Saudades de Mombaça

Abro o jornal de domingo e estrago o meu dia. Sim, eu ainda leio jornal impresso, no papel, desconfio muito das verdades na telinha do computador. Um assombro. As notícias dão a exata medida da nossa miséria material, emocional, moral e cultural. O Brasil, que se queria o país do futuro, é só mais um país distante, exótico, sem esperança. Sem saudosismo, melhor o passado.
As páginas de política poderiam estar no caderno do noticiário policial. Falcatruas de toda ordem, roubos bilionários nas estatais, depravação completa dos governos, os políticos a chafurdar no pântano merdoso que é o seu ambiente natural.
Passo para a economia. Engulhos. Joaquim Levy diz que a estrutura do crédito no país está ultrapassada. Verdade. O Bradesco, por exemplo, cobra 6,53% ao mês no empréstimo pessoal e 10,45% ao mês no cheque especial. Nem mesmo usurários da Idade Média cobravam tanto.
Vou às amenidades. O jornal nos conta que o New York Times publicou matéria que questiona a lista dos 50 melhores restaurantes do mundo. A lista é dessas fajutices criadas por espertalhões e infladas por assessores de imprensa, para enganar o distinto público – e faturar com isso. Os que caem na esparrela acabam por comer formigas e tentam achar gosto em espuminhas insípidas.
A revista do New York Times também publicou uma extensa reportagem, intitulada “The Child Preachers of Brazil”, sobre crianças e adolescentes que se transformaram em pregadores de igrejas evangélicas, em especial da Assembleia de Deus.
Todas muito pobres, evidentemente. O caso mais triste é o de Alani Santos, de São Gonçalo. Ela tem 11 anos, prega desde os três (sim, três) e o povo lhe atribui milagres de cura. Assim como Alani, calcula-se que haja milhares. Para ser justo, aí vai a exceção. Silas Malafaia é citado na reportagem. Ele condena a exploração dessas crianças sem infância, desses jovens sem juventude.
Vou às páginas de esportes. Sei que a seleção apodreceu, que o futebol que vemos no Brasil é de terceira classe, que nossos melhores jogadores estão na Europa. Tudo bem. Mas não esperava mais uma notícia policial em lugar errado. Leio que o craque Neymar está nervoso e não é só por sonegação fiscal. Neymar também levou cartão vermelho porque está sendo investigado por “corrupção entre particulares”. Ele e o seu pai enganaram o Santos na transferência para o Barcelona. Levaram 40 milhões de euros a mais, sem que o Santos soubesse.
Volto às páginas iniciais Dilma Rousseff quer a volta da CPMF. O presidente do PT, Rui Falcão, declarou: “É necessário mudar o sistema tributário nacional, que é injusto, regressivo e concentrador. É preciso reavivar a CPMF, que é um imposto limpo, não cumulativo e transparente”. Mais um imposto para quem paga 40% de tributos é demais para meu coração.
Última tentativa. Vou ao obituário. Morreu Antonio Paes de Andrade, ex-presidente da Câmara. Ora, pois, me ocorre que eram bons tempos aqueles em que escândalo era um interino na Presidência da República pegar um avião da FAB e viajar até Mombaça, no Ceará, para exibir-se na terra natal. Saudades de Mombaça.

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