Livres como vadias

A Marcha das Vadias voltou às ruas para lutar contra o patriarcado, o machismo, feminicídio, desrespeito e tudo que couber

Metade vítimas, metade cúmplices, como todo mundo.
Jean-Paul Sartre

Tudo o que os homens escreveram sobre as mulheres deve ser suspeito, pois eles são, a um tempo, juiz e parte.
Poulain de la Barre

RAMS-5214_V2

Foto: Rodrigo Antonio Martins de Souza

O dia 4 de julho, que marca a Independência dos Estados Unidos, marcou em 2015, aqui em Curitiba, uma luta por outra independência. A independência das vadias. Das moças, meninas, mulheres e senhoras. Mês passado a Marcha das Vadias voltou às ruas pelo quinto ano consecutivo para lutar contra o patriarcado, contra o machismo, feminicídio, desrespeito e tudo que couber.
Por serem contra as decisões do atual Congresso brasileiro e, principalmente, o presidente Eduardo Cunha (PMDB) que disse, em 9 de fevereiro ao jornal Estado de S. Paulo, “Aborto eu não vou pautar (para votação) nem que a vaca tussa. Vai ter que passar por cima do meu cadáver para votar”, o tema deste ano foi “Sabotando o Estado”. A concentração iniciou às 10h30, na Praça 19 de Dezembro, e as ativistas mostraram que de fato são resistentes, pois mesmo com o frio do inverno curitibano, elas estavam sem camisas, sem calças, como é típico do movimento.
A Marcha foi dividida em quatro atos (aos professores; às mulheres negras; às transexuais; e o do aborto), sendo o primeiro na própria praça e o último na Boca Maldita. O caminho percorreu a Barão do Serro Azul, a passar pela Praça Tiradentes, onde à frente da Catedral os manifestantes ecoavam “Se o Papa fosse mulher o aborto seria legal”. Populares que passavam pelo protesto dividiam-se nas opiniões, muitos apoiavam a dizer que as mulheres merecem mais respeito e direitos, enquanto outros rotulavam como ridículo, pois elas já têm tudo que precisam.
O ato final causou polêmica, pois enquanto discursavam havia a poucos metros um senhor que lia passagens da Bíblia. Alguns manifestantes passaram a importunar o religioso, provocando um mal estar. As afrontas só cessaram quando uma das organizadoras apaziguou a situação.

Por que “vadias”?

Em janeiro de 2011, na Universidade de Toronto, no Canadá, um policial, ao discorrer sobre segurança e assuntos afins, disse que “as mulheres deveriam evitar se vestir como vadias, para não serem vítimas de ataque”. Em abril do mesmo ano as vadias já estavam nas ruas a protestar, a esclarecer, a lutar contra esse discurso que transfere a culpa para a vítima. A primeira Marcha das Vadias foi em Toronto, cá no Brasil aconteceu no mês posterior e muitas cidades passaram a organizar suas marchas.
O nome veio da fala do policial, contudo mesmo se não tivesse proliferado ainda assim serviria, pois o movimento feminista é de quebra de paradigmas, quebra de conceitos, quebra de uma norma estabelecida na sociedade, portanto o choque faz-se preciso. As vadias precisam ser vistas e ouvidas, elas trazem outra percepção, outra realidade, outra sociedade. O mote que guia o movimento é “Se ser livre é ser vadia, então somos todas vadias”.

RAMS-5314_V2

Foto: Rodrigo Antonio Martins de Souza

 

 

Exagerado

RAMS-5145_V2

Foto: Rodrigo Antonio Martins de Souza

Alguns consideram as feministas e a causa e o movimento deveras exagerados, prendem-se num estereótipo – que carece de verdades – cultivado durante anos. Acham que são todas lésbicas, como tivesse problema em sê-las, pouco vaidosas, como, de novo, tivesse problema em sê-las. Argumentos um tanto duvidosos, mas mesmo se nas mais absurdas hipóteses eles se confirmassem, não parecem suficientes para deslegitimar as feministas, a causa e o movimento.
Os conservadores dos dias que seguem não diferem em nada dos que se seguiram. No começo do século passado presenciavam-se absurdos tais quais: uma mulher sensata, de família, não sairia à rua desacompanhada de seu pai, irmão ou marido para não desonrá-los e nem ficar mal vista.
As historiadoras Marina Maluf e Maria Lúcia Mott lembram o discurso que vigorava e era aceito pela sociedade no começo do século XX, “o lugar da mulher é o lar, e a sua função consiste em casar, gerar filhos para a pátria e plasmar o caráter dos cidadãos de amanhã. Dentro dessa ótica, não existiria realização possível para as mulheres fora do lar; nem para os homens dentro de casa, já que a eles pertenceria a rua e o mundo do trabalho”, muito parecido com o que se prolifera por aí nos dias de hoje. Mais. Homens chegavam a suicidar-se quando não conseguiam prover a casa, tamanha era a derrota moral, logo o homem também tornou-se vítima do machismo. E intelectuais da época chegaram a responsabilizar os próprios homens pelo avanço do feminismo, pela incapacidade de dar o necessário e pôr a mulher em seu devido lugar.
Podemos ir além ainda, na década de 1920 circulava uma relevante publicação, Revista Feminina, continha nela vários textos explicativos, manuais e outras coisas de ordem ontológica, ou seja, como a mulher deveria se comportar. Entre eles dois decálogos: o “da esposa”, que trazia os seguintes conselhos ou ordens: “Espera teu esposo com teu lar sempre em ordem e o semblante risonho; mas não te aflijas excessivamente se alguma vez ele não reparar nisso”; e também “Se teu esposo se afastar de ti, espera-o. Se tarda em voltar, espera-o; ainda mesmo que te abandone, espera-o! Porque tu não és somente a sua esposa; és ainda a honra do seu nome. E quando um dia  ele voltar, há de abençoar-te”; além destes, havia outros oito itens, e também o “Decálogo da boa dona de casa”. Exemplos há inúmeros, basta lembrar que a mulher neste período ainda não votava. E muitos deles ainda batem com a atual realidade.
Exagero? Aparentemente não. Quem não se lembra de Julien Blanc? No final do ano passado ele bombou com suas “técnicas de sedução”, que consistiam em sufocar uma mulher pegando-a pelo pescoço e fazendo com que ela fosse até o pênis em questão. No seu site dizia: “É ofensivo, inapropriado, emocionalmente traumatizante, mas efetivo”. Estupros são efetivos mesmo, cumprem o papel na perspectiva masculina, realizar o coito. Alguns poderiam argumentar que foi um caso isolado, pode ser que um palestrante a ensinar como se estupra alguém seja um caso isolado, mas a violência contra a mulher não. Aos números…

Estatísticas

Foto: Rodrigo Antonio Martins de Souza

As estatísticas apresentam paradoxos do pensamento brasileiro, quiçá uma hipocrisia, tornando-se difícil entender qual o axioma da população sobre a mulher e qual, na perspectiva dos entrevistados, seu papel na sociedade.
De acordo com a pesquisa divulgada em 2014 pelo Sistema de Indicadores de Percepção Social (SIPS) do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA), 91% dos entrevistados concordam total ou parcialmente com a afirmação “Homem que bate na esposa tem que ir para a cadeia”. Em contrapartida 26% acham que mulheres que exibem o corpo devem ser atacadas.
Se pegarmos pesquisa realizada em 2013 pelo Instituto Patrícia Galvão em parceria com o Data Popular veremos que agressão contra mulher e estupro são crimes que a população considera mais recorrentes (56%), vejam só, está acima de tráfico de drogas e dirigir alcoolizado (11%); quem lidera o ranking é assassinato (68%), seguido de roubo (58%).
Aparentemente a maioria da população se preocupa com a violência contra mulher, podemos levar em consideração o dado da pesquisa SIPS que diz que 73% discordam total ou parcialmente da afirmação: “A questão da violência contra as mulheres recebe mais importância do que merece”. Porém, aqui claramente se vê uma esquizofrenia, quando questionados se mulher que é agredida e continua com seu parceiro gosta de apanhar, 67% dos entrevistados disseram concordar total ou parcialmente; e 58% dos entrevistados concordaram que haveria menos estupros se as mulheres soubessem como se comportar. Por isso não é tão incomum o discurso que põe a culpa na vítima, ou seja, se a mulher apanha, é porque, em determinada escala, merece.
Se a violência contra a mulher não bastasse – e já basta – para justificar o movimento feminista ou ainda se, na melhor das hipóteses, conseguíssemos reduzir a zero o número de estupros e feminicídios, a luta ainda far-se-ia necessária, pois a “cultura machista” não se resume à violência física. De acordo com a mesma pesquisa SIPS, 64% concordam que o homem deve ser a cabeça do lar, e aqui se deve ler o “provedor”, o “comandante”, o “patriarca”, não quem lava a louça ou encera o chão, isto vai de encontro com o que as historiadoras Marina Maluf e Maria Lúcia Mott falaram, portanto assistimos hoje uma sociedade bem parecida com a do começo do século.
Pode-se questionar que as estatísticas são questionáveis, talvez sejam, mas a “cultura machista” não, pois se faz visível na vida vivida.

DSCN0722

Foto: Rodrigo Antonio Martins de Souza

Cotidiano

Suponhamos que nós estejamos num churrasco, domingão, verão, o sol tinindo, toda a família reunida – avós, pais, filhos, tios e tias. Se os homens sentirem muito calor, naturalmente tirarão a camisa, ficarão à vontade, latinha de cerveja na mão, etc. Se as mulheres sentirem muito calor e tirarem a camisa, naturalmente o espanto far-se-á presente. O calor é basicamente o mesmo, alguns sentem mais outros menos, mas todos derretem feito picolé. Agora o que faz causar o espanto uma mulher sem camisa e à vontade se não uma “cultura machista”? Vai além. Caso isso seja uma história verídica a mulher não tirará a camisa, porque ela não pode, não pode ser livre para estar à vontade, não pode porque há uma norma que rege a nossa cultura, nossa “cultura machista”.
O pensamento que hoje sustenta que a mulher não pode tirar a camisa quando sente calor, mesmo no ambiente privado, se assemelha ao da mulher que não podia sair à rua desacompanhada dos homens da família no início do século XX. É o pensamento das mulheres de Atenas. É reacionário, isto é, reage às mudanças. É uma relação de vassalagem onde o homem é sempre o suserano. E negar a “cultura machista” passa a ser insustentável, negar a importância da Marcha das Vadias, e do movimento feminista de modo geral, cai por terra.

 

Após a Marcha das Vadias duas das organizadoras falaram para a Ideias sobre militância, conquistas e perspectivas de um mundo melhor.
Qual a importância da militância?
Jussara Cardoso – Mudar o mundo. Porque nós vivemos num mundo doente, num mundo violento. Num mundo onde uma parcela da população chamada travestis e transexuais têm uma perspectiva de 35 anos, ou seja, não chega nem na média. Nós vivemos numa sociedade violenta e se vivemos nela, precisamos mudá-la. O ativismo serve para chamar a atenção para esse tipo de coisa. E cada pessoa que entra para militância se desconstrói, muda a própria vida em prol da mudança do mundo. Sou consciente que ninguém muda o mundo sozinho, eu não vou conseguir, nem você, mas a mudança de cada um faz com que as pessoas em volta também mudem. E aos poucos, como uma onda, vamos mudando, nós e os outros.
Mariana Raquel Costa – É se movimentar por um ideal, para mudar as coisas. Pois se ficarmos parados na mudará, o mundo permanecerá estático. Então a militância é uma forma de organização para que consigamos atingir nossos objetivos, ou seja, uma sociedade mais igual, mais justa.

 

O que a Marcha das Vadias conquistou?
J.C. – Antes de qualquer coisa conquistou a mim como ativista e todas e todos que aqui estão como ativistas, como feministas, como militantes. E a Marcha das Vadias não acontece somente aqui e hoje, ela empodera mulheres. É um meio que as mulheres e homens têm para conhecer o feminismo de uma maneira diferente. Esse é o impacto. É pequeno, localizado. Só entenderá o que de fato é a Marcha quem for atrás, buscar a informação e perceber o que ela é capaz de fazer.
M.R.C. – No contexto local temos de concreto a Secretaria da Mulher que foi um pedido da primeira Marcha das Vadias e hoje existe. Mas a maior conquista é trazer cada vez mais novas pessoas para a Marcha e para o feminismo, principalmente as meninas mais jovens, para que entendam algumas coisas, como a culpabilização da vítima, saber que sexo ou qualquer outra coisa só com consentimento, saber o que é o relacionamento abusivo. E quando estamos na manifestação e gritamos nossas palavras de ordem a principal conquista é empoderar o sujeito que está ao lado.

 

Há perspectiva de melhora para a nossa sociedade? Um mundo que a mulher não seja violentada nas suas variadas esferas?
J.C. – Eu não vou ver a melhora agora. Mas luto para que meus filhos continuem lutando e seus filhos também. E, quem sabe, um dia tenhamos uma sociedade igualitária. Gostaria de ver isso agora, mas acho que não é possível.
M.R.C. – Acho que o cerco está se fechando e se eu não acreditasse num mundo melhor não estaria praticando a militância, aqui na Rua XV e em outros lugares.

 

Eu marcho

Por Jessica Stori
Após a marcha tive muita vontade de colocar no papel como eu me senti lá. Poderia resumir tudo a uma palavra: pertencimento. Me senti em casa, do começo ao fim. Não pensei em ir embora, o frio não me prejudicou, nada me fez desanimar. Foi uma realização. É uma realização. Tudo ocorreu bem, todas e todos se emocionaram com os atos, com as falas, com os poemas, com os gritos, com os abraços, com os beijos, com a Marcha das Vadias. Já ouvi tanto falarem que não somos um coletivo e sim um evento. E concordo, somos um dia em que as pessoas se sentem livres e libertas. Livres para tirar a roupa, livres para colocarem a roupa, livres para gritar, para falar, livres para viver, pelo menos naquele evento, como querem viver todos os dias. O feminismo a cada dia que passa faz eu me ver melhor, me aceitar melhor e com certeza, aceitar todas as outras e todos os outros. Minhas energias ficaram todas no sábado, pois aproveitei para voar, me mostrar livre ao mundo, me mostrar vadia, me mostrar como eu bem queria ser. Minha felicidade perdura, pois pertenço e continuo pela Marcha. Continuo por um feminismo que abraça outras bandeiras, que acolhe todas e todos, por um feminismo que te tira das sombras e que te ajuda, por um feminismo que te livra e te devolve asas.

 

marcha-das-vadias

Um comentário

Deixe uma resposta