Antes de um tango argentino, as possibilidades de salvação

Pneumotórax, 1930
(Manuel Bandeira)

Febre, hemoptise, dispnéia e suores noturnos.
A vida inteira que podia ter sido e que não foi,
Tosse, tosse, tosse.
Mandou chamar o médico:
– Diga trinta e três.
– Trinta e três… trinta e três… trinta e três…
– Respire.
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– O senhor tem uma escavação no pulmão esquerdo e o pulmão direito infiltrado.
– Então, doutor, não é possível tentar o pneumotórax?
– Não. A única coisa a fazer é tocar um tango argentino.

 

 

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Antes da pasta dental, pó dentifrício. Foto: Adriana Sydor

Desde que o homem pisou na terra, há farmacêuticos. Talvez seja esta a profissão mais antiga do mundo. Já no Paleolítico a exploração de plantas ou as matérias de origem animal eram experimentadas. O instinto de sobrevivência humano deu o start para a busca dos males do presente, mesmo quando ele ainda era um passado muito remoto.
Como provas dos caminhos da História, uma tabela de argila foi encontrada nas escavações de Nuppur, a data é de 2100 a.C. e o conteúdo: quinze receitas medicinais. Outro documento emblemático é o papiro Ebers, de 1500 a.C. Para espanto geral, ali constam 811 receitas e 700 remédios para diversas doenças; alguns historiadores afirmam que sua escrita em hierático (uma forma mais simples que os hieróglifos) é uma compilação de textos anteriores, do longínquo 3400 a.C. Quem duvidar pode ir até Universidade de Leipzig, na Alemanha, ver e avaliar o documento.

 

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Foto: Adriana Sydor

A farmacologia sempre esteve de mãos dadas com a medicina. No princípio era uma sobra dos produtos dos alquimistas que se debruçavam em fórmulas para fabricação de ouro e de outros horizontes, como elixir de vida eterna ou de juventude garantida. Mas durante muitos e muitos séculos ela foi a própria medicina, onde um mesmo profissional identificava um mal e pesquisava sua cura. Só depois do século X as boticas ergueram a espada da independência. E a partir daí um número sem fim de descobertas chega-nos com espantoso efeito, na saúde e no bolso.
O jesuíta José de Anchieta não foi exatamente o pioneiro em nosso país colonizado, antes dele, outros que vinham nas expedições europeias já tratavam do assunto, mas Anchieta é nome de destaque na área dos fármacos. Obviamente, os índios há muito davam seus passos para misturar fórmulas e sacar de experiências e muito provavelmente ensinaram o povo branco a curar alguns males que só se conhecia aqui. Mas foi a partir de 1640 que as boticas receberam a bênção do Estado para se transformar em comércio e desde então uma série de normativas guiam a área nacional, na pesquisa, desenvolvimento, comércio, importação e exportação. A farmácia deixou de ser prática empírica, para obedecer a normas rígidas.
Morretes fica a 70 km de Curitiba. Até o século XVI era terra de índios carijós, onde, certamente, manipulavam suas ervas atrás de profilaxia para o que os abatia. Jazidas de ouro atraíram mineradores e exploradores de outros lugares, maioria de São Paulo. Em 1721 estava fundado o povoado de Morretes.
Como muitos sabem, o botânico francês Auguste de Saint-Hilaire viajou pelo Brasil entre os anos de 1816 e 1822. Conheceu Morretes e por lá andou em 1820, a olhar plantas, gentes, costumes. Embora não fosse ele um fármaco, suas anotações foram utilíssimas à literatura que também serviram como base científica para a área.

 

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Foto: Adriana Sydor

 

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Roberto França. Foto: Acervo da família

65 anos depois da partida de Saint-Hilaire, nasce em Morretes Roberto França. Homem múltiplo, que dividiu sua existência entre os mais diversos interesses da humanidade. Não estivesse o local batizado pelo aspecto de sua geografia, talvez coubesse o nome deste homem como denominação para a cidade.
Roberto França foi, como explica sua neta, Helena Maria França Sundin, “delegado de polícia, juiz de paz, presidente do Tiro de Guerra 70, presidente do Clube Sete de Setembro, organizador da Festa Veneziana no Rio Nhundiaquara, provedor da Igreja e presidente da Irmandade de São Benedito, animador dos acontecimentos administrativos e sociais, comandante dos blocos nos festejos carnavalescos, alpinista” e, onde começa nossa história, “dirigiu por mais de 60 anos a Farmácia Paranaense, preparando receitas médicas, sendo constantemente chamado para dar atendimento às pessoas doentes, indo de carroça, charrete, vagonete, a qualquer horário solicitado.”
Não é de conhecimento geral, porque ainda não foi encontrado um meio burocrático-financeiro para abrir ao público, mas o que restou da Farmácia Paranaense, fechada em 1981, forma hoje um dos maiores conjuntos de materiais farmacológicos do Brasil, quem afirma os dados é a neta do fundador. Em 2010, o IPHAN-PR fez um inventário do acervo da farmácia, que é conservado por familiares no sobrado que foi seu endereço em 1910. No documento resultante da investigação há centenas de frascos, louças, calendários, etiquetas, equipamentos para manipulação de drogas e vestígios de fórmulas.

 

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Foto: Adriana Sydor

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Foto: Adriana Sydor

O acervo é impressionante, assim como a vontade da família em mantê-lo. Algumas vezes por ano, tudo é manipulado para uma limpeza geral. Com cuidado, os materiais vão sendo levantados, espanados e novamente guardados. A iniciativa privada a serviço de nossa História é uma honra que pode ser conhecida de maneira muito peculiar: o interessado identifica-se, conta seus propósitos, marca hora e Helena prepara a visita guiada, que vai além dos instrumentos da farmácia, dá ao visitante um pouco da história da cidade, das gentes que ali passaram, das curiosidades locais. A Farmácia Paranaense é também um pedaço de nossa vida, num outro planalto, mas que de alguma forma sobe a Serra e conta de nossas origens.
Uma das facetas deste homem extraordinário, Roberto França, proporcionou que muitos tivessem salvação para os males que os acometiam e tocar um tango argentino muitas vezes se transformou em apenas parte da cura.

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