Samuel

Eu te escrevo de muito longe. Estou do outro lado do mundo. No avesso do que vivemos. Faz frio. É escuro. Tenho medo da escuridão, você sabe. Ela é para mim todas as trancas das portas, não as portas, as trancas; aquelas que seguram toda a felicidade de um lado e me mantém de outro. Vim parar aqui não por vontade nem por acaso. Vim simplesmente caminhando nesse destino que alimentei toda vez que deixei você desabotoar meu vestido. Toda vez que eu mesma desabotoei meu vestido. Toda vez que torci para você desabotoar meu vestido. Não sou vítima. Eu sabia que a cada encontro a distância para a volta ficava maior. E mesmo assim segui, era a perdição e a maravilha, tudo ao mesmo tempo em nossa cama. Os beijos, os carinhos, os gozos, cada um, um cadeado novo. Sabia que em algum momento tudo ficaria de um lado da porta, conhecia o risco de ter que morar em outro lugar. Não parei porque não girar a chave era como não viver. E eu queria viver, viver tudo. Se hoje, te escrevo daqui, dessa terra fria, escura e distante, se estou no outro lado do mundo, é porque não me furtei a nenhuma experiência e me atirei até no que tive medo. Parece que agora sou inteira, pertencem a mim todas as experiências, conheci todos os recortes, e isso é grandiosamente ruim. Esse tremor que sinto agora é o mesmo de toda vez que você desabotoou meu vestido, só que do lado do avesso.

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