Como Araucária vence a crise

A crise no sistema político brasileiro bate forte. A população que pouco simpática é com seus governantes está cada vez mais indigesta. Os números mostram. A rejeição ao executivo, legislativo e judiciário é grande. E a incapacidade do governo federal e fatos recentes com o governo estadual espirram nas administrações públicas que pouco ou nada se relacionam com eles.
Olizandro Ferreira (PMDB), prefeito de Araucária, sente na carne. Em seu segundo mandato (o primeiro foi entre 2005 e 2008) tenta reestruturar um município mal administrado pela gestão anterior, do prefeito Albanor Gomes, o Zezé (PSDB), de 2009 a 2012.

 
“A gestão passada, aproveitando o aumento da arrecadação proveniente da obra da Petrobras na cidade, aumentou em mais de R$ 100 milhões a folha de pagamento, ou seja, mais de 60%”, disse Olizandro. Este dinheiro, no entanto, era provisório, o custo da máquina pública é permanente.
Agora é preciso cortar verbas, não liberar outras para que a cidade de Araucária não fique no vermelho, todavia o atual momento não favorece esse tipo de ação. Uma população raivosa e pouco contente com os administradores públicos quer efetividade e muitas vezes relaciona a crise de Dilma Rousseff com a gestão de Olizandro – e uma coisa nada tem a ver com a outra – como o próprio prefeito disse, “o cidadão quer que eu resolva a crise da porta para dentro de sua casa e muitos problemas da porta para dentro é em decorrência do governo Dilma”.

 
Além disso tudo, o prefeito conta com a pouca compreensão do funcionalismo público, que não entende o momento de crise financeira que não assola exclusivamente Araucária, mas o país inteiro. Olizandro destaca “A crise para Araucária está dando a oportunidade de reestruturação numa realidade que nunca deveria ter vivido, a arrecadação que nós temos poderia render um paraíso. Se não fosse a questão do estado inchado teríamos uma capacidade de investimento de R$ 100 milhões por ano.”

Professores

Os professores do estado do Paraná se queixaram por 50 dias de seus salários, negaram-se a dialogar e deixaram-se cair no conto do vigário da APP-Sindicato. Logo os professores que deveriam ser esclarecidos fecharam os olhos da razão e mergulharam num movimento de massa que tinha no volante além da APP-Sindicato, partidos de oposição do governo Beto Richa (PSDB).
Ao que tudo indica Araucária vive uma realidade paralela. Os professores da cidade contabilizam 37% dos 5200 servidores municipais. Com seus 130 mil habitantes destinou R$ 162,8 milhões para a educação, enquanto municípios como Pinhais que tem 117 mil habitantes e é governado pelo PT (o da Pátria Educadora) investiu somente R$ 78, 9 milhões.

Recuperação

Entre 2002 e 2006 a arrecadação de ISS vinha estável no município, oscilando entre os R$ 7,5 mi. Com a reforma da Petrobras na Repar (Refinaria Presidente Getúlio Vargas) houve um salto absurdo, vistos principalmente nos anos de 2010 (R$ 95 mi), 2011 (R$ 112 mi) e 2012 (R$ 92 mi).
Com isso o ex-prefeito aumentou também a máquina estatal, o número de funcionários em sua gestão saltou de 5004 para 5569 e a despesa em folha de pagamento de R$ 174 mi para R$ 281 mi. Zezé acreditou no Soneto de Fidelidade, de Vinícius de Moraes, “que seja infinito enquanto dure”, a questão aqui é que não se tratava de um caso de amor, ele sabia que a obra da Petrobras um dia chegaria ao fim e todo esse dinheiro vindo do ISS também. E foi o que aconteceu. Só que esta bomba estourou no colo de Olizandro e junto com ela veio o adicional da crise nacional. E agora a folha de pagamento consome 53% de toda a arrecadação.
Para sorte (?) do prefeito a máquina inchou em todos os sentidos, logo dava para cortar gastos de diversos setores. Como a quantidade de carros que a prefeitura usava, o número de aluguéis que pagava, enfim coisas que não eram essenciais para o funcionamento da administração da cidade e apenas consumiam dinheiro público.

Integração

Mesmo com a crise que passa por cima de gregos e troianos, Olizandro Ferreira conseguiu firmar em parceria com o governo do estado a integração do transporte coletivo entre Curitiba e Araucária.
O convênio garante que quatro linhas metropolitanas, além do ligeirinho Curitiba/Araucária, partam dos terminais Central e Vila Angélica, em Araucária, e se integrem nos terminais de Curitiba. Pelo convênio, o subsídio de R$ 800 mil por mês será dividido entre o Estado e o Município.
Com as linhas de ônibus desintegradas os 20 mil passageiros de Araucária estavam a pagar R$ 14 diários para utilizar o transporte público que dava em média R$ 308 mensais.
“Com a boa vontade e disposição da prefeitura de Araucária e do Governo do Estado pudemos construir esta solução compartilhada”, afirmou Omar Akel, presidente da Coordenação da Região Metropolitana de Curitiba (Comec). O governador Beto Richa disse na altura que “O Estado encontrou a fórmula para que esta importante integração seja mantida, o que trará tranquilidade aos trabalhadores e estudantes que se deslocam entre os dois municípios”.

Como superar a crise?

A revista Ideias foi ouvir Olizandro para saber como e o que está a fazer para superar esta crise, no caso dele dupla, o que foi feito e o que ainda é necessário arranjar. Leia na entrevista abaixo.

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Olizandro Ferreira, prefeito de Araucária. Foto: Assessoria Prefeitura de Araucária

Qual é o grande problema que Araucária tem para enfrentar a crise?

O grande problema é funcionário, pois qualquer empregado da iniciativa privada tem que se sujeitar a alguns limites, 95% do trabalhador brasileiro aceita a crise, aceita cortes, redução de vales para preservar o emprego, ou seja, ele se insere na crise, todos se inserem, não há como escapar dela. O servidor público não. Ele vai para rua, grita, quer o direito do mesmo jeito e às vezes até mais. Por que o servidor não pode também se enquadrar na crise? E o professor é ainda pior, pois explora o fato e se vitimiza.
Atualmente, o saldo para investimento em obras e serviços é muito pequeno em relação ao orçamento e nós já ultrapassamos o limite de 51,3% exigido pela Lei de Responsabilidade Fiscal, caso ela não seja cumprida o município receberá uma série de sanções, como o não recebimento de repasses do Estado e da União. E o nosso funcionário público não consegue perceber e entender o atual momento.

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Olizandro Ferreira, prefeito de Araucária. Foto: Assessoria Prefeitura de Araucária

Onde que a cidade mais gasta?

Aqui em Araucária a folha de pagamento consome 53% de toda arrecadação, alguém poderia argumentar que isso se deve aos cargos comissionados – sim, eles existem – porém, R$ 24,5 mi é a folha total, os comissionados consomem deste número R$ 1,5 mi. Nós reduzimos muito o cargo de confiança. Estimamos que no ano de 2015 gastaremos R$ 310 milhões em salários, cinco anos atrás a prefeitura gastava R$ 100 milhões a menos.
Mas, mesmo assim o funcionário continua a receber incentivos e os salários, férias, triênios e qüinqüênios (progressões por tempo de serviço) estão em dia.
Nosso funcionário público, independentemente do reajuste recebe após três anos de serviço um aumento de 10%, após cinco anos um aumento de 5% e depois de seis mais 10%, isto é, o funcionário da prefeitura de Araucária que tem seis anos de serviço recebe um aumento de 25% na folha de pagamento, além, é claro, do reajuste.

Qual foi a Araucária que seu governo recebeu?

O ex-prefeito cometeu uma falha terrível em sua gestão. Nós tivemos uma receita provisória devido à obra da Petrobras muito acima do normal, com esse dinheiro que “sobrou” ele elevou a folha consideravelmente, contratou 1.170 funcionários, ampliou a Guarda Municipal, mas não pensou que essa verba extra tinha um tempo limitado, um dia a obra iria acabar e a receita da cidade voltaria ao normal.
Ainda bem que o nosso município tinha gorduras para cortar. Aí tive que cortar transporte, aluguéis, coisas que excediam a necessidade da administração. No primeiro ano do mandato consegui cortar quase R$ 50 mi.
Quando eu assumi a prefeitura, nós tínhamos 160 veículos locados. Hoje operamos com 50 e funciona do mesmo jeito. Só com essa redução nós economizamos R$ 1,5 mi.
Os próximos prefeitos vão ter que pensar diferente a cidade, terão que administrar como prefeitos de cidades que não tem uma Petrobras.

O Estado recentemente passou por uma crise com seus professores, qual é a relação entre a prefeitura de Araucária e seus profissionais da educação?

Nós pagamos aos professores um dos maiores salários do Paraná, é uma realidade que muitos municípios do país não têm e precisamos que a população veja isso.
Para 20 horas semanais o salário inicial é de R$ 2090,72 e mais R$ 300 de alimentação. Para se ter um parâmetro basta olhar para o salário da capital, R$ 1.224. Para os professores que trabalham 40 horas semanais, o salário é de R$ 4181,44, enquanto o Estado paga R$ 2473,22. A folha de pagamento da Secretaria Municipal de Educação consome 80% do orçamento anual.
Porém, ainda assim é possível fazer investimentos: foram distribuídos kits de uniforme escolar para 24 mil alunos. Nós somos uma das únicas cidades do Paraná com van escolar adaptada para cadeirantes. Nossas escolas rurais têm lousa digital. Temos 16 ônibus novos para fazer o transporte escolar que atende mais de cinco mil alunos. Enfim, são muitos investimentos que avaliamos como básicos e necessários.

Prefeito de Araucária, Olizandro José Ferreria. Em Paço Municipal Ignácio Kampa - Araucária-PR - 20 de maio de 2015 Foto: Carlos Poly/SMCS

Olizandro Ferreira, prefeito de Araucária. Foto: Assessoria Prefeitura de Araucária

E como investir na cidade estando nesta situação? Obras de pavimentação, calçadas, redes de esgoto, etc.?

Apesar de toda a crise, nós estamos conseguindo investir mais de R$ 50 mi em obras para a cidade, já fiz o dobro do que a gestão passada fez. Mas eu tenho consciência que a crise também atinge o cidadão do portão para dentro e nós precisamos alcançar, sanar, resolver esta insatisfação que muito se deve a má gestão federal.
Contudo, como prefeito, necessito que a qualidade do lugar que ele vive seja mantida, com crise ou sem crise, com crédito ou sem crédito. Logo há coisas palpáveis, visíveis, como a pavimentação da Avenida Manoel Ribas, a estrada do Campo Redondo (recebeu 1,2 km de asfalto), a Rua Julieta Vidal Ozório que recebeu calçadas e iluminação.
Mesmo assim tenho consciência que é pouco para meu cidadão, mas o dever de casa esta gestão está fazendo. O básico que a maior parte do país não possui, aqui em Araucária nos destacamos. Nós temos um médico para cada 350 habitantes, enquanto Curitiba tem um para mais de mil. E isso não é por causa do tamanho da cidade, pois Fazenda Rio Grande, que tem menos habitantes que nós, possui um médico para mais de dois mil habitantes.

Como os próximos prefeitos terão que administrar Araucária?

Isso é fácil, se resume em uma única coisa, como se a Petrobras não existisse em nosso município, assim conseguiremos uma administração austera e objetiva, dando a população o que ela de fato precisa.

 

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