Como não amar Lord Sparring?

Um paranaense trouxe para a política um ofício antes restrito aos ringues de boxe. O sparring, indispensável no treinamento de um boxeador, ganhou o mundo dos esportes de alto rendimento e da vida corporativa, onde se apropriou do termo esportivo e foi renomeado de coaching. Sem luvas nem shorts, foi vestido de terno e gravata e calçado de cromo alemão que adentrou os palácios, repartições e gabinetes. Suas happy hours eram nas redações e estúdios de rádio, onde traduzia em palavras as crônicas que vivia.

A cena política do Paraná perdeu seu mais experiente e admirado sparring: o cronista e historiador Pedro Washington de Almeida nos deixou dia 17 de maio. O pequeno quadrilátero cercado de cordas era pequeno demais para este homem.

Tal e qual os sparrings que simulavam adversários, Pedro atuava como um misto de treinador, orientador, conselheiro e pai com seus escolhidos. Sim, Pedro escolhia as pessoas. Embora compartilhasse com irrestrita generosidade sua sabedoria com quem tivesse a sorte e a honra de poder ouvi-lo, Pedro tinha seus prediletos. Seu filho Eduardo contou que ele era como os cachorros: sabia identificar uma pessoa bacana logo de cara. Se gostasse, caía nas graças dele para sempre.

Passou grande parte da sua rica vida aconselhando personalidades do mundo político, enquanto escrevia suas crônicas. Historiador por apreciação, Pedro publicou vários livros que espero ler para prolongar sua companhia. Para Eduardo, ele foi muito maior do que qualquer palavra que tenha escrito ou que seja escrita sobre ele. Enquadrá-lo num epitáfio ou resumi-lo num Curriculum Vitae seria desmerecer a estatura deste Lord.

Sim, Pedro era um Lord. Elegante em suas palavras, gestos, modos, roupas, e até mesmo seu tom de voz, Pedro tinha o dom de tecer as piores críticas com os mais suaves termos. Mas os sábios conseguem diferenciar considerações levianas e destrutivas de conselhos que nos impulsionam a mudar para melhor. E esta sinceridade digna e honesta, mesmo na hora da bronca, era justamente o que políticos e donos de jornais buscavam no sparring Pedro Washington: alguém com caráter e opinião.

Pedro deixa nove netos, um bisneto e cinco filhos: Andréa Almeida, Cíntia Almeida Tamas, Luciana Almeida, Pedro Junior, Eduardo Almeida. Do Pedro Jr, empresto algumas de suas palavras, postadas no dia seguinte à despedida do pai.“Ficam as canções que tantas vezes ouvimos de sua potente voz. As histórias inventadas a embalar sonhos de crianças.

Gentiliza e austeridade aos já adultos. A sagacidade, inteligência e incrível memória de um homem complexo, de um sujeito simples. A risada solta. Os causos ricos em detalhes. O grande amigo. O otimista nas grandes dificuldades. O homem falível, pai infalível. O pescador, de peixes e pessoas. Fechem as cortinas! Silenciem a plateia. O último ato. Aplausos. Foi um grande prazer: Pai”.

Inconsolável, fica sua Lady, a doce e linda Dulce, companheira de vida. Dela, pude ouvir suas últimas palavras: “meu amor”.

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Pedro Washington e a esposa, senhora Dulce. Foto: Acervo da família

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