Reversão de imagem

Nunca um governo paranaense careceu de um gestor de crises como agora: há soluções traumáticas como saídas de secretários para descomprimir o ambiente e isso se deu com o titular da Educação, Fernando Xavier Ferreira, cuja substituição abriu para a professora aposentada Ana Seres Comin a oportunidade de restabelecer o diálogo com os grevistas e com isso gerar pré-condições para um entendimento. E ela veio com uma bandeira branca: a de não haver cobrança dos dias parados, o que afinal não é pouco para desarmar espíritos.

Seguiram-se os pedidos de exoneração do comandante da PM e do secretário de Segurança Fernando Francischini, que pouparam o governador do constrangimento de demiti-los, posto que sua disposição não fosse essa, mas esperar que os fatos se ajustassem.

Os problemas decorrentes do confronto demorarão muito para a metabolização e remover a imagem de violento do governador Beto Richa, o que era impensável até há pouco tempo e não vai ser fácil ainda mais com o fastígio das redes sociais e a força da repercussão do episódio, além do ambiente nacional. Uma coisa é a imagem inventada, construída pela artimanha política, outra a decorrente de fatos concretos no caso muito piores do que os havidos em 1988 e que tanto arruinaram a carreira, hoje recuperada, de Alvaro Dias.

 

O estilo é o homem

Lembro de uma aprontada contra Carlos Lacerda: a de que matava mendigos que, segundo o jornal Última Hora, eram lançados no Rio da Guarda, no Rio de Janeiro. O horror do fato alegado dá ideia do grau de radicalismo dos digladiantes. Lembro que numa das suas vindas a Curitiba, os repórteres da UH mostravam estudantes caçando urubus para recepcionar o grande jornalista e orador com a condição de “corvo”, essa uma referência mórbida a inculpá-lo como o autor oblíquo do suicídio de Vargas. Mas Lacerda era um guerreiro, o principal adversário de Getúlio, ainda que a maioria esmagadora dos jornais brasileiros hostilizasse o presidente e o seu nacionalismo como linha ideológica e, consequentemente, atacando Última Hora que lhe dava cobertura.

Ora, o nosso governador nada tem de guerreiro e esse seu alinhamento, em função do confronto no Centro Cívico, à violência é algo que para ser removido reclama ações nesse sentido e que poderiam ser de qualquer natureza menos a da perplexidade, a de não saber a quem atribuir as responsabilidades pelas ocorrências bélicas e cuja paternidade assumiu ao tratá-las como normais e atos de legítima defesa.

Ademais a recessão e o ajuste fiscal (como reajustar salários de servidores sem grave ônus para esse esforço?) tolhem os seus movimentos e essa atuação reparadora deve se dar agora e não mais tarde, daí uma nova agenda positiva para gerar expectativas de recuperação: as ações da secretária de Educação, até aqui, deram boa contribuição abrindo espaço para a pacificação definitiva.

Ficaram sedimentos fortes como a história dos dois jornalistas da RPC que tiveram que exilar-se por medida de segurança, esse registro escabroso de moças e rapazes prensados por policiais, durante os conflitos, com aquelas, inclusive, obrigadas a ficar nuas.

 

Crença no Paraná

O fator que pode beneficiar, lá na frente, o governador é a indiscutível capacidade de recuperação de nossa economia num momento simétrico ao quadro nacional, onde levamos vantagens seguidamente comprovadas. Indispensável evitar novos acidentes de percurso e que ponham em risco o ajuste fiscal como eventual recusa do Ministério da Previdência nas mudanças no fundo de pensão estadual que aí geraria, no plano financeiro, algo do mesmo porte do confronto bélico no Centro Cívico.

Cicatrizadas as feridas, recomposta a base aliada depois do trauma na votação da reforma previdenciária e agora do reajuste dos servidores, Beto Richa poderia, num cenário renovado, expressar aquilo que sabe muito bem: juventude, empatia e confiança.

 

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