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Dilma e Lula. Foto: Reprodução/site caririemacao.com

Lula é mestre em seu ofício de mistificador. Para se eleger pela primeira vez, governar apesar do mensalão, se reeleger, eleger Dilma e reelegê-la, Lula valeu-se do discurso de ser um perseguido pelas elites, coitadinho. E não somente ele, mas também o PT e Dilma Rousseff. Acontece que essa não cola mais, nem provoca. Lula pode posar de pai dos pobres, mas não pode negar que foi uma mãe generosa, de seios fartos, para as elites. Essas mesmas elites que, hoje, preferem Dilma ao desconhecido.
Ora, pois, o certo é que o PT original, o das lutas operárias, o do projeto de mudar o país para garantir justiça social, esse não existe nem na realidade, nem na cabeça dos brasileiros. Sobrevive na cabeça da seita fanática de imbecis úteis que não têm coragem para enxergar a realidade, porque ela é assustadora para quem se valeu da farsa para conquistar uma benesse, uma sinecura, uma verba pública.
Entre os petistas, só os mais lúcidos e comprometidos com princípios que não quebraram, admitem o fim. O professor Eugenio Bucci, da USP, que foi diretor da EBC, Empresa Brasileira de Comunicação, no governo Lula, quadro respeitado do PT que ajudou a fundar, assinou artigo publicado no jornal O Estado de S. Paulo, um dolorido testamento ideológico, uma espécie de ofício fúnebre para sepultar de vez o que restou do PT e para lamentar “aquilo que ficou para trás e para trás ficou”.
Dilma poderá governar até 31 de dezembro de 2018, cedendo o lugar ao seu sucessor. Não tem apoio popular, apenas 7% acreditam nela. Mas ela soube costurar um acordo informal assinado por representantes das forças políticas e econômicas que de fato importam no país. Mas terá que governar com um projeto que não é seu, nem de Lula, nem do PT. Um plano que seria o de seu principal adversário. Além do que, até o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, tucano ferrenho, acredita que ela não esteve envolvida pessoalmente na roubalheira.

 

Emblemático

Um veterano e experiente jornalista como Clóvis Rossi, da Folha de S. Paulo, insuspeito de simpatias antidemocráticas, também constatou, com menos dor do que Eugenio Bucci, mas com mais espanto, que ainda há gente que trata José Dirceu, condenado pelo mensalão e preso sob suspeita de participação no petrolão, como o jovem herói da Rua Maria Antônia – ícone da luta contra a ditadura. Sobre os escritores e artistas que assinaram o manifesto em defesa de José Dirceu, Rossi diz:  “essa gente não conseguiu sequer sair da Rua Maria Antônia, cuja simbologia antecede de muito a queda do Muro”.

 

 

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José Dirceu. Foto: Dida Sampaio/Estadão

José Dirceu é o emblema do PT. Do jovem de cabelos revoltos da Maria Antônia ao provecto e abatido senhor que chegou  escoltado por policiais à carceragem da Polícia Federal em Curitiba, há uma diferença abissal. Desapareceu até o orgulhoso “herói do povo brasileiro” que chegou com o braço erguido ao presídio da Papuda. Sumiu o combativo deputado federal que parecia destinado a uma gloriosa carreira quando o então presidente Collor foi enxotado do poder, em 1992.
No prefácio do livro “Todos os Sócios do Presidente”, de Gustavo Krieger, Luiz Antonio Novaes e Tales Faria, onde se narra a saga corrupta de Collor, José Dirceu escreveu um texto que parece profético. Mudando nomes e detalhes, José Dirceu poderia ser hoje o protagonista do seu próprio prefácio. Ele e seu partido diriam que quem escreveu esse texto era um golpista?
Eis o texto:
“A Comissão Parlamentar de Inquérito do caso Paulo César Farias pertence ao país, particularmente à juventude. Não teria sido possível sem a democracia.
Pela primeira vez na história do Brasil esse sentimento de revolta contra a impunidade encontrou eco no parlamento e cresceu até tomar conta de todo o país. A CPI só saiu do papel graças à pressão da sociedade organizada e as denúncias da imprensa, que deram sustentação à luta quase quixotesca que parlamentares travavam contra a corrupção no governo federal.
A CPI revelou que o chefe da corrupção era o próprio Collor, envolvido em fatos incompatíveis com o cargo de presidente da República, recebendo vantagens econômicas ao longo do seu mandato, para si e seus familiares, através do esquema criminoso de PC. Mais grave ainda é que tudo isto foi possível porque recebeu o apoio de grande parte do empresariado brasileiro, o que revela o grau de decomposição ética das elites brasileiras, acostumadas à impunidade e ao assalto aos cofres públicos.
Por tudo isso, não basta a CPI, é preciso que seu espírito tome conta do país. A verdade é que o nosso povo novamente está caminhando. Está tecendo o fio da história, retomando a luta pela dignidade e justiça, pela cidadania.”

 

Imbecis úteis

O “adeus às ilusões” que corrói almas petistas que guardam como relíquia ideais sobre os quais o partido foi edificado, é uma espécie de atestado de óbito de uma saga política cuja narrativa caberá aos historiadores.
Todos sabem que uma boa parcela dos que pedem a queda de Dilma, Lula e o PT, sempre foi não só ciente como beneficiário do sistema virótico do Estado patrimonialista brasileiro. Enriqueceu e vive como parasita do sistema nacional de corrupção. A novidade é que o Partido dos Trabalhadores entrou como sócio, apresentando como cacife os milhões de votos daqueles que nunca foram objeto de atenção. Candidatou-se ao suicídio. O partido que prometia novo tempo de mudanças em nossa estrutura política, econômica e social, tornou-se o mais corrupto dos partidos corruptos de todos os tempos.

 

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Foto: Orlando Kissner/Fotos Públicas

A chegada do PT ao poder, sempre exercido pelas elites predadoras, foi dissimulada pelo discurso de compromisso com o destino dos carentes. Tudo bem, a entrada na sociedade custou-lhe um preço. Para aceitá-lo cobraram uma exploração extra, uma vantagem desmerecida, uma nova conta na Suíça em troca dos empregos criados, da produção aumentada, do salário menos vil. Mas assim também como os operadores tradicionais, os petistas se entregaram à sedução da corrupção; o roubo com perspectiva de impunidade. Assim acabaram todos aqueles que fingiam ultraje ao pudor.
Sofre uma parcela dos militantes. Aquela que não abriga os oportunistas que se transformaram de revolucionários em funcionários. Muito além dos militantes, todos aqueles que saudaram e apoiaram a trajetória de crescimento de um partido que, claramente, era o deles. Os que suportaram os preconceitos, que resistiram às pressões e difamações e que viam nas políticas sociais o cumprimento de promessas nunca realizadas estão hoje expostos ao escárnio, aos xingamentos e ofensas.

 

As ruas pedem o fim do PT

O fotógrafo Orlando Kissner ficou impressionado com o que viu. A partir das 14h de domingo, 16 de agosto, a manifestação contra Dilma Rousseff, Lula e o PT, em Curitiba, cresceu incrivelmente. Rapidamente, mais de 100 mil pessoas invadiram as ruas e tomaram a Boca Maldita. Kissner cobre manifestações em Curitiba há cinco décadas. Profissional que não se deixa tomar por emoções ou torcida. Sua estimativa de 100 mil deve ser considerada. Já a dos petistas ninguém sabe, ninguém viu. Sumiram os petistas?

 

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Foto: Orlando Kissner/Fotos Públicas

A verdade é que as manifestações de agosto foram maiores que as de abril e desta vez atingiram cidades do interior, capilarizando o movimento pela deposição de Dilma Rousseff. Outra novidade. Pela primeira vez Lula foi vaiado no Nordeste, região considerada feudo do PT. Congressistas do DEM e PSDB comemoraram o fato de o ex-presidente Lula ter sido foco dos protestos também no Nordeste. Diziam que a Lava Jato fez com que o petista perdesse a condição de intocável que detinha na região.
Mas o PT não se emenda nem quer largar o osso. Na reunião de avaliação dos protestos no Palácio da Alvorada a presidente Dilma Rousseff decidiu não fazer pronunciamentos. E proibiu os ministros de dar declarações. O ministro da Secretaria de Comunicação Social, Edinho Silva, apenas emitiu uma nota tão genérica quanto óbvia. “O governo viu as manifestações dentro da normalidade democrática”.
Pois, pois, para o público interno a ordem é dizer que a manifestação foi menor do que as anteriores, que não teve expressão e que o “povo do PT ficou na periferia”. Desmentir a realidade, turvar os fatos, a tática de sempre, será repetida agora pelo PT, de cima abaixo, de Lula aos seus petistas amestrados.
Os governistas ficaram como Dilma, sem fala. Não têm argumentos para contestar as críticas da oposição, para dizer alguma coisa. Ficaram no secundário e assinalaram o seu horror pelos cartazes asquerosos que apareceram nas manifestações. Estão certos. Ainda que alguns sejam apenas cômicos, outros são mesmo nojentos e assustadores. Mas eles sabem que as pessoas que escreveram e carregaram essas aberrações não representam qualquer coisa além das suas próprias almas nefastas. Minimizar o protesto legítimo de centenas de milhares de cidadãos porque meia dúzia de idiotas sinistros saiu de casa é repetir mais uma vez a arrogância petista que nos trouxe até aqui. É reaproveitar, numa outra embalagem, a cantilena odiosa do Lula, dividindo o país numa metade boa e bacana, que vota PT, e outra metade obscurantista e má, que não vota.
O que chamou a atenção nos posts que condenam as manifestações e fazem pouco dos manifestantes foi a repetição, em todos eles, foram as mesmíssimas fotos dos mesmíssimos cartazes: as senhoras grotescas que perguntam por que não mataram todos em 64, o maluco que pede a volta do Sarney, o analfabeto que não “foje á luta.” Para a quantidade de gente que foi às ruas, isso é muito pouco. Não é menos pior por causa disso, mas gente ruim e de maus bofes existe em toda a parte, imagino até que entre as hostes hipsters e angelicais da esquerda.
Nenhuma indignação dos petistas contra o presidente da CUT — que teve o descaramento irresponsável de propor, no Alvorada ainda por cima, que brasileiros peguem em armas contra brasileiros. Ou isso pode?

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