A burla costumeira

Uma das características da fase de transição do romantismo para o jornalismo profissional foi a do exercício diário da irreverência como se fosse uma forma de respirar do ambiente. E vinha com assustadora normalidade como se alguém dirigisse o espetáculo. Estou na redação de “O Estado do Paraná” e o diretor secretário João de Deus Freitas Neto recebe a visita do delegado regional do Trabalho, também da área jornalística, Antonio de Paula Filho e que traz instruções do comando da Federação dos Jornalistas sobre um congresso nacional que seria realizado justamente em Curitiba. Falava em nome de alguém da Fenaj que tinha um nome afrancesado pronunciado “cobertan”.
Freitas o atendia, enquanto corrigia textos e diante do informe de que falava em nome do afrancesado, o secretário tascou “pois san” em lugar do “pois sim” já que achou exagero o galicismo do sotaque sem tirar os olhos da revisão.
O pernambucano Fernando Pessoa Ferreira (chegou a diretor do Guairão e era um gozador compulsivo) traduzia um copyright de “Coma e Emagreça” e colocava os maiores absurdos como se fossem cartas de consulentes, “Tenho um metro e vinte de altura e peso oitenta quilos” e lá vinha a resposta “Desista, você é uma acondoplasta”. Nas sugestões de ginástica o absurdo: “ponha a mão direita no calcanhar do pé esquerdo e se alguém estranhar a sua postura meio aracnídea não se preocupe que é dos ignorantes o reino dos céus”.
Um dia ele, como repórter, e o fotógrafo Romário Amódio, lançaram ao ar um disco de alumínio sugerindo tratar-se de disco voador e as fotos chegaram a ser sacadas por agências internacionais. Se houvesse o cuidado de ler a abertura da matéria dava para ver que se tratava de um deboche: “Estávamos eu e o Romário caçando lagostas num bueiro da 24 de Maio quando tivemos a atenção despertada por um objeto metálico que se deslocava no espaço.”

Tolerância mil

No “Correio do Paraná” que pertencia aos Franco Ferreira da Costa, gente do PSD, Fernando escrevia uma coluna “Venenoteca” com o pseudônimo Chiquinho Bórgia. O tema principal do noticiário policial era um lobisomem que atacava pessoas no Tarumã. Descreviam-no como baixinho e peludo e Bórgia tascou “se é baixinho e peludo só pode ser o João Ribeiro Júnior”, então secretário da Fazenda e a figura mais importante do governo Lupion e vinculado ao jornal.
Quando diretor do Guaíra pensou em simplificar o andamento da obra, o que lhe rendeu atritos com o arquiteto Rubens Meister, rígido e que não tolerava molecagens, o jornalista referiu-se ao fato de existir uma baia para elefante, destinada à ópera “Aída”, como se fosse um “apartamento” do paquiderme.
No jornal “Última Hora” o Jairo Araújo Régis, irônico ao extremo, fazia a análise dos jornais e usava apelidos para os donos das folhas concorrentes: Francisco Cunha Pereira era o “Chiquinho Beleza” e o Paulo Pimentel “Paulinho Nelore” ou “Guzerá”. Cunha Pereira vai ao jornal e eu o atendi: não chamava ninguém pelo apelido como se sabia e não gostava de assim ser tratado. Roguei que falasse com o Ari de Carvalho (lançou o “Zero Hora” que vendeu aos Sirotski e faleceu chefiando o “O Dia” que recebeu de Chagas Freitas no Rio). Como era assemelhado no tratamento, fino e educado, prometeu falar com o Jairo. Rogou que não usasse mais o “Chiquinho Beleza” e no dia seguinte saiu “Francis, the beautiful”.

As mãos de Sócrates

Como se percebe algo mais do que irreverência nessas passagens com bela cota de irresponsabilidade. No “Diário do Paraná”, em chefia eventual, recebi a incumbência de Adherbal Stresser, o dono, de nada publicar sobre a disputa de uma cadeira de História das Artes na Católica entre o mestre Bruno Ennei, um craque em Dante e Petrarca, e um espanhol, briga de esquerda e direita e nas quais ele tinha amigos. Benjamin Steiner, o diagramador, começa a rir com os textos contraditórios, do Temístocles Linhares, o editor e crítico de nome nacional, e algum catolicão no caderno cultural. Expliquei-lhe que o material estava vetado por ordem superior e o argentino começou a me tratar como acomodado e saiu-se com essa “está bem, ordem é ordem, faço então que nem Sócrates e lavo as mãos”. Do alto do mezanino, o diretor comercial, Edson Damato, quis mostrar seus conhecimentos clássicos e advertiu “Benjamin, você quer se referir a Pôncio Pilatos?” Debochado, teatral, Benjamin deu a fala final “Você quer dizer que Sócrates não lavava as mãos?” Imaginem como resistiria o filósofo aos apelos da campanha contra a gripe suína, inclusive com a recomendação de utilizar álcool em gel.

 

(Foto: Reprodução/site en.wikipedia.org)

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