Mais uma derrota na guerra às drogas

Foto: Reprodução/site huffingtonpost.co.uk

 

Onze anos depois de entrar na Indonésia com seis quilos de cocaína escondidos em pranchas de surf, o brasileiro Rodrigo Muxfeldt Gularte foi fuzilado junto com oito outros condenados (todos estrangeiros) pelas implacáveis leis indonésias de repressão ao tráfico de drogas. Em janeiro, outro brasileiro fora fuzilado pelo mesmo motivo.

Rodrigo não era um adolescente desavisado, e já tinha mais de trinta anos ao cometer o crime, que indiretamente confessou ao ser preso com dois companheiros de viagem e assumir que a droga era dele mesmo, e não dele e dos outros (os outros foram soltos). Com certeza achava que conseguiria se dar bem e faturar milhares de dólares servindo de cavalo, transportando a droga para gente muito mais sabida, capaz de faturar milhões e não milhares de dólares arriscando a vida dos outros. Rodrigo saberia do rigor das leis indonésias?

É possível compreender o horror da Indonésia às drogas se considerarmos o papel que uma delas, o ópio, exerceu no passado, pelo menos na China, na instalação do domínio colonial europeu (e um pouco norte-americano). Não sei a que métodos, além dos militares, os europeus recorreram para dominar a Indonésia no período das grandes navegações, no século 16. Segundo um historiador e diplomata indiano, K. M. Panikkar, autor do clássico A dominação ocidental na Ásia, que foi também protagonista da luta pela independência da Índia e seu embaixador nas Nações Unidas, o arquipélago hoje organizado como Indonésia dispunha de uma grande marinha mercante e extenso e florescente comércio naqueles mares todos quando foi vencido por expedições marítimas europeias – pela única razão de que estas dispunham de canhões e pólvora (esta, paradoxalmente, uma invenção chinesa) e eles não.

Na China, o homem branco recorreu também aos canhões e à pólvora, mas abriu caminho com o ópio, que os chineses não produziam nem consumiam, e foram obrigados, por duas guerras no século 19, a comprar e consumir para que os europeus pudessem importar, com as receitas desse tráfico, as sedas, porcelanas, chás e madeiras que enfeitavam a vida do andar de cima das metrópoles ocidentais.

O ópio só entrou na China graças à corrupção e ao concurso de mercadores chineses associados ao tráfico do ópio e ao comércio de exportação chinês. Por isso a China continua tão rigorosa, ainda hoje, ao punir qualquer ato de corrupção, com tão numerosas sentenças de morte (tiro na nuca e munição, segundo consta, paga pela família do condenado). Como a China, pelo menos aparentemente, acabou com o consumo disseminado de ópio que degradou sua vida social, política e econômica talvez por mais de cem anos, a prioridade agora é o combate à corrupção.

A Indonésia, pelo jeito, ainda não se livrou da praga e do pesadelo das drogas. Se fuzilou um estrangeiro onze anos depois de sua prisão, é porque precisa dar algum exemplo, impor algum medo aos que hoje pensem em repetir a aventura de Rodrigo. É a ilusão da eficácia da pena de morte como arma de dissuasão de terceiros.

Daí podermos supor que, daqui a mais onze anos, os tribunais indonésios terão de condenar ao fuzilamento outros estrangeiros que estejam tentando, agora, neste momento, entrar na Indonésia com cocaína escondida em alguma peça de sua bagagem aparentemente inocente de falsos turistas – não mais pranchas de surf, é claro…

A guerra da Indonésia às drogas pode ter sido intensificada por reflexos tardios da guerra às drogas decretada nos Estados Unidos pelo governo do segundo Bush, terminado, felizmente, já há seis anos. Tanto na Indonésia quanto nos Estados Unidos e em outros países, como o Brasil, essa é uma guerra que parece irremediavelmente perdida – tanto que já se discute, como grave questão de interesse público internacional e não mais como reivindicação de interesse dos usuários (e até de interesse médico, no caso da maconha), a tese da descriminalização, gradual ou não, parcial ou total, das drogas.

O brasileiro Rodrigo, produto não da Copacabana carioca de todos os pecados nem da pauliceia desvairada de todos os desejos, mas da casta e morigerada Curitiba, foi terminar seus dias fuzilado na selva da Indonésia, por ordem de tribunais e de um governo tidos como civilizados ou, no mínimo, não mais bárbaros que os europeus colonizadores da Ásia. Quantos mais terão de pagar esse preço ou correr esse risco daqui em diante?

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