1929 – Tragédia e novidades

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O Cine Theatro Palace, depois Cine Palácio, surgiu no início do século XX, um galpão enorme nos fundos de onde pouco mais tarde Moreira Garcêz construiria seu imponente edifício, o maior de Curitiba até a década de 1940. A entrada do cinema era pela Avenida Luiz Xavier, formando, com a inauguração do luxuoso Theatro Avenida em 1929, o coração da Cinelândia curitibana. Este galpão se estendia até o limite do Instituto de Educação e suas saídas laterais eram pela Rua Voluntários da Pátria. Nesta época o espaço era explorado pelo exibidor Matos Azeredo (1880 – 1940) que com bastante publicidade anunciou a exibição de “Os Barqueiros do Volga” (1925), com a direção do já famoso Cecil B. de Mille.  Era o início da tarde de 26 de fevereiro e uma multidão se avolumava em frente à entrada do cinema. Com o edifício em construção, improvisaram um pontilhão de madeira, sobre a vala aberta para os alicerces, como acesso provisório ao cinema.  O pontilhão não resistiu ao acúmulo da fila e parte desabou, pessoas caindo e amontoando-se no fundo do buraco. Saldo trágico: a morte de três crianças, uma senhora, uma jovem de 14 anos e feridos. A repercussão foi enorme e deu ao edifício a denominação de “Palácio das mortes”. Naquele dia os demais cinemas fecharam em luto.

 

The New York Premiere of THE JAZZ SINGER, October 6, 1927

Foto: Reprodução/site brevestoriadelcinema.altervista.org

Mas em 23 de outubro do mesmo ano, o Cine Theatro Palace alardeava a maior sensação de todos os tempos: a estreia do cinema falado em Curitiba. Os jornais da época publicaram anúncios de meia página divulgando a estreia de “O cantor de Jazz”, um filme sonoro, cantado, dançado e falado.  The Jazz singer, com Al Jolson, o maior astro cantor da Broadway, May Avoy e direção de Allan Crossland, Warner Brothers, 1927. Com alguns diálogos e músicas, o restante do filme conservava a linguagem dos mudos, inclusive com as legendas interrompendo a cena.

Durante o filme Al Jolson disse um jargão que se tornou profético e famoso: “vocês ainda não ouviram nada!” Para os curiosos, este filme foi lançado em Blu-ray aqui no Brasil, mas é piegas e muito ruim, todavia, pelo sucesso comercial alcançado, possibilitou a implantação do cinema sonoro, pois o processo era dispendioso. Os filmes totalmente sonorizados surgiram apenas no final deste ano nos EUA.

O aparelhamento sonoro foi montado por um engenheiro americano, auxiliado por um brasileiro da Cia. Força e Luz e mais 10 técnicos de “comprovada competência”.

O Avenida, por problemas técnicos, inaugurou o “sonoro” dois dias depois, pela manhã, com a presença do presidente do Estado, Sr. Affonso Alves de Camargo, exibindo o filme “Divina Dama”, com Corinne Griffith e Victor Varloni, Oscar de direção em 1928 para Frank Lloyd (Divine Lady – Paramount). No programa, alguns complementos com trechos da ópera Carmen de Bizet e do Tanhauser de Wagner. Administrado por Luiz Muzzilo, concorrente de Mattos Azeredo, a publicidade alardeava “a primazia não consiste em ser o primeiro: ella ressalta para quem pode e sabe ser o melhor”, na grafia da época. Os dois cinemas continuaram a lançar filmes da nova fase do cinema, alguns até da UFA (Universum Film Aktiengesellschaft) alemã. Durante semanas seguidas, nos cafés, nas residências, nas ruas, o assunto era a maravilha do cinema falado.

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Projetor com o toca-discos Vitaphone acoplado. Foto: Divulgação

O sistema usado então, o Vitaphone, consistia de discos de 16 polegadas, rodando a 33 1/3 rpm (o que deu origem aos Lps de vinil nesta rotação) em toca-discos acoplados ao projetor, acionados pelo mesmo motor garantindo a sincronização da imagem com o som. O filme tinha no início do rolo a marca “start”para ser colocado na janela do projetor e no disco também, onde a agulha teria que estar ao ser ligado o conjunto projetor e toca-discos. Se o filme arrebentasse ou o a agulha pulasse o sulco, teria que recomeçar o rolo de filme novamente, pois não havia como sincronizar no meio da parte projetada. Os filmes vinham em pequenos rolos, que eram projetados em dois projetores alternadamente, cada rolo com seu disco respectivo, e a habilidade dos operadores consistia em se notar minimamente as passagens. Também havia o problema do desgaste dos discos, poderiam quebrar no manuseio ou transporte, com a demora na reposição, impossibilitando a sessão.

No início dos anos 1930, difundiu-se o sistema “Movietone” em que o som vinha impresso na própria película, ao lado da imagem, sem problemas de sincronização. O sistema Vitaphone foi abandonado e o Movietone é usado até hoje, quando se projetam películas.

Mas este avanço provocou polêmica, principalmente pela má qualidade dos primeiros sonoros. Haviam grupos que defendiam a estética do cinema mudo, Chaplin se recusava a aderir ao sonoro. No Brasil, Vinicius de Moraes, ainda na década de 1940, promovia debates na então Capital Federal, escrevia crônicas nos jornais, defendendo a “arte silenciosa”.

 

Outra novidade, provavelmente em 1938: o primeiro longa colorido era exibido em Curitiba: “Amor e ódio na floresta”, The trail of the lone some pine, Paramount, 1936, com Fred MacMurray, Sylvia Sidney e Henry Fonda, direção de Henry Hathaway. Primeiro filme de sucesso em Technicolor, com as três cores fundamentais, processo inventado e aperfeiçoado pelo Dr. Herbert Kalmus, porém muito caro e com câmeras especiais e pouco sensíveis. Pelo sucesso obtido, viabilizou economicamente os filmes coloridos a partir de então. Foi rodado em exteriores, com bom roteiro e atores famosos e distribuído em escala mundial. Outro aperfeiçoamento que também gerou polêmica, com muitos diretores e atores que não quiseram aderir ao uso da cor. Depois vieram, entre outros, Branca de neve e os sete anões, E o vento levou, O mágico de Oz…

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