Cinema. Ed. 165 – Não faça guerra, faça filmes

Em 2015 caminhamos para os 70 anos do fim da Segunda Guerra Mundial, que de segunda é só a parte, pois foi a continuação da Primeira, uma divisão meramente didática. Ora, a escrita não inaugurou a história da humanidade. O fim do Império Romano do Ocidente não pôs fim à Antiguidade. A Queda da Bastilha não introduziu a contemporaneidade. Jacques Le Goff, craque francês no que diz respeito ao mundo medievo, falava que a Idade Média só acabara com a Revolução Industrial. Exagero? Maybe, maybe. Em 1918 a Grande Guerra não extinguira-se, entrou em stand by.
O entre guerras indicava a ascensão do liberalismo, como havia acontecido no século XIX, mas caiu por terra, por tiros, por totalitarismos. Espanhóis, portugueses, italianos, alemães, além de todos os Estados recém-criados na Europa central e oriental, exceto a Tchecoslováquia, assistiram a democracia ruir como um castelo de areia. “Somos pela antítese total, categórica, definitiva do mundo da democracia […] do mundo que ainda segue os princípios fundamentais estabelecidos em 1789”, disse o fascista Mussolini. O cenário antidemocrático e economicamente desfavorável contribuíram para o segundo colapso, para a Segunda Guerra.
E assim vieram todas as catástrofes, a inaugurar com a Alemanha invadindo a Tchecoslováquia em março de 1939, no mês seguinte a Itália fez o mesmo com a Albânia. No começo de setembro a Polônia já era tomada pelos nazis e Inglaterra e França declaram guerra. A França mais ou menos, pois no ano seguinte já se rendia com a política colaboracionista, assunto proibido na Gália – Hitler carinhosamente chamava a capital francesa de “nossa Paris”. Até 1942 o Eixo dominava a guerra, a partir de 1943 as coisas começam a degringolar. A fraudulenta Itália, que propagandeava seu exército como uma máquina mortífera, larga os bets. Os Estados Unidos chegam à Normandia em 1944 – o tal do Dia D. E finalmente em 1945 os alemães se rendem e os estadunidenses acabam de vez com tudo, literalmente, ao jogarem de maneira cruel e covarde duas bombas atômicas sobre as cidades japonesas Hiroshima e Nagasaki.
E o cinema desde seu surgimento se apropria de fatos para fazer sua arte. Basta lembrar a precursora película de 1900, Ataque a uma missão chinesa – Soldados navais ao resgate, do revolucionário James Williamson, baseada na Guerra dos Boxers na China; ou de O assassinato do duque de Guise, de 1908, dirigido por Charles Le Bargy, motivado pelo plano de Henrique III em matar um rival aristocrata francês.
Uma guerra com tantos fronts foi um prato cheio para as produtoras explorarem o tema. No mesmo ano do fim da Guerra, Roberto Rossellini dirigiu Roma, cidade aberta, comentada na Ideias 164. E o assunto foi amplamente explorado, seja de maneira direta ou secundária.
O Resgate do Soldado Ryan, filmaço de Steven Spielberg, de 1998, com Tom Hanks a protagonizar, dedicou-se à Batalha da Normandia (do Dia D). O Capitão John Miller (Tom Hanks) recebe a missão, ordenada pelo General Marshall, de buscar o paraquedista James Francis Ryan (Matt Damon), o único vivo entre quatro irmãos que foram à guerra. Para Marshall aquela mãe não merecia quatro filhos mortos. Então que trouxessem o vivo. Vale destacar a primeira meia hora de filme, é intensa e chocante, retrata a tomada da Praia de Omaha, em 6 de junho de 1944. E a trilha sonora, impecável, é assinada por John Williams.
Em seu ano de lançamento foi o filme que mais faturou, sem contar que recebeu cinco estatuetas do Oscar, porém, ainda não se sabe muito bem o porquê, não embolsou o título de melhor filme em 1999, abiscoitado pela comédia romântica Shakespeare Apaixonado.
Não só Spielberg fez obra de arte com a Guerra, Clint Eastwood – o do bang-bang de Leone – também explorou de maneira insólita o tema. Seu cenário foi uma das mais longas e cruéis batalhas de 1914 a 1945, a de Iwo Jima, foram quase 40 dias de disputa entre japoneses e estadunidenses. Eastwood fez dois filmes: A conquista da honra, que conta história da perspectiva americana e Cartas de Iwo Jima, que narra o lado do Japão, ambos de 2006.
Há também filmes fora da cena hollywoodiana como os tchecos Diamantes da noite, de 1965, dirigido por Jan Nemec e Trens Estreitamente Vigiados, com a direção de Jiri Menzel e lançado em 1967.
O grande ditador com o seu plano de purificar a Alemanha e o planeta recebeu alguns holofotes, talvez nenhum mais ousado que o de Chaplin, de 1940, que protagonizou o Adenoid Hynkel. Mas, o inglês reconhece mais tarde, “se eu soubesse do verdadeiro horror dos campos de concentração alemães, não poderia ter feito O grande ditador; não poderia ter feito graça da loucura homicida dos nazistas.” Os filmes posteriores à descoberta dos campos de concentração trazem um ar pesado, melancólico e punitivo, como havia de ser.
Enfim, quando achávamos que caminhávamos rumo à civilização chega o ano de 1914, quando supúnhamos que nada pioraria desabrocha morto 1939. E os filmes se valeram do fato para reiterar a barbárie que é uma guerra. Bom se pudéssemos voltar ao cinema de Ferdinand Zecca, de 1901, no qual aparece sobrevoando o bairro parisiense de Belleville em uma máquina bisonha no curta A conquista dos ares. Ou que os fatos que a sétima arte cultiva não fossem ligados à selvageria humana.

 

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Normandia, dia D. Foto: Reprodução/site pixabay.com

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