Nunca chore aos domingos

De sagradas a profanas, prostitutas contam um tanto de suas histórias no mundo baixo, entre cafetões, doses de cinquenta reais e crianças que estudam em colégios particulares

 

 

Vinicius, dono do Stilus Bar, às margens do Contorno Sul, pertinho da Universidade Positivo, está no negócio há dezessete anos. É um sujeito de valores bem definidos, embora alguns possam alegar que ele tem uma interpretação peculiar das leis. A casa, modesta, com espaço para vinte pessoas sentadas, é a única do tipo que restou da região. As outras fecharam por motivos diversos (e densos), como relação com o tráfico de drogas e inclusão de menores de idade em serviços nada ortodoxos. Ao menos é o que Vinicius afirma. “Mas aqui eu faço tudo certinho, dentro da lei”, diz. “Pena que vocês vieram num dia ruim.”
É terça-feira de feriado e apenas duas moças atendem na casa: Amanda e Luana. Converso com Amanda, moradora aqui do Fazendinha, 32 anos, cabelos ruivos encaracolados. Mora com a mãe e a filha de 13 anos, estudante de colégio particular. Amanda, que não chegou a completar o ensino médio, acabou de fazer um striptease. “Geralmente cobro cinquenta. Mas como hoje é feriado e está chovendo, fiz por quarenta reais”, afirma, animada.
A noite está ruim mesmo. Somos apenas eu, meu amigo e um sujeito de camisa do Paraná Clube (o que muito me surpreende). Na parede da entrada, um quadro gigante de uma cachoeira, com árvores repletas de cores exuberantes. A cerveja custa quinze reais e não está muito gelada. “Sempre fui puta, desde os dezessete”, dispara Amanda, por cima de um hálito nada amistoso. “Minha mãe também era.” Cochicha que não poderá falar muito: “É que o dono não gosta muito quando as meninas ficam de ti-ti-ti com os clientes. Acha que a gente fica armando pra fazer sexo fora da casa”. “E vocês fazem isso?” “Sim.”

 

 

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Foto: Reprodução/site cheetahssd.com

Tinha acabado de completar dezoito anos quando fui pela primeira vez em uma casa. Ainda não namorava. Era um casebre velho no alto de uma chácara, próximo ao posto da Polícia Rodoviária de Araucária, onde hoje há um motel de bom nível. Não tenho grandes recordações, mas marcou-me muito o dia em que o local pegou fogo.
Em um fim de tarde, o Corpo de Bombeiros avisou a redação. Fui incumbido de dirigir o carro do jornal, levando o setorista para cobrir a tragédia. Ninguém se feriu, mas a desolação de um dos vereadores da cidade, ao ver seu patrimônio virar cinzas, foi comovente. Quase todos choramos. Foi lá que conheci Eduarda, minha primeira namorada com passagens pela prostituição.
Era um sábado e eu tinha dez reais na carteira. Se não me engano, fomos primeiramente a um local chamado Três Corações. Quando chegamos, logo após escurecer, uma mulher com uma coxinha de frango na mão informou os horários de pico. “Daqui a pouco chegam os filés.”Acabamos na casa que meses depois pegaria fogo. Descemos do carro numa velocidade anormal e entramos. Tapetes pendurados na janela. Fagner. Uma moça calejada e de uma beleza cubista nos atendeu e perguntou se queríamos alguma bebida. “Gostaríamos de conhecer as meninas”, disse o mais velho de nós.“Tá, vou ver o que posso fazer por vocês”, disse a gerente, enquanto contava o número de marmanjos bêbados.
Então vieram as moças, cada uma se direcionando a um cliente. Eduarda era linda, morena, olhos cor de mel, vinte anos. Perguntei ao amigo do lado, considerando minha visão trabalhada no álcool, se era cor de mel mesmo. E se era morena. Ouvi alguém perguntar ao seu par sobre o preço da via anal. Resolvi perguntar à Eduarda o que sentia quando perguntavam esse tipo de coisa, natural do ofício. “Depende do homem. A maior parte é estúpida.” Perguntei se gostava de trabalhar num local onde a maior parte da clientela é estúpida. “Olha, já trabalhei em locais piores. E ganhando bem menos.”
Ficamos conversando mais alguns minutos, até esgotar a paciência das meninas. Pedi o seu número antes de ir embora. “Vou ligar amanhã. Prometo.” E liguei. Quando saímos pela primeira vez, ela me levou para conhecer os tios, na Vila Oficinas. Deu certo por quase um mês. Entre os segredos mais inconfessáveis e amores de domingo, ela falava sobre seus sonhos de menina. Queria cursar uma faculdade e morar no exterior, ser atriz e conhecer a Hollywood dos filmes que via com os pais. Em frente ao espelho de meu quarto, nua, me desafiava a pedir um sentimento. Tristeza. Ela ficava triste, não muito bem, mas ficava. Ira. Ódio. Indiferença. Amor. Chore, chore. “Não gosto de chorar no meu dia de folga.” Depois de algumas interpretações, ela cansava do jogral e vinha pra cama. “Qual dos sentimentos você gostou mais, meu amor?”
Um dia me contou como a mãe morreu. Foi acidente de carro, Eduarda tinha onze. Anos antes, o pai saiu para comprar pão e nunca mais voltou. A única lembrança dele eram os filmes que viam até ela dormir. Depois foi trabalhar em Ponta Grossa. Fiquei sabendo por uma amiga dela.

 

 

Lia trabalha no Texas Bar, em Araucária, pertinho da CSN. Deve ter 45 anos. Pergunto se conhece a música do Chico Buarque em seu nome. “Não.” Quero saber se já foi apaixonada por duas pessoas ao mesmo tempo. “Estou sempre apaixonada. Muitas vezes.” Começou a trabalhar aos quinze. Ficou presa uma época por causa do marido. Ele a agredia diariamente.
Um dia ele chegou bêbado e começou a ameaçá-la de morte. Então, quando ele veio em sua direção, bufando de raiva, ela enfiou uma faca na garganta de Jorge. Quando se deu conta do que tinha feito, cortou-o em pedaços, colocou tudo num saco e chamou a polícia. Ficou esperando na porta, com a cabeça nas mãos. “Ele tinha uma aparência serena, mas não parava de pingar.”
Lia está escrevendo um livro sobre suas histórias da noite, negócios errados, homens confusos, viagens inconsequentes, problemas com a cocaína e a pinga, os seis anos de prisão.“Será, ao meu jeito, um livro alegre, de final feliz.”

 

 

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Foto: Reprodução/site washingtonpost.com

No comecinho da Rodovia dos Minérios, o Bar Show é um desses lugares que dá um certo medo de entrar & nunca mais sair & nunca mais viver. Mas como ainda é terça-feira e chove cada vez mais – não tinha show do Kiss hoje? – sentimo-nos mais seguros e confiantes. Entramos e logo vemos que há dois homens de chapéu (isso mesmo), sentados, uma mulher incrível dependurada no poste de pole dance e outra que acaba de dar uma surra de bunda no homem mais baixo.
Não tem cerveja de garrafa e a long neck custa dez reais. Jéssica acaba nos cativando porque é o raro exemplar de prostituta ranzinza, dessas que não tem paciência com os clientes e guardam algo de inefável. Faz uma ligeira piada sobre a nossa burrice em relação ao show do Kiss – “Não é o show deles, não, tá todo mundo fazendo turismo na chuva” – e diz que até faria uso do pole dance se não tivesse com preguiça. “Mas vocês podem se aventurar, se quiserem.”
Tomo mais uma cerveja, enquanto ela bebe um vinho doce dos piores. “Esse vinho só não é pior do que as crises de choro da minha filha adolescente. E você, rapaz que já não é tão rapaz… conte sua história.” Melhor não, lady.

 

 

Esqueço seu nome, mas sei que tem 21 anos e não gosta de filmes sem final feliz. Alega que histórias de amor deveriam terminar bem porque irradiam esperança e humanidade. Não a olho porque o filme me derrubou. Deixo-a falar de suas impressões. Ela observa o teto e está a recordar a primeira vez que se apaixonou.
Por quatro temporadas sofreu de amor. Homem casado, Rio de Janeiro, uma coisa incontrolável. Desligo o DVD, coloco uma canção de Eduardo Gudin e vejo esta moça deitada e entristecida de passado. Sento na beira da cama e peço que ela se levante um pouco. Abraço-a e dou um beijo em seu rosto molhado até ela quase desmanchar-se em meu colo.
É 3h23. Cá estamos nós. Uma boa hora para recomeçar nossos corações, minha querida. “Preciso voltar a trabalhar”, diz, se levantando.

 

 

Dicas Tropicaliente’s Bar, na Rua André de Barros, o melhor atendimento de todas as casas, o garçom Amauri: uma das melhores figuras da cidade. Pego na mão de Tifani (com i mesmo) e começo a fazer a massagem que aprendi no DVD de shiatsu de dez reais. Sempre funciona, sempre. Mas, por algum motivo, ela está me olhando seriamente, quase me aterrando no sofá: “Você sabe ler mãos, né?” Fico um pouco desconcertado, e não apenas porque ela é uma das morenas mais maravilhosas que eu já vi numa casa dessas, com um short jeans azul e seios muito vistosos.
“Bem, não sei ler, não. Mas se eu soubesse, não iria te falar assim…” Ela sorri de um jeito estranho, aperta a minha mão e penso que não vai demorar nem quinze minutos pra ela chorar – e como choram essas meninas depois das cinco da manhã. “O que está escrito na minha mão?” “Hum… Deixa eu ver primeiramente uma coisa. Você tem vinte anos… Não, dezenove… Isso, dezenove.” Ela se empolga, pois acerto em cheio. Sigo. “Você teve uma grande decepção de amor… Deixa eu ver… Recentemente. Você está triste.”
Vou averiguando a vida afetiva de Tifani até que ela me diz: “Sabe, eu queria apenas um namorado. Não sei o que acontece: os homens gostam de mim um pouco e depois me largam. Todos os três foram assim”. Pago uma dose de cinquenta reais e ela se aconchega mais. Como estou sóbrio-médio, acredito que ela realmente está gostando de mim. Acabo de saber que ela terminou com o porteiro do prédio dela, na Saldanha Marinho.
“Ele não gostava de sexo. Dava dez minutos e já terminava tudo. Disse-me, um dia, que não gostava da ideia de que eu tivesse prazer trabalhando como prostituta. Mas eu tenho, às vezes, não tem como não ter”, diz, abrindo um sorriso, pra logo em seguida se encher de lágrimas. “Jura que eu vou conseguir um namorado em um mês?”
Juro.

 

 

Nas antigas civilizações gregas e romanas, bem antes do nosso calendário, muitas prostitutas eram consideradas sagradas. Respeitadas por seus dotes físicos e espirituais, tinham uma vida de luxos e afetos. Vistas atualmente como profanas e objeto de ofensas em discussões de idade mental inferior aos quinze anos, as professoras do amor – como as chamava Mário de Andrade – levam vidas muitas vezes dramaticamente comuns.
Andressa, do Bar Show, deixou o marido porque ele a traía com a melhor amiga. “Hoje, quando ele vem aqui, digo que só faço sexo se ele pagar. Normal.” Quando não está trabalhando, ela gosta de jantar com os clientes mais bacanas no Costelão 24 Horas, ali na Rua Chile. “É normal. Os caras saem das baladinhas, trazem as prostitutas aqui, pagam uma jantinha pra elas e depois levam pra casa. É bonito de ver”, conta um dos garçons da churrascaria.
Baudelaire escreveu diversos poemas sobre as mulheres de tantas noites: “Para ter sapatos, ela vendeu sua alma / Mas o bom Deus riria se, perto dessa infame, / Eu bancasse o Tartufo…”. Contudo, não era um carrasco. O poeta ser necessário fingir altivez para descrevê-las com forças de julgamento: “Eu, que vendo o meu pensamento e quero ser autor”. Nada mais verdadeiro.

 

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