O essencial é invisível aos olhos

Diante dos modernos tempos consumistas em que vivemos, somos bombardeados por apelos de consumo minuto a minuto, através de todos os tipos de mídias. Precisa ser herói ou heroína (para elas quase impossível!) para abster-se de passar o cartão de crédito que tanto nos estimula quando nos diz – “Algumas coisas não tem preço, mas para todas as outras existe…”. Como resistir ao primeiro pagamento só para o natal se ainda estamos em agosto? É, parece que vai demorar tanto para chegar o dia de pagar…, sim, mas chega, e aí nova dívida e todo o desconforto que às vezes representa, pois existe uma mentalidade que o mais importante é o valor da prestação caber no orçamento, não importando o quanto vou pagar ao final.
Para mudar essa mentalidade é preciso quebrar paradigmas ligados à vaidade e à beleza que nos iludem e nos comprometem.
A beleza pode muitas vezes ser invisível aos olhos, quase sempre o é, sendo, então, melhor vista pela janela da alma, já que esta é despida de preconceitos. Consegue-se isto, com  muita moderação e reflexão, valorizando mais o interior do que o exterior das pessoas. É no interior que encontramos a densidade do conhecimento e da experiência que são  o amálgama de nossa sabedoria. Através dessa sabedoria vislumbramos as possibilidades de nosso crescimento pelos caminhos do autoconhecimento. Entretanto, nossa tendência, infelizmente, é valorizá-lo pouco, pois no mundo ocidental existe uma cultura que é regida pelo materialismo que insiste em exibir o plano exterior. É a valorização das aparências que aponta a beleza como algo a ser acumulado, conquistado, comido, engolido e digerido, também com os olhos. Para nós, em nosso raciocínio simples e tosco, o que não está, não existe. Gostamos da materialidade, cores, volumes, luzes brilhantes, tudo o que vale o quanto pesa e que o dinheiro pode comprar.
Neste tocante, a cultura oriental tem muito a nos ensinar. Com sua sabedoria milenar, cultiva, principalmente, o essencial, que é invisível aos olhos e que não se pode comprar com nossos metais. Deveríamos fazer como nas tradicionais casas japonesas, onde existe um lugar sagrado, essencial e especial. Em geral fica na sala onde são recebidas as visitas. Trata-se de um alvéolo, canto ou nicho, destinado a acolher o que a família possui de mais precioso: obras de arte, antigas armaduras de samurais, bonsais, etc… A esse lugar chamam de TOKONOMA. Mas ao contrário do que possamos imaginar no ocidente, o verdadeiro Tokonoma é fechado por uma cortina de seda, impenetrável, que nunca é aberta. Assim, o essencial fica invisível aos olhos. As visitas diante do Tokonoma, contemplam, sonham, deixam até escapar alguma emoção, diante do tesouro que não se vê. Ninguém retira a cortina para os hóspedes. A eles é oferecida uma das coisas mais expressivas que se tem: uma ausência, ou melhor, trata-se de uma presença manifestada por uma ausência. As obras estão ali, protegidas pela seda, mas ficam sempre desconhecidas, impenetráveis, inimagináveis.
Dizem que alguns Tokonomas nada contém, que o alvéolo estaria vazio. Tenho para mim, que este é o mais fantástico deles, pois quanto menos o objeto existe mais ele é. De ser pura ausência, ele satura tudo de uma presença absoluta. Por ser nada ele se torna tudo.

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