Ai, Brasil!

É um pé no saco acordar neste país com os noticiários a bradar as últimas prisões de políticos corruptos, a presidente da República visivelmente amedrontada, os ministros intimidados pelos maus bofes da população. Não têm coragem de ir a um restaurante porque podem ser recebidos com vaias, insultos e gritos de “fora, ladrão”.
Na mais alta corte de justiça do país, o  STF (Supremo Tribunal Federal), juízes se guiam pelas circunstâncias políticas com ouvidos atentos para o clamor das ruas. No Congresso, deputados e senadores acoelhados, em pânico com a real possibilidade de serem indiciados a qualquer momento. Na Procuradoria Geral da República o jogo de cartas marcadas, as manobras políticas revestidas de ação judicial, enquanto corre a disputa pelo cargo de procurador geral. Na Polícia Federal, comandantes sem liderança sobre a tropa.
O herói brasileiro de nossos dias já não é um ditador de plantão, nem um governante, nenhum político que tenha credibilidade na massa. Também não é um jogador de futebol, esporte que por aqui anda tão fracativo e desmoralizado depois da seleção perder de 7 a 1 para a Alemanha. O herói pátrio é um juiz federal, Sérgio Moro, que tem alma de promotor público e comanda as investigações da teia de corrupção que parece envolver toda a estrutura do Estado patrimonialista que desviou bilhões das empresas estatais. Tem seguidores provinciais. Promotores que almejam a mesma notoriedade.
O país carece de lideranças referenciais na política. O tucano Fernando Henrique Cardoso envelheceu, saiu do jogo, não entra no rol de alternativas para governar o país. Ele se mostra saudável, namora, viaja, escreve, mas entrou para a história e não quer voltar para o esgoto da vida pública brasileira como ator. Seu partido, o PSDB, se deixa manchar por um oportunismo amplo, irrestrito e hipócrita, de prostitutas em convento sem perceber que temem ser consumidos pela fogueira que acenderam.
Lula, o metalúrgico, símbolo máximo da mobilidade social no Brasil, condutor das massas e líder do PT, ex-presidente e candidato a voltar ao cargo, virou um trapo malcheiroso na podridão de seu partido, dos membros de sua gangue, da roubalheira que o implica até a medula e que enriqueceu seu filho, Lulinha, o maior beneficiário pessoal da ladroagem sem fim nos governos do pai, incluido o mandato de Dilma Rousseff. No PT, o quadro desabonador das prostitutas flagradas no próprio prostíbulo enquanto imaginam que ninguém sabe o que fazem e de onde vêm as fortunas acumuladas nos últimos anos.
A mídia refocila. Vive o gozo da notícia escandalosa, como se a função da imprensa fosse essa, noticiar o caos, o crime de colarinho branco, com evidente traço de ressentimento social. Espera o escândalo final, o fim dos dias de prazer, como nos grandes cabarés franceses antes da invasão alemã.

 

Vácuo de poder

O efeito Lava Jato, nome da operação que investiga a corrupção no Estado Patrimonialista brasileiro, encontrou pela frente um vácuo absoluto de poder. “A corrupção é endêmica e está em processo de metástase. Não está adstrita à Petrobras, espalhou-se para outros órgãos da administração pública”, disse o procurador Athayde Ribeiro Costa, da força-tarefa da Lava Jato. Sempre houve corrupção, mas o PT é o pior dos cânceres, não há dúvida.
O governo Dilma Rousseff dá demonstrações claras de que sabe o que faz. Seria inacreditável não fosse o Brasil o país que é. De acordo com o economista Mansueto Almeida, havia 21 bilhões de reais de despesas obrigatórias que Joaquim Levy e os seus meninos amestrados não levaram em conta na hora de projetar furadíssimas metas de superávit. Não levaram em conta porque não faziam a menor ideia da sua real dimensão, ao que tudo indica. Ou seja, Joaquim Levy, o ministro salvador convocado por Dilma Rousseff para irritação do PT, tende a se transformar em triste figura. Sua política econômica vai na contramão de todas as análises.
Todos os economista lúcidos do país afirmam que não há nenhuma possibilidade do ajuste fiscal de Joaquim Levy dar certo. Explicam que criou-se uma dinâmica perversa em que cada corte de despesas aumenta mais a recessão e provoca uma queda proporcionalmente maior na receita; e a elevação descomunal da taxa Selic impede qualquer estabilização no déficit nominal. Trocando em miúdos: ao reduzir investimentos em obras e programas, o governo federal aumenta a recessão que pretendia combater. O aumento brutal dos juros reduz investimentos privados e a produção, o que aumenta os preços e alimenta a inflação.
Esse era um desastre anunciado que, agora, confirma-se com os últimos dados divulgados: apenas no mês de junho, o impacto dos juros na dívida pública federal foi de R$ 23,34 bilhões. A recessão derrubou em R$ 122 bilhões a arrecadação de dois tributos, os administrados e a arrecadação previdenciária. Parte pela queda da atividade, parte por manobras fiscais defensivas das empresas.
O grande medo dos homens da economia é a de que haverá um impacto adicional na dívida na eventualidade de um rebaixamento do país pela agência Moody´s. E ainda não foram contabilizados os impactos da desvalorização cambial sobre os swaps cambiais do Banco Central.
Há outro agravante nos sinais de uma nova crise. Os superinvestimentos dos anos de bonança criaram um excesso de capacidade. Ainda não terminou a parte mais aguda do processo de desinflação mundial.

 

Há saída para a crise?

É preciso achar saídas, por mais dolorosas que elas sejam. E sabemos que quem vai pagar de forma mais dura o preço do desgoverno e da corrupção. É só conferir as contas de luz, os preços de alimentos,  transporte, dos bens e serviços, no emprego que vai embora.
Dilma Rousseff et caterva, incluido todo o PT que de revolucionário tornou-se funcionário com direito a cabides de salários polpudos, resiste a cortar gastos no custeio do governo e os dela própria. Um exemplo emblemático: em recente viagem a Nova York desembolsou U$ 22 mil do contribuinte para hospedar-se por duas noites na suíte Tiffany do Hotel St. Regis, aposentos com 158 m². Mais de R$ 40 mil cada pernoite. Um acinte que escancara o completo descaso aos que estão pagando a conta da crise sem precedentes em que ela meteu o país. E amplia sua rejeição. Continua sem aprender que política se faz com gestos – para os quais ela definitivamente não tem qualquer habilidade – e símbolos.
Dilma, ainda mais como governante, não reduz em um milímetro a máquina estatal gigantesca. Não corta um cargo sequer. Gasta muito mais do que arrecada. E gasta mal. Não corrige as deformações que herdou do antecessor e padrinho, o ex-presidente que dirigiu o país em época de fartura. Desperdiçou dinheiro em caprichos milionários, a exemplo da refinaria Abreu e Lima (PE), em parceria com o bolivariano Hugo Chávez, que lhe deu o cano. Ou ainda no lançamento de foguetes com a Ucrânia, acordo que será desfeito 12 anos depois de lançar pelos ares R$ 500 milhões do Tesouro.
Na Copa do Mundo da Fifa, Lula foi imbatível. Sob a sua batuta, o Brasil iniciou a construção ou reforma de 12 estádios. Custaram R$ 8 bilhões, 285% acima dos R$ 2,8 bilhões fixados em 2007. Quase o montante total do esforço fiscal que o governo estabeleceu agora ao reduzir sua meta para 2015. De acordo com o Tribunal de Contas da União, a Copa custou R$ 25,5 bilhões. Apenas R$ 7 bilhões foram investidos em mobilidade, e das 26 obras previstas em aeroportos, só 14 foram concluídas.
Embora o país tenha pelo menos 25 empreiteiras de grande porte, de acordo com o faturamento publicado na revista O Empreiteiro, as 10 denunciadas pela Lava Jato aparecem em todas essas obras e, na maior parte das vezes, com generosos financiamentos do BNDES, que também assegurou a elas expansões na América do Sul. Sempre com o aval de Lula. A partilha entre o cartel de empreiteiras companheiras pode ter garantindo obras da Copa para todas, mas no caso do Centro de Lançamento de Alcântara, de onde sairiam os foguetes ucranianos, o contrato do consórcio Odebrecht-Camargo Correa foi direto, sem licitação.

 

O elogio da incompetência

Ora, pois, não há receita mais perversa para um país do que um governo tarimbado em incompetência, malversação, roubalheira e incúria. Que gasta a rodo sem ter receita. Que, quando não patrocina, estimula ou faz vistas grossas à corrupção. Dilma jamais imaginaria que as palavras ditas em 2013, na inauguração da Arena Fonte Nova, em Salvador, seriam proféticas: “Somos um país conhecido como sendo insuperável no campo, mas nós estamos mostrando que somos insuperáveis também fora de campo”. Hoje o mundo se curva a um recorde nunca dantes alcançado em lugar nenhum do planeta. Nossa taxa de corrupção é inalcançável.
Entre os principais responsáveis por isso, o conluio espúrio e promíscuo entre empreiteiros, políticos, governantes e doleiros e lobistas, instalou-se o salve-se quem puder e como puder. Desde que o juiz Sergio Moro instalou o terror com a operação Lava Jato e esta se aproximou de forma incontestável de Lula, do PT, da sua corja e do Planalto e do Congresso Nacional, essa tem sido a regra.
A horda está com a lama batendo no queixo. Lula tenta um conchavo com os tucanos, que não são bobos nem nada e fogem da conversa mole de garantir a impunidade para resguardar a governabilidade. FHC diz que não se deve conversar com quem não se confia, e ele não confia em Lula e no PT. Aécio Neves repete a frase. Sem outra, Lula convoca a turba. Incita a malta. Teme a prisão e quer barricadas nas ruas para defendê-lo. Age para desestabilizar o juiz Sergio Moro, a Polícia Federal, o STJ, o STF. Com a já conhecida desfaçatez, o faz em nome da normalidade democrática. Ninguém escapa de sua sanha, agora em defesa de si mesmo: a presidente Dilma Rousseff, o vice Michel Temer, os presidentes do Senado, Renan Calheiros, e da Câmara, Eduardo Cunha. Lula é um showman especializado em pirotecnias. Na tentativa desesperada de se safar, tenta fazer crer que são as instituições, e não ele, o cerne da crise.
No PT, o caos. Cada um despeja culpas em outros e todos culpam o Ministério Público, a Procuradoria Geral da República e a Polícia Federal por fazerem exatamente o que tem de ser feito: investigar e denunciar. A turma parece nada ter apreendido com o Mensalão. Reincide nos delitos e na conduta pós-crime.
Lula chega ao sublime. Considera ingratidão a recusa do ministro do Supremo, Teori Zavascki, em abrandar prisões. Esperneia nas aprovações de delações premiadas, quebras de sigilo e de mandados de busca e apreensão em casas de políticos, como o que desbaratou a frota não declarada de carros de luxo do ex-presidente deposto e senador da base aliada, Fernando Collor de Mello (PTB-AL). A saída, com menor ou maior estardalhaço – caso típico do presidente da Câmara, acusado de ter recebido uma bolada de US$ 5 milhões -, é fazer confusão, ameaçar, subir o tom, criar clima de ruptura institucional.
A tese de instituições e democracia em risco, levada ao extremo, povoa discursos de Dilma e de seu vice, de Lula e do PT. Acuados, todos reclamam de vazamentos seletivos de depoimentos à Justiça, denunciam interesses escusos genéricos e golpismo. E soam como ameaça. Os petistas, com imaginação fertilíssima, materializam maquiavélicas fileiras da direita, orquestradas para barrar o projeto do PT – sabe-se lá qual – e a volta de Lula, o Grande, à Presidência da República. O país, mergulhado em crises política e econômica gravíssimas, com crescimento negativo, desemprego e inflação em alta, uma presidente da República frágil, impopular, sem crédito algum depois de se reeleger sob um manto de mentiras. Tudo o que não precisa é de uma crise institucional forjada ora por Lula e o PT, ora pelo Planalto, ora por Renan ou Cunha. Todos, sem exceção, empenhados na destruição da credibilidade da Justiça para salvar suas peles.
Pura desfaçatez. Ou seria sem vergonhice? Lula e seus mesquinhos amestrados juram que “as manifestações de junho de 2013 provocaram um cataclismo político cujas consequências mais graves estão se fazendo sentir agora. Com o modelo institucional vigente sem condições de atender às insatisfações, buscou-se a saída em outras instâncias. Em 1964, foram os militares; em 2015, a república dos procuradores. Para atingir seus objetivos, vale tudo, até divulgar mensagens em celulares de filha de detido ou divulgar como obra de arte valiosa meras gravuras. O inferno das denúncias e julgamentos midiáticos prosseguirá por muito tempo.” Pode? Claro que pode, no PT não há limite para a mentira e a depravação da política.
Mas, por maior que seja a tentação do presidente do STF, Ricardo Lewandowski, que, em inexplicável segredo, se reuniu com Dilma em Portugal, as instituições de Estado provaram e continuam a demonstrar que não caem em armadilhas. A expectativa é de que nem ao menos tropecem. Do contrário, aí sim, a crise institucional se tornaria real. Uma temeridade. O caos. O Brasil pronto para se transformar numa grande Venezuela. Ora, pois, há quem acredite que já somos isso, uma grande Venezuela, medíocre e bolivariana.

 

 

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