Cinema. Ed. 166 – O Pequeno Nicolau

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Cena do filme “O Pequeno Nicolau” . Foto: Reprodução/site stefaniafernandes.com.br

Ai de nós filhos mais velhos. Ai de nós filhos mais velhos com diferença mínima de cinco anos. Atenção, afeto, presentes, tudo do bom e do melhor. A avó nos engorda com seus doces, bolos e tortas. O avô nos diverte com suas engenhocas: casa na árvore, carrinho de rolimã. Os pais estão deveras felizes, chegou o primogênito, aquele que será um formoso doutor, que seja engenheiro, advogado ou médico.
Ai de nós quando criança. Calhou na hora errada a notícia, o dia vinha tão florido e contente. Eis que sentenciam, o Joaquim terá um irmão, mero coadjuvante, que fica enlouquecido com a manchete, sua vida era tão perfeita e só sua, seus pais eram só seus. O filme franco-belga, de 2010, não se preocupa com Joaquim, o protagonista é o pequeno Nicolau, com título homônimo. Ele sim goza o prazer que é ser um filho único.  Joaquim tinha alertado aos amigos, “eles sorriam, papai levou o lixo feliz – ele nunca leva o lixo feliz”, eram os sinais da vinda do irmão. Dito e feito.
E num dia tão florido e contente, Nicolau flagrou seus pais entre risadinhas, beijinhos apaixonados, o pai até lavou a louça (a película se passa nos anos 1950). Fato consumado. Mais alguém chegaria ao lar de Nicolau. Meus pêsames, meu caro ex-filho único.
E Joaquim amedrontava a todos, dissera que os pais brigavam com ele a cada minuto. “Joaquim não grite, vai assustar seu irmão”; “Joaquim não ande, vai acordar seu irmão”; ”Joaquim não isso, não aquilo”. Se não bastasse, Nicolau aprendera na escola a história d’O Pequeno Polegar e convicto era que após o nascimento de seu irmão seria jogado na floresta, sem amor, sem família, sem botas encantadas. Ele precisava de um plano, o bebê não poderia chegar à sua casa, sua vida era boa daquele jeito. (Quem não é resistente às mudanças quando tudo vai bem?)
Então reúne seus amigos, bolam o plano, o executam. E nós, quando criança, apenas nos revoltávamos com respostas atravessadas durante o jantar, quem dera ter a perspicácia de Nicolau, que entre tudo que fez envolve o roubo de um carro, e ele não tem mais de dez anos.
Joaquim surge mais uma vez, feliz. Feliz? Sim! Afinal, nós, irmãos mais velhos, gostamos de ter em quem jogar a culpa pelo vaso quebrado, louça não lavada, etc., etc.
Quando me contaram a história do pequeno Nicolau achei tola, bobinha, pouco atraente. E outra, filme encenado por crianças? Credo, que horror! Ledo engano. Grandes crianças aquelas, belas interpretações, couberam no papel como luva. A impressão que se tem é que eles são mesmo daquele jeito: o gordinho que só pensa em comida, o distraído que não sabe de nada, o bajulador estudioso, todos, sem exceção, cumpriram divinamente seus papéis.
Mais. O filme – que tem a direção de Laurent Tirard – é inspirado na HQ franco-belga, que leva o mesmo nome, escrita por René Goscinny e ilustrada por Jean-Jacques Sempé e que foi publicada entre 1956 e 1964.

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