Despedida

Eu sabia que quando desligasse o telefone o mundo se acabaria. Era como se o fio, a linha que nos unia estivesse toda entregue ao satélite e na cadência da respiração nos aproximávamos e nos separávamos. O compasso do coração. Pulsão de vida, pulsão de morte.

Mesmo sem poder falar mais, sem chance de dizer o que gritava dentro de mim, alonguei o telefonema, vontade de ficar dentro do sim. Segurava, ainda, a mão dele com o resto que me sobrava, meus dedos o tocavam ao sabê-lo ali, do outro lado da linha.

A angústia do fim, o desespero, a humilhação da rejeição, tudo desabaria em meus ombros quando chegássemos ao instante da última palavra, eu sabia e por isso não dizia. Provocava o silêncio dele com o meu, espécie de jogo do sério da infância, em que sempre perdi. Queria que daquela profundeza emergisse, de repente, declarações e juras, esperanças e tratos, amor e compreensão. Tentava, com o ouvido colado no meu choro, saber do que não era dito; uma pista era o que eu precisava para correr todo o rosário e pedir em prece e súplica pela permanência.

Mas eu insultava o amor enquanto segurava a ligação. Eu me inclinava para não deixar escorregar de mim qualquer coisa, palavra, que denunciasse o tamanho do meu sofrer. Com a força de mil Hércules segurei, brava e valente, todo o sentimento do mundo. Fortaleza de areia, eu chorava; e chorava tão baixo e tão reprimida e tão pra dentro que nada escapava de mim a não ser aquele duro, imenso e intenso silêncio.

O fim da história estava me tirando para dançar, a sussurrar o último parágrafo pegou-me pelo braço, me levou pro meio do salão e me largou sem par, sem letra, sem serenata, sem nada. Eu ridícula, imóvel, com toda a solidão do mundo e já sem aguentar a prisão daquela angústia que eu mesma provocara, ouvi minha sentença: Boa noite, tchau.
Larguei o telefone no chão e corri pro espelho. Meus olhos me perguntaram e agora? Pulsão de morte.

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