O sol dos gregos

Naturalmente o resultado do referendo na Grécia sobre a dívida do país não agradou aos mais intransigentes dos credores, em especial as criaturas do FMI. Nem o resultado, nem a decisão do governo grego de convocar o referendo, pois essa turma toda entende que o povo, o eleitor, o contribuinte, o desempregado, o homem comum que acaba pagando por tudo não deve se meter nem ser metido nisso. Imagino a reação não vocalizada (por deferência ao politicamente correto) de alguns deles: “Mas essa gente decidir isso?”
A Grécia chegou ao referendo depois de cinco anos da tal austeridade imposta pelo FMI e pelos credores. E apenas cinco meses depois da eleição e investidura do Primeiro-Ministro Alexis Tzipras. A austeridade de cinco anos não resolveu coisa alguma, só agravou os problemas criados pelos governos anteriores, a tal ponto que nas eleições de janeiro o povo grego escolheu o partido de Tzipras, um partido dito de extrema esquerda, mas que se tem mostrado bem menos extremista, aliás, nada extremista, que os porta-vozes dos credores.

 
O Google já oferece a quem se der ao trabalho de ler na íntegra o discurso de Tzipras no Parlamento Europeu, um discurso sóbrio, conciliador e muito digno: basta digitar “Alexis Tzipras” que a oferta do discurso aparece imediatamente, antes até do item que remete à biografia de Tzipras na Wikipédia.
Com a maior elegância, Tzipras deixou claro que a Grécia e seu atual governo têm sido chantageados e submetidos a um arrastão de terrorismo midiático – o que continuou a acontecer pelos dias seguintes, até o fim da longa reunião de 17 horas seguidas, no domingo, 12 de julho, quando afinal se anunciou um acordo.
Um acordo que condena a Grécia à submissão em matéria econômica, mas que, espero, permita aos poucos ao Primeiro-Ministro Alexis Tzipras, se seu governo sobreviver, retomar a luta pela reconquista gradual de sua soberania.
Aqui no Brasil a mídia abduzida pelos interesses do mercado financeiro não permitiu a seus melhores jornalistas e a seus mais lúcidos entrevistados que mostrassem o outro lado da questão grega, mas não teve como impedir que alguma coisa escapasse aos limites da monocórdia insistência nos chavões habituais a respeito do “calote” grego, da irresponsabilidade grega, do dever dos gregos de fazerem o dever de casa – todo esse bestialógico que a impostura neoliberal considera a suma teológica de uma verdade eterna.

 
A mídia europeia e mesmo a norte-americana não se comportaram assim, porque operam num cenário de opinião pública muito mais informado e não se sujeitariam a cair no ridículo. Não encontrei nem no Figaro, de Paris, um jornal assumidamente de direita, qualquer alusão explícita ou implícita à palavra “calote”, aqui repetida a todo o momento.
Do que escapou e pôde ser dito, quero registrar dois fatos que me parecem dos mais importantes no conjunto da questão grega.
Primeiro: a bela, talentosa e experiente jornalista Ilze Scamparini, correspondente da Globo e da Globonews na Itália e enviada especial a Atenas, informou que desde a ditadura militar de 1967, há quase cinquenta anos, as riquíssimas empresas gregas de navegação estavam isentas de impostos, mas agora o governo Tzipras  passou a cobrá-los. Quem não se lembra da riqueza quase obscena do fabuloso armador grego Aristóteles Onassis, que no fim da vida casou com a viúva do Presidente John Kennedy, Jacqueline Kennedy Onassis? Pois é, a empresa ou as empresas do fabuloso Onassis não pagavam impostos, embora o negócio da navegação seja dos mais lucrativos do mundo.

 
Segundo fato, revelado por economista entrevistado: boa parte da dívida que hoje corresponde a cerca de 150% do PIB da Grécia refere-se ao financiamento concedido (ou imposto) à Grécia em 2011 por países como a Alemanha, para a compra de armas nesses mesmos países. A chanceler Angela Merkel já chefiava o governo da Alemanha e foi sob sua responsabilidade que se negociou esse  empréstimo, a pretexto de necessidades urgentes de defesa do território grego contra ameaças externas.
Em 2011 já não existia, por mais de dez anos, a ameaça suposta ou verdadeira da antiga União Soviética. E o conflito potencial com a Turquia já não era tão ameaçador. A Grécia, integrante da OTAN desde os tempos da Guerra Fria, gasta hoje cerca de 5% de seu PIB com um orçamento de defesa indiscutivelmente superdimensionado (o Brasil, tão grande, gastou, em 2014, apenas 1,4% do PIB).
Quanto mais ignorarmos fatos como esses e outros da mesma ordem, menos entenderemos a crise grega. E os arrogantes e ignorantes evangelistas do mercado financeiro continuarão a repetir, sem contestação, as tolices habituais, em especial as que se pretendem engraçadas.
Um deles, por exemplo, fez muito sucesso e provocou muito riso entre os circunstantes, ao dizer que a Grécia não trabalha, vive da venda de pacotes turísticos e de azeitonas.  E os navios do falecido Onassis e dos outros armadores? Não valem nada, não produzem?

 
Quanto ao turismo, os gregos dispõem de um grande ativo que é o sol – o sol sob o qual os europeus das geladas e sombrias regiões de seu setentrião (inclusive os alemães de Frau Merkel) recompõem as energias nas férias de verão. Naturalmente a contabilidade desta era de pensamento único neoliberal não saberia (para usar uma palavra que ela própria inventou) como precificar o sol e muito menos planejar sua privatização. Mas o faraó egípcio Akhenaton já sabia, há mais de três mil anos, do papel e da importância do sol no destino humano.
Como os precificadores só entendem de dinheiro (se é que entendem), questões como a da Grécia e de outros países periféricos aos grandes centros financeiros da atualidade continuarão a ser objeto de incompreensão e desinformação. Sobretudo desinformação.

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