Oh Deus, salve o oratório

Tenho a impressão que todos os santos já foram cantados na MPB. Há fé em nossa cultura popular. Há fé na música. O Brasil, sabe-se lá porque cargas d’água, é um país que acredita que Deus nasceu aqui. A economia, a violência, a ignorância, todas as nossas grandes mazelas ficaram por conta do livre arbítrio. Mas nosso povo crê. E crê muito. E crê tanto que as religiões se misturam e uma única pessoa consegue se esbaldar aqui e ali numa fé cega, mas sempre com a faca amolada.
Nas efemérides do mês de julho, está lá, plantado no 03, o Dia dos Incrédulos. Uma comemoração que pega carona no dia, claro!, de São Tomé. Minha memória musical e meus recursos de pesquisa não me apontaram uma homenagem ao santo na MPB, não duvido, apenas não encontrei.
Quem abre a edição é Paulo Leminski, a contar um pouco sobre a maravilha da liberdade com que a Igreja poderia nos brindar. Ela não faz isso, mas seria bem bacana se a instituição ligasse a vitrola e experimentasse um pouco de nossa música: “Aqui estou eu pra te proteger dos perigos da noite do dia / Sou fogo sou terra sou água sou gente eu também sou filho de Santa Maria / Se Dona Maria soubesse que o filho pecava e pecava tão lindo / Pegava o pecado e deixava de lado e fazia da Terra uma estrela sorrindo”.

 

Calix Bento
(folclore mineiro)
Adaptação de Tavinho Moura

Oh, Deus salve o oratório
Onde Deus fez a morada, oiá, meu Deus
Onde Deus fez a morada, oiá

Onde mora o cálix bento
E a hóstia consagrada, oiá, meu Deus
E a hóstia consagrada, oiá

De Jessé nasceu a vara
Da vara nasceu a flor, oiá, meu Deus
Da vara nasceu a flor, oiá

E da flor nasceu Maria
De Maria o Salvador, oiá, meu Deus
De Maria o Salvador, oiá

Outro que pode dar uma dica de como a vida melhora se o que se estabelece na forma de pecado for empurrado para o lado bom da força é Zeca Baleiro: “Cordeiro de Deus que tirai os pecados do mundo / Tende piedade dos pecadinhos / Que de tão pequenininhos não fazem mal a ninguém […] Eu que vivo na flauta / Vivo tão pianinho / Vou virar astronauta / Pra aprender o caminho”.
Caetano Veloso mistura crenças, se declara ateu, mas liga as antenas, sabe da força dos homens, do poder que nasce no humano. Assim cantou em Milagres do Povo: “Quem é ateu e viu milagres como eu / Sabe que os deuses sem Deus / Não cessam de brotar, nem cansam de esperar / E o coração que é soberano e que é senhor / Não cabe na escravidão, não cabe no seu não / Não cabe em si de tanto sim / É pura dança e sexo e glória, e paira para além da história […] Quem descobriu o Brasil? / Foi o negro que viu a crueldade bem de frente / E ainda produziu milagres de fé no extremo ocidente / Ojuobáialá e via / Ojuobahia”.
Chico Buarque bem que poderia ter em sua discografia uma homenagenzinha a São Tomé… Nosso comunista de plantão desafia Deus em vários momentos, às vezes até o ridiculariza e lhe deposita as responsabilidades como Criador: “Deus é um cara gozador, adora brincadeira / Pois pra me jogar no mundo, tinha o mundo inteiro / Mas achou muito engraçado me botar cabreiro / Na barriga da miséria, eu nasci brasileiro / Eu sou do Rio de Janeiro”. Depois que afastou o cálice de vinho tinto de sangue, não houve mais barreiras e volta e meia o letrista retorna ao tema e questiona o divino: “Não, Nosso Senhor / Não há de ter lançado em movimiento terra e céu / Estrelas percorrendo o firmamento em carrossel / Pra circular em torno ao Criador / Ou será que o deus / Que criou nosso desejo é tão cruel / Mostra os vales onde jorra o leite e o mel / E esses vales são de Deus” (Sobre todas as coisas, parceria com Edu Lobo). E talvez seja lá em Paratodos que Chico demonstre de maneira inconteste a sua fé. Ele acredita nos homens, na beleza, na música, na arte como cura das mazelas. Se eu achasse que interessaria a alguém a minha posição diante do assunto, confessaria que concordo com Chico, mas isso não vem ao caso e o que importa mesmo é saber que homens de carne e osso operaram nossos milagres cotidianos e a eles devemos um pouco de nossas preces: “Nessas tortuosas trilhas / A viola me redime / Creia, ilustre cavalheiro / Contra fel, moléstia, crime / Use Dorival Caymmi / Vá de Jackson do Pandeiro”.

 

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J. Velloso. Foto: Aleksandra Pinheiro

Santo Antônio
J. Velloso

Que seria de mim meu Deus
Sem a fé em Antônio
A luz desceu do céu
Clareando o encanto
Da espada espelhada em Deus
Viva viva meu santo

Saúde que foge
Volta por outro caminho
Amor que se perde
Nasce outro no ninho
Maldade que vem e vai
Vira flor na alegria
Trezena de junho
É tempo sagrado
Na minha Bahia
 
Antônio querido
Preciso do seu carinho
Se ando perdido
Mostre-me novo caminho
Nas tuas pegadas claras
Trilho o meu destino
Estou nos teus braços
Como se fosse
Deus menino

Em 2002 quando Marisa Monte, Arnaldo Antunes e Carlinhos Brown se encontraram em projeto específico foram logo contando sobre as ideias dessa tríade. Apesar de as crenças particulares estampadas em suas músicas, quando unidos em forma de Tribalistas, eles mandaram o recado: “Os tribalistas já não querem ter razão / Não querem ter certeza / Não querem ter juízo nem religião / Os tribalistas já não entram em questão / Não entram em doutrina, em fofoca ou discussão / Chegou o tribalismo no pilar da construção / Pé em Deus e Fé na Taba / Pé em Deus e Fé na Taba / Um dia já fui chimpancé / Agora eu ando só com o pé”.
Mas, sabemos bem, nem só de anticristos vive a MPB. Ao contrário, eles são minoria. E se aqui estivéssemos tratando da música erudita de todos os tempos encontraríamos na Igreja o melhor da arte. A grande arte está em simbiose com a Igreja Católica, mas esse é outro assunto, bem outro e nem deveria ser citado agora para evitar confusões, mas é bom lembrar das maravilhas das missas que se apoiam nos nomes definitivos da grande música.
Voltando para nossa MPB e os crentes que utilizam de seus acordes para mensagem divina, encontramos Gilberto Gil, que já diz logo a que veio: “Andá com fé eu vou / Que a fé não costuma faiá / Que a fé tá na mulher / A fé tá na cobra coral / Num pedaço de pão / A fé tá na maré / Na lâmina de um punhal / Na luz, na escuridão”. E quando a coisa fica feia mesmo, a fé de Gil se espalha e que nos venha a salvação, não importa muito por qual eixo: “Baixa, Cristo ou Oxalá / Baixa, santo ou orixá / Rocha, chuva, laser, gás / Bicho, planta, tanto faz / Brecha, faça-se abrir / Deixa, nossa dor fugir […] Eu, tu e todos no mundo / No fundo, tememos por nosso futuro / ET e todos os santos, valei-nos / Livrai-nos desse tempo escuro”. Não dá para citar outras páginas da discografia de Gil a tratar do tema porque os números são muitos e o espaço é pouco, mas vale dar um passeio pela vertente mística do compositor e é lá que podemos encontrar maravilhas como “Se eu quiser falar com Deus / Tenho que ficar a sós / Tenho que apagar a luz / Tenho que calar a voz / Tenho que encontrar a paz / Tenho que folgar os nós / Dos sapatos, da gravata / Dos desejos, dos receios / Tenho que esquecer a data / Tenho que perder a conta / Tenho que ter mãos vazias / Ter a alma e o corpo nus”.

 

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Ivan Lins. Foto: Reprodução/site bayerischerhof.de

Bandeira do Divino
Ivan Lins e Vitor Martins

Os devotos do Divino
vão abrir sua morada
Para bandeira do menino
ser bem-vinda, ser louvada, ai, ai

Deus nos salve esse devoto pela esmola em vosso nome
Dando água a quem tem sede, dando pão a quem tem fome, ai, ai

A bandeira acredita que a semente seja tanta
Que essa mesa seja farta, que essa casa seja santa, ai, ai

Que o perdão seja sagrado, que a fé seja infinita
Que o homem seja livre, que a justiça sobreviva, ai, ai

Assim como os três reis magos que seguiram a estrela guia
A bandeira segue em frente atrás de melhores dias, ai, ai

No estandarte vai escrito que ele voltará de novo
E o rei será bendito, ele nascerá do povo, ai, ai

A incrível diversidade religiosa que a Bahia concentra e assume proporciona que a música que nasce por aquelas bandas se transforme rapidinho no espelho do nosso Brasil sincrético, múltiplo de crenças e seja cantado em religiões diversas que podem se render a Mãe Menininha do Gantois, como fizeram Ederaldo Gentil, Anísio Félix, Dorival Caymmi ou tratar de outras entidades como escreveram os turistas Vinícius de Moraes, Baden Powell, Paulo Cesar Pinheiro.
Muito mais que as 365 igrejas que a Bahia tem, que os guias do candomblé, que todos os santos, que todas os caminhos separados, diferentes ou parecidos que objetivam um único lugar, é bom ouvir o que São Salvador inspira. Como também os reisados que saem de Minas Gerais e percorrem, deveriam percorrer, as rádios do país, ou os altares erguidos para os santificados, ou simplesmente aqueles que fazem do sol, da lua, do vento e da bruma a mais sincera oração.
Talvez seja a MPB a maior e mais justa das religiões, aquela que suporta e aceita todos os pensamentos, a que pode ter reconhecida na sigla a palavra respeito. É assim que tem que ser. Salve a MPB, salve o compositor popular!
Os virtuoses que pisam por aqui nos apontam dois caminhos. O primeiro é crer num ser divino que vez ou outra libera um dos seus para espalhar encantamentos nessa terra; uma coisa meio de um ser disposto a nos presentear com o bem e a soprar nossas feridas com belezas – espécie de carinho para diminuir o penar ou, pelo menos, deixar-lhe mais manso. O segundo é o profundo reconhecimento do que pode o humano, a revelação da força da criação, do empenho, do estudo, do trabalho. E isso nada tem de divino, é coisa bem mundana, apoiada em técnica e labuta – a revelação dos nossos poderes e quereres. Pelo sim, pelo não, meu voto vai para São Pixinguinha, que reúne um muito de tudo.

 

 

Reza
Edu Lobo e Ruy Guerra

Por amor andei, já
Tanto chão e mar
Senhor, já nem sei
Se o amor não é mais
Bastante pra vencer
Eu já sei o que vou fazer
Meu Senhor, uma oração
Vou cantar para ver se vai valer
Laia, ladaia, sabatana, Ave Maria
Laia, ladaia, sabatana, Ave Maria
Ó meu santo defensor
Traga o meu amor
Laia, ladaia, sabatana, Ave Maria
Laia, ladaia, sabatana, Ave Maria
Se é fraca a ora…ção
Mil vezes canta…rei
Laia, ladaia, sabatana, Ave Maria
Laia, ladaia, sabatana, Ave Maria

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