Cinelândia curitibana

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Toda cidade, pequena ou grande, tinha um ou mais cinemas em sua rua principal. Curitiba tinha a sua chamada Cinelândia, que ia da Praça Osório até a rua Doutor Muricy e arredores. Boas e elegantes lojas; cafés e confeitarias completavam o espaço para conversas, ver e ser visto. A demanda pelos filmes era grande e algumas salas para exibi-los, enormes e luxuosas. Do final dos anos vinte até os anos setenta era assim.

Com a chegada do vídeo-tape aos canais de televisão o público minguou, a melhora e grande agilidade na programação proporcionaram o entretenimento doméstico.
Antes disso, fora da Cinelândia, inúmeros cinemas de bairro, de paróquias, clubes e associações recreativas, cine-clubes, e até famílias mais abastadas em suas casas exibiam filmes alugados em distribuidoras. Além disso, com a demolição do antigo Theatro Guayra, até a inauguração do atual, eram nos cine-teatros que aconteciam os concertos, apresentações teatrais, shows, aumentando ainda mais a importância dos “donos” destes espaços, que eram reverenciados como agentes da cultura na cidade, que realmente dependia deles e eles, em grande concorrência, tentando o melhor para cativar o público.

Era a época dourada dos cinemas, nas telas e nos negócios. Num momento da história em que a comunicação só tinha como concorrência o rádio, jornais e revistas, as famílias, pelo menos uma vez por semana, saíam de casa para assistir um filme. Aliás, frequentemente mais de um filme no mesmo dia, pois o ingresso era muito barato (centavos de dólar) e os horários das sessões eram sempre os mesmos: 14, 16, 18, 20 e 22 horas, salvo obras com metragens mais longas (metragem mesmo, pois estamos falando das películas, chamadas cópias). Outra curiosidade: não se comprava o ingresso para a sessão, você podia entrar no meio ou ficar para a próxima para rever algum trecho que desejasse. Era ótimo não se preocupar com horários. A variedade da programação era diferente de hoje, geralmente cada cinema passava um filme, pois as cópias vinham de fora e eram poucas (em torno de seis para o Brasil todo). Isto gerava uma grande defasagem entre a produção e a exibição: aqui em Curitiba, era de mais ou menos dois anos naquela época. Isto porque as distribuidoras faziam um roteiro das grandes praças, como eram chamadas as cidades, para as menores, dividindo o Brasil em norte (do Rio para cima) e sul, (de São Paulo para baixo). Então os filmes passavam antes em Porto Alegre ou Campinas, por exemplo, e esta demora permitia, por outro lado, criar grandes expectativas, você olhava os cartazes com o “BREVE” e o filme sabe-se lá para quando. Por isso também existia uma crítica muito boa nos jornais e revistas, sem a pressão da exibição eminente, às vezes a música já tocando nas rádios. Conforme o caso, o filme voltava em reprise tempos depois, normalmente em um cinema menor, obedecendo às regras de mercado: a sua renda nas bilheterias. As películas eram transportadas em latas de metal fechadas e em trens, que nesta época cortavam o país de norte a sul – imagine a demora e o estado das cópias nas cidades do interior.

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Sala de espera do Cine Ópera em noite de estréia, o primeiro à esquerda, Sr. Waldomiro Jensen, gerente e responsável técnico do cinema.

Assistir a um filme naqueles dias era um evento social com certa pompa. No Cine Ópera, por exemplo, enorme com três plateias, mais de 2000 lugares e inaugurado em 1942, os frequentadores chegavam bem antes da sessão e era possível a apreciação da enorme cortina de veludo vermelho, que cobria a tela e brilhava com seus fios dourados as luzes da boca do palco; a música orquestral, cuidadosamente selecionada e reproduzida de discos, se ouvia também na sala de espera com sofás e bombonière, onde só se vendiam balas e bombons. Música mais alta e pomposa: era o prefixo, cada cinema tinha o seu a anunciar o início da sessão quando as luzes começavam a diminuir. Em seguida o gongo com as três notas como se fossem as três pancadas de Molière. A cortina começava a abrir lentamente e apareciam na tela slides com anúncios de publicidade. Em seguida o cine-jornal ou atualidades que eram trocados a cada semana e por isso nem tão atuais assim: reportagens nacionais e internacionais que você teria ouvido pelo rádio ou lido em jornais mas que apresentavam as imagens em movimento e comentários narrados por Luiz Jatobá ou Cid Moreira que nestas grandes salas ficavam com a voz mais pomposa. Eram de aproximadamente dez minutos; na última parte futebol com alguns lances de uma partida importante. Depois um documentário ou desenho animado e os trailers dos futuros lançamentos ansiosamente aguardados.

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Fachada iluminada do Cine Ópera numa fria noite de inverno, início dos anos 40. Ficava ao lado do Cine Odeon, menor e onde hoje é a Galeria Tijucas.

Nos cinemas chamados “poeiras” ou nas matinês, ainda um capítulo de algum seriado que na semana anterior terminara em um momento culminante. Então o filmão. Se fosse de longa metragem, haveria um intervalo para esticar as pernas, ir ao banheiro, bombonière, conversar sobre o que se tinha visto até ali. Esses filmes vinham com a sua música para ser tocada nestes intervalos. Se chegasse com a sala já escura, havia a figura do “lanterninha” para guiá-lo na procura por lugares ainda vagos, ou reprimir comportamentos indesejáveis com aquele facho de luz. No “The End”a cortina se fechava novamente como em um teatro, escondendo a tela branca, vazia.

Este ritual (lento apagar das luzes, gongo, o abrir da cortina) preparava os sentidos e a mente da plateia para o espetáculo que viria a seguir ao mesmo tempo que criava a expectativa, a magia para o novo mundo de fantasias. Aquelas salas enormes lotadas nos colocavam como cúmplices impunes (dos personagens do filme e dos companheiros da plateia) de todas as ações que se desenrolavam na telona, como só as grandes multidões propiciam. Veja a identidade das grandes torcidas de futebol. E o ingresso era barato, cinema como diversão popular no bom sentido.
Hoje os cinemas-multi-salas se tornaram um lugar para se sentar no escuro e sair correndo ao fim do filme, com os empregados impacientes para limpar a sujeira da pequena sala para a próxima sessão. Como uma lanchonete de fast-food, é intencionalmente anônimo, sem decoração ou detalhes de beleza, projetado para as pessoas circularem com seus combos (pipoca, refrigerante, e o que mais) vendidos a preços exorbitantes, e saírem o mais rápido possível por corredores estreitos como se gado fôssemos. São os exibidores pipoqueiros, onde o que importa é o lucro do lanche. Já tem cinema em Curitiba oferecendo almoço…

 

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