotografia e pela fotografia dizer o que é a vida.
É uma perda inestimável, nunca houve e nunca haverá momentos propícios para isso, mas sem dúvida há um paradeiro para todos os admiráveis homens, há o paraíso.

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O Maca e eu

Adriana Sydor

 

Conheci o Macaxeira numa entressafra de viagem, meio do caminho para nós dois. Ele voltava do Superagüi, eu seguia para Ilha do Mel, a nossa baldeação foi em Antonina, no restaurante do Joaquim, onde tudo acontece. A primeira conversa tratou das citronelas que plantou em volta de sua casa para espantar insetos, a segunda sobre a melhor pomada natural para curar picadas de mosquito e a terceira sobre como era difícil o verão e as alergias dos bichos voadores. O Maca tinha uma sequência de pensamentos interessantes… Lembro que aquela foi uma tarde imensa, uma tarde de uma vida, nos descobrimos vizinhos e cheios de pensamentos e interesses comuns.

 

Depois daquilo passamos muito tempo nos encontrando: aos domingos no Pastel da Praça 29 de Março; no meio do caminho entre a casa dele e a minha, gentil, me ajudava com as sacolas do mercado e subia para jantar improvisado; pelas ruas da cidade.

 

Encasquetei que queria ir ao Superagüi. Se hoje a ilha não é um destino muito fácil, naquela época então, era coisa para desbravador, para homens de Portugal que se atiravam à viagem com muita expectativa, mas poucas garantias. O Macaxeira era um guardião do lugar, acho que o maior que andou por lá, não queria que eu levasse meus filhos: “vai encher de gente lá, Adriana, a gente tem que preservar, cuidar, guardar”, expliquei que não pisaria onde meus filhos não fossem aceitos e ele cedeu, cheio de recomendações e certo mau humor. Na noite de fandango ele tocava pandeiro enquanto eu saracoteava desajeitada com corajosos e pacientes pares. De canto de olho, me espiava e ria, às vezes largava o instrumento e vinha me dar dicas de quem observar, o que olhar, quem era quem – aquelas coisas todas que ele tanto respeitava e guardava, mas que queria também dividir. Ainda bem, fui sua ouvinte, mais das histórias que do pandeiro, que, perdão Maca!, não era lá muito o seu forte.

 

Em sua batalha de preservação, lançou o “Fandango do Paraná: Olhares”, para tratar de nos contar um pouco sobre o que percebia na riqueza caiçara e varrer nossa ignorância pra longe. Lindo conjunto de fotografias e explicações, depois virou exposição que tive o prazer de exibir, junto com a Luciana Monteiro no Canal da Música.

 

Quando me passou pela cabeça a ideia de tombar o acervo da Educativa, foi a ele que recorri e ele me deu o caminho, me indicou pessoas, foi até a rádio e fotografou os discos, os catálogos, tudo. Me incentivou para que eu não desistisse na luta burocrática.

 

A minha lembrança mais forte é de um momento triste, mas cheio de beleza. Em 2010, Maca estava internado no Hospital São Vicente. Fiquei sabendo à noite, quando eu chegava de uma viagem. Fui direto pra lá, entrei no quarto e ele estalou os olhos de estrela, largou um sorriso e transbordou surpreso. Conversamos e tratamos de uma recomendação médica: levantar da cama, andar um pouquinho. De braços dados passeamos pelo hospital noturno, silencioso, a espiar detalhes, ver coisas e exercitar as pernas. Eu empurrando o carrinho do soro e ele me embalando com a amizade.

 

Faço essa tentativa de escrita, homenagem que não o alcança, bem na hora de seu sepultamento, 16h30. É difícil estar na frente do computador, de frente para realidade, a falar sobre a experiência de fantasias que foi esse convívio.

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