Sinal dos tempos

A temporada não é boa para os políticos nativos. Tão feio o clima que a eles se recomenda que não casem em público nesta época do ano. Ou sofrerão o vexame que os professores de Londrina impuseram ao deputado Thiago Amaral em seu casório na Igreja. A turba quase não deixa o padre falar. Esse é o tom da política no Paraná. Como sói acontecer em democracias de massa, a corporação mais organizada e barulhenta avança para tirar da crise um quinhão maior. Dane-se o resto.

A greve dos professores arrasta-se porque a direção do movimento, a APP-Sindicato, não quer encerrá-la. Ao contrário. A sua meta é estender o movimento grevista ao máximo para desgastar o governo tucano de Beto Richa, para poder dizer que todos são iguais, tucanos, petistas, peemedebistas e assemelhados. Para isso, conta com apoios heterodoxos, inclusive da mídia conservadora, que os usa para atacar o inimigo comum.

Nessa linha, a APP-Sindicato recusou-se ao diálogo, rejeitou propostas de negociação e para não sofrer as sanções, foi à força bruta. Invadiu escolas e núcleos regionais da Secretaria de Educação. O lema é aquele “quanto pior, melhor”. O pior mesmo fica para os alunos, que perderam aulas que os professores jamais conseguirão repor com qualidade.

Ora, pois, os professores do Paraná acusam o governo estadual de maltratá-los e de querer impor um índice limitado aos seus aumentos salariais. Surfam no marketing dos coitadinhos. Dirigido pelo PT, o movimento esquece que a crise começa em seu governo, em Brasília, onde Dilma Rousseff faz um corte brutal no orçamento. Quase R$ 70 bilhões. O maior da história. Nada escapou. Os cortes chegaram à Educação e à Saúde, em obras do PAC, e até na menina dos olhos da presidente Dilma Rousseff, o programa Minha Casa, Minha Vida. Os cortes são mais do que necessários, mas correm longe de ser solução para o país, dilapidado por mais de uma década pelos governos petistas que se divertiram gastando mais do que deviam e podiam.

O que o governo Dilma Rousseff e todos os outros não fazem é cortar na carne. Reduzir o custeio. Diminuir o tamanho da máquina que não para de inchar.  Ninguém quer dividir a conta com o próprio governo e com setores ainda intocados: juízes, parlamentares, servidores públicos. Não se abriu mão de um simples ministério, de um único cargo de confiança. Não se mexe em privilégios. Nada. Nem pensaram na necessária renegociação de contratos, mesmo depois de as investigações na Petrobras revelarem percentagens fixas de corrupção, padrão que, se acredita, repetia-se em obras de todo o país.

 

O descalabro, o desgoverno

Pacto_Federativo

Governadores dos estados se reúnem, para discutir questões ligadas ao pacto federativo. Foto: Nilson Bastian/Câmara dos Deputados

Assim é e tudo indica que vai continuar. Aqui no Paraná e no país. Os políticos sofrem um desgaste profundo, a imagem dos governos deteriorou, a sociedade está atordoada. Sinal dos tempos. A multidão se queixa do bolso mais vazio. A inflação emagrece a geladeira. Joaquim Levy, o kaiser da Fazenda, avisa que o dinheiro acabou e o crédito fácil também. O desemprego cresce, a aflição fomenta greves. É o tamanho da crise que vive o país. Só os néscios e os ingênuos não conseguem admiti-la.

Como pano de fundo, a corrupção. As denúncias diárias já não surpreendem ninguém. A repetição cansativa de escândalos embrutece a sociedade que vive em desalento. Descrente de tudo. Não confia em ninguém, enquanto o governo federal procura aprovar seu pacote fiscal. E passa a ser cobrado de maneira contundente pela forma como a Petrobras foi administrada nos últimos 12 anos. Dilma Rousseff desaparece, para não ser questionada pela mídia. Não pode berrar alto porque é refém das crises que ameaçam a governabilidade: a econômica, a política e a de gestão.

Os governadores estaduais correm à Brasília em busca de socorro. Ficam sem saber o que fazer e diante da opção que lhes apresentam: promover um pacto federativo para recompor a divisão do bolo tributário. Por onde começar? Senadores dão uma no cravo, outra na ferradura, desaprovando Patriota, aprovando Fachin e adiando a MP 665, que endurece as regras para o seguro-desemprego e do abono salarial. Deputados querem acelerar a reforma política, mas não há consenso sobre nenhum ponto. Senhores, o país é uma choldra.

O cenário escancara a baixa capacidade do governo Dilma Rousseff de levar adiante seu fabuloso programa de obras, refrãos e slogans, que o ciclo do petismo prometeu e, que nos últimos tempos, ficou restrito ao lema “Pátria Educadora”.

A má gestão, dizem os estudiosos de política, é aquela que consome o capital político do governante sem alcançar os resultados anunciados e perseguidos e isso ocorre por desorganizado manejo técnico. Os dirigentes esquecem os compromissos de suas campanhas eleitorais, não fazem o cálculo do balanço da gestão e, principalmente, não a projetam para o futuro.

 

Cada um por si

Os políticos e as corporações, por sua vez, aproveitam-se das circunstâncias para tirar proveito. Como a economia capenga, a crise transforma-se em oportunidade para a esfera política expandir sua força. E para as categorias mais ativas e organizadas do funcionalismo. O Parlamento torna-se um amplo território de articulação, negociação e pressão, o que o coloca no palco dentro do processo decisório, eis que o Executivo torna-se dele refém, ao contrário da tradição.

As casas parlamentares desejam impor uma pauta forte e agir de forma independente da vontade palaciana em sua função legislativa, debatendo os problemas nacionais e fiscalizando os atos do Executivo. Os governadores lutam pela sobrevivência. Não mostraram nada até agora. Não têm gás para acender o farol da gestão.

O Judiciário está abarrotado de demandas judiciais, permanecendo sob a fosforescência midiática desde os tempos do mensalão, ganhando agora a luminosidade da Operação Lava Jato, na esteira da qual, um juiz, Sérgio Moro, sobe os degraus da fama e alcança o mais alto prestígio no ranking do respeito e da credibilidade.

Brilha o facho do advogado Luiz Edson Fachin, que ascende à mais alta Corte, o Supremo Tribunal Federal, ganhando o título do maior sabatinado pelo Senado em toda a história. Como agirá no STF? Ninguém sabe. Fez campanha explícita pelo PT, defende o Paraguai em ações contra o Brasil.

A tensão entre os Poderes continua alta. As novas delações premiadas ampliarão o leque dos envolvidos na Lava Jato? Qual será a tendência do Congresso ante a eventual condenação de algum de seus membros de alto coturno? No Paraná, a senadora Gleisi Hoffmann, do PT, dança miudinho e torce para ser esquecida.

Cada político, cada governante, cada Poder está à procura de um caminho para enfrentar as contingências da crise. Todos querem a fórmula mais conveniente para enfrentar o amanhã. Novas lideranças não emergem no cenário. FHC? Encostado em sua sabedoria não é candidato a nada. Lula? Nem sombra do leão furioso dos velhos tempos. Quem tem hoje autoridade para atrair as massas? Quem agrega? Quem canaliza as aspirações mais legítimas da população, a força moral? Quem possui as melhores condições de subir ao pódio dos próximos tempos?

 

Indignação social

A sociedade cansou de promessas vazias e bordões gastos. Exige a manutenção de seus ganhos, a recuperação da infra-estrutura social (os serviços fundamentais do Estado) e o resgate de valores éticos e morais. Distancia-se tanto do sistema de representação formal, sem acreditar que ele seja capaz de produzir melhorias na política. Aguarda, com muita expectativa, a punição exemplar de políticos culpados, na crença de que os horizontes do amanhã tragam de volta a ética e novos padrões.

Todas as instâncias da representação política perderam musculatura. Não é só no plano nacional que o PT enfrentou um encontro partidário esvaziado e sem lideranças. O baixo quórum marcou o congresso do partido em Curitiba. Em vez de platéias apinhadas, gatos pingados. O encontro foi um preparativo ao congresso nacional do partido, marcado para os dias 11, 12 e 13 de junho, em Salvador (BA). O baixo comparecimento mostra que o PT deverá entrar fragilizado nas eleições de 2016.

A crise geral começa no governo do PT e este já não sabe o que pode fazer. Com dúvidas sobre seu futuro, arrependido de atitudes do passado e certo de que está sendo traído no presente, o partido vive uma crise existencial.

Os documentos elaborados para o congresso nacional do partido são unânimes no diagnóstico de que a legenda se encontra numa encruzilhada e que passa pela maior crise de sua história. A chapa majoritária Partido que Muda o Brasil (PMB), do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, chega a alertar: “os partidos não são eternos”.

Há um surto esquizofrênico no PT. As críticas ao ajuste fiscal da presidente Dilma Rousseff também são comuns em todas as correntes. O PMB é mais cuidadoso ao analisar as medidas, mas não deixa de destacar que “o problema é que o peso tenha recaído mais sobre os trabalhadores do que outros setores das classes dominantes”. Diz que o papel do partido é “apoiar o governo e, ao mesmo tempo, empurrá-lo para que cumpra o programa para o qual foi eleito”.

 

Dilma, a sem medo

A presidente Dilma Rousseff parece viver na ilha da fantasia. Falou sobre as manifestações recentes contra o seu governo e pelo impeachment e disse não temer enfrentar um processo de impedimento, que na sua opinião não tem base real. Ela disse que essas ameaças foram recorrentes nos governos dos ex-presidentes Fernando Henrique Cardoso e de Luiz Inácio Lula da Silva. Segundo ela, o impeachment está institucionalizado no Brasil e tem um caráter muito mais de instrumento da agitação política.

— Collor foi tirado. O Itamar eu não lembro (se houve pressão pelo impeachment), acho que não. Mas eu estou te falando dos últimos tempos. Vira e mexe tem essa… — disse Dilma, repetindo que “era praxe”.

De resto, nada a incomoda. Ninguém mais a respeita como dantes. Nem o decreto de Dilma para redução do uso de aviões da FAB por ministros foi cumprido. Difícil crer que algo tenha mudado. Na Previdência, por exemplo, um milhão de aposentados do serviço público responde por mais R$ 60 bilhões do déficit, os outros R$ 50 bilhões de rombo são relativos aos 30 milhões de segurados do INSS. Um vespeiro do qual ninguém quer passar por perto.

Elogiados como ato “de coragem” pela diretora-gerente do FMI, Christine Lagarde, para arrepio de alguns setores do PT, os cortes são um ambicioso conjunto de intenções. Diferentemente das medidas provisórias que estão no Parlamento, não produzem efeito imediato. Mesmo sendo valores estratosféricos, apenas limitam os já baixíssimos investimentos do governo e, de quebra, têm caráter recessivo.

Sabe-se que Dilma, Lula e a maior parte do PT odeiam ter de dar o braço a torcer a políticas que até ontem eles taxavam como neoliberais. A trinca, em especial Lula, sabe ainda que qualquer possibilidade de êxito em 2018 depende do sucesso desse rearranjo na economia, seja ele ortodoxo, de direita, conservador.

No momento, se aceita tudo, até aumento de impostos. Só reagem ao desabrigo dos companheiros aboletados no governo. Isso não. Mexer nos cargos de livre nomeação, nem pensar.

 

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