Prateleira. Ed. 167

As pessoas de Fernando

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Fernando Pessoa. Foto: Reprodução/site corriere.it

Quando Fernando Pessoa atribuiu a navegadores antigos a frase “Navegar é preciso, viver não é preciso”, queria ele dizer, e disse, que “Viver não é necessário; o que é necessário é criar”. Eis aqui um homem honesto com suas ideias. Este gajo talvez tenha sido o único na literatura universal a criar heterônimos e entrar em cada um qual como uma roupa. A impressão que se dá é que ele sentava em sua escrivaninha e dizia “Hoje vou me vestir de Alberto Caeiro”, como dizemos “Hoje vou de jeans”.
Em 8 de março de 1914, com 25 anos de idade, Fernando Pessoa teve o que chamou de “dia triunfal”, merecida nomenclatura para marcar a criação de seus três principais heterônimos: Alberto Caeiro, Ricardo Reis e Álvaro de Campos. Deu a cada um, além dos nomes, uma biografia, um biotipo e, o que mais nos interessa, traços literários singulares.
Eis trecho da carta endereçada a Casais Monteiro, em janeiro de 1935, contando o dia da criação:

 

“...foi em 8 de Março de 1914 — acerquei-me de uma cómoda alta, e, tomando um papel, comecei a escrever, de pé, como escrevo sempre que posso. E escrevi trinta e tantos poemas a fio, numa espécie de êxtase cuja natureza não conseguirei definir. Foi o dia triunfal da minha vida, e nunca poderei ter outro assim. Abri com um título, O Guardador de Rebanhos. E o que se seguiu foi o aparecimento de alguém em mim, a quem dei desde logo o nome de Alberto Caeiro. Desculpe-me o absurdo da frase: aparecera em mim o meu mestre. Foi essa a sensação imediata que tive. E tanto assim que, escritos que foram esses trinta e tantos poemas, imediatamente peguei noutro papel e escrevi, a fio, também, os seis poemas que constituem a Chuva Oblíqua, de Fernando Pessoa. Imediatamente e totalmente... Foi o regresso de Fernando Pessoa Alberto Caeiro a Fernando Pessoa ele só. Ou, melhor, foi a reacção de Fernando Pessoa contra a sua inexistência como Alberto Caeiro.
Aparecido Alberto Caeiro, tratei logo de lhe descobrir — instintiva e subconscientemente — uns discípulos. Arranquei do seu falso paganismo o Ricardo Reis latente, descobri-lhe o nome, e ajustei-o a si mesmo, porque nessa altura já o via. E, de repente, e em derivação oposta à de Ricardo Reis, surgiu-me impetuosamente um novo indivíduo. Num jacto, e à máquina de escrever, sem interrupção nem emenda, surgiu a Ode Triunfal de Álvaro de Campos — a Ode com esse nome e o homem com o nome que tem.
Criei, então, uma coterie inexistente. Fixei aquilo tudo em moldes de realidade. Graduei as influências, conheci as amizades, ouvi, dentro de mim, as discussões e as divergências de critérios, e em tudo isto me parece que fui eu, criador de tudo, o menos que ali houve. Parece que tudo se passou independentemente de mim. E parece que assim ainda se passa. Se algum dia eu puder publicar a discussão estética entre Ricardo Reis e Álvaro de Campos, verá como eles são diferentes, e como eu não sou nada na matéria...”

Vila-Matas

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Enrique Vila-Matas. Foto: Reprodução/site diario.latercera.com

Enrique Vila-Matas nasceu em Barcelona em 1948. Aos 20 anos foi morar em Paris e sua aventura pela vida literária foi inaugurada com poderosos conselhos de ninguém mais ninguém menos que Marguerite Duras, senhoria do apartamento que alugou. O tanto que Marguerite despertou e possibilitou de aberturas a Vila-Matas é difícil de medir, assim também como seria sua obra sem o contato daquelas primeiras horas de escritor. O que não se pode especular nem negar é que Enrique Vila-Matas é um dos grandes nomes da atualidade.

 

Traduzido e aplaudido desfila com sucesso entre os pares e o público comum. Para quem ainda não se aventurou por sua prosa, um bom começo é o Exploradores do Abismo, de 2007, traduzido com maestria por Josely Vianna Baptista e editado pela Cosac Naify. 19 histórias em que não são fáceis de enquadrar em gênero (contos?) abordam temas amplos da existência e da especulação humana, em outras vezes já explorados pelo autor. Humor refinado, uma inevitável e rara ironia, leitura fluida compõem suas competentes linhas narrativas.

 

Adriana Sydor

Neruda

Photo datée du 21 octobre 1971 de l'écrivain, poète et diplomate chilien, Pablo Neruda. Alors ambassadeur du Chili en France, le poète répond aux questions des journalistes à l'ambassade chilienne, après avoir reçu le Prix Nobel de Littérature 1971. Picture dated 21 October 1971 of Chilean writer, poet and diplomat Pablo Neruda, then ambassador in France, answering journalists' questions at the embassy in Paris after being awarded the 1971 Nobel Literature Prize.        (Photo credit should read STF/AFP/Getty Images)

Pablo Neruda, 1971. Foto: Reprodução/site clocktower.org

Uma nação predominantemente agrária viu a possibilidade de uma vida digna na revolução socialista, isso ultrapassou as fronteiras russas, ecoou na América Latina e em seus intelectuais. Pablo Neruda foi um que visualizou uma imagem ideal na Rússia revolucionária, não na tirania stalinista, e antes de morrer lamentou o que viu e o que perdeu. Em 1971 foi até Moscou na expectativa de curar um câncer e na viagem escreveu Elegia, publicado postumamente (1974). Neruda, que celebrou a vida, escreveu por último a morte, não somente da sonhada Rússia, mas os espíritos de Maiakóvski e Gogol perambulam tristes, além de outros companheiros de combate. Elegia é, sobretudo, o que o poeta chileno concluiu do passado e presente do país que julgou um dia ser exemplar.

Casares

Adolfo Bioy Casares

Adolfo Bioy Casares. Foto: Sophie Bassouls

Injusto seria dizer que Adolfo Bioy Casares foi o coadjuvante da parceria que teve na vida literária com Jorge Luís Borges. Os amigos escreveram juntos sob o pseudônimo H. Bustos Domecq e B. Suarez Lynch “Seis Problemas para D. Isidoro Parodi”, “Crônicas de Bustos Domecq” e mais uns outros. Mas, Casares, assim como Borges, alçou voo próprio e se tornou um dos mais importantes escritores latino-americanos, está no mesmo patamar que García Márquez e outros grandes da nossa literatura continental, duvidem a vontade. “Histórias Fantásticas”, “A Invenção de Morel” e “Histórias de Amor” não me deixam mentir. E este é o mês do seu aniversário, faria 101 anos. Justiça seja feita!

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