Editorial. Ed. 166

A senadora Gleisi Hoffmann, do PT nativo, tem surpreendido muita gente com suas reflexões sobre a realidade brasileira. Ela, que sempre foi capaz de análises lúcidas sobre o país, perde-se agora em grotescas observações para justificar uma tese indefensável, a de que vivemos no melhor dos mundos e que a crise econômica é mera invenção da oposição para atazanar a vida dos petistas.
É para rir e chorar. Depois de dizer que o mercado de beleza apresenta bom desempenho no Paraná, o que indicaria ótima situação econômica, pois perfumaria e que tais são supérfluos e não foram cortados na economia doméstica, La Hoffmann usou a declaração de sua tia para provar que a vida é boa e o governo Dilma Rousseff é ótimo.
A tia de Gleisi é uma senhora honesta, “simples e trabalhadora”, segundo a senadora. A tia ficou estupefata no Parque de Diversão Beto Carrero e desde então repete a seguinte pergunta aos que criticam Dilma Rousseff e o PT: “Como está cheio o Parque de Diversões! Filas que não acabam mais. Onde está a crise que tanto falam?”. Gleisi transcreveu na internet e considerou a frase definitiva para caracterizar que não há crise no Brasil.
Ora, pois, nem todos concordam com a tia de Gleisi Hoffmann. Gente de alto coturno da economia jura que a  situação econômica do Brasil preocupa. É o que afirma, por exemplo, o número dois do FMI, David Lipton, em uma entrevista coletiva em Washington: “De modo geral, nós estamos preocupados com a situação econômica no Brasil e o dilema que o país enfrenta de um crescimento em desaceleração e a necessidade de ajustar a política monetária e orçamentária”. Lipton disse também que o déficit fiscal é “muito alto” e que a política monetária tem que lidar com uma inflação “muito elevada”.
O Brasil vai bem, segundo a tia da Gleisi, que não soube lá no Beto Carrero,  que de 150 países, só cinco exportam menos do que o Brasil. Ou seja, o Brasil é um dos países onde as vendas ao exterior menos contribuem para o PIB, piorou seu desempenho em relação a outras economias. Em 2014, as exportações representaram 11,5% da soma de bens e serviços produzidos pelo país. Foi o sexto menor percentual entre 150 países analisados, segundo levantamento feito pela Folha com dados do Banco Mundial. O Brasil só ficou à frente de Afeganistão, Burundi, Sudão, República Centro-Africana e Kiribati. E bem abaixo da média global, de 29,8% do PIB.
Talvez a tia de Gleisi Hoffmann considere esse dado desimportante. Ou talvez seja muito precavida e não queira repetir a experiência de outra mulher dada a análises da conjuntura. Lembram da analista do Banco Santander que foi demitida porque fez previsão terrível para o caso de Dilma vencer? Pois, pois, ela acertou. Em julho do ano passado, em plena campanha presidencial, os clientes do banco Santander com renda mensal superior a R$ 10 mil receberam em seus extratos uma análise premonitória. O texto insinuava que o cenário favorável à reeleição de Dilma Rousseff levaria à deterioração da economia. Haveria alta dos juros, desvalorização do Real frente ao dólar e queda na Bolsa de Valores. Tudo se confirmou, nem por isso foi perdoada por Dilma, que pediu sua cabeça. Desse ponto de vista, a tia de Gleisi Hoffmann está coberta de razão.

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