Rômulo

No dia mesmo não fiz nada, fiquei anestesiada com a decisão. Não chorei. Não comi nem deixei de comer. Só um silêncio em torno de mim, um tipo de ausência.
Minhas providências começaram no dia seguinte. Com medo dos caminhos das profundezas, procurei por distração. Tentei filmes, livros, volta no parque, café. Mas até os endereços que nunca frequentamos juntos tinham sua presença. Você estava em todos os lugares e, para meu desespero, em lugar nenhum. Uma companhia enlouquecedora que escorria dos olhos, invadia a cabeça, recortava meu corpo.
Para conviver com o silêncio, criei artifícios – todos tão infantis quanto inúteis.
Escrevi mensagens para várias pessoas, não queria conversar com ninguém, mas quando elas me respondiam, ouvia a campainha do telefone e isso me causava a esperança de ser você do outro lado. Não era, nunca era, eu sabia, mas mesmo assim, por três segundos eu vivia a delícia da expectativa de ter um aceno seu.
Quando o truque deixou de dar certo, passei a ver fotografias, uma por uma, detalhe por detalhe. Lupa em cada pormenor. Percorri todos os álbuns, a busca pela cura da saudade. Efeito contrário, consegui apenas saber do tamanho da falta.
Outra tentativa desesperada, ouvi as músicas. Todas. Acordes de ilusões perdidas. Cada corda a reafirmação do engano, do desamor, da solidão.
Foram muitas as tentativas para evitar esse trajeto. Eu não sabia, mas cada passo era um degrau que descia num abismo que parecia sem fim. Sofri o choro das almas aprisionadas pelo amor impossível. E aprendi que só os amores impossíveis são eternos. Os outros, os consumados, acabam quando os problemas começam.

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