Ecos do terceiro mundo

Desde as cinco da manhã Fortunato da Silva estava a postos fora da cama. Fizera muito frio naquela noite e sua casa, como na absoluta maioria naquela cidade, não possuía aquecimento algum a não ser esfarrapados cobertores. Fortunato anda doente e hoje não se sente muito bem, mas precisa trabalhar. Seu remédio genérico de uso contínuo que devora mensalmente trinta por cento do seu salário, desapareceu mais uma vez das farmácias populares. A desculpa é a de sempre: ninguém sabe quando chega. Mandaram-no voltar mês que vem, pois talvez o laboratório volte a entregar, quem sabe? Fortunato não pode pagar pela droga original e sabe que precisa ir ao maldito “postinho” do SUS pedir orientação se lá algum médico aparecer. A fila é longa e penosa e ele perderá um dia todo e isso ele não pode se dar ao luxo. Agora não dá mais tempo, pois precisa marcar ponto no trabalho às sete. Fortunato está na pequena estação de ônibus junto a outras tantas ansiosas. O tubinho de vidro fincado na calçada não aguenta aquela montoeira de gente e ele sai pra “pegar” um ar. O coletivo já encosta lotado e Fortunato luta ferozmente para conseguir uma vaga naquele container apinhado de rostos infelizes. Sim, ali todos aparentam tristeza e Fortunato percebe que por trás dessa tristeza há uma revolta encolhida, mastigada e ele pensa: somos todos desafortunados. Então reflete: mas que diabos de nome é esse que meu pai me deu? Que fortuna de merda é essa? Por que não Infortunato da Silva? Não há alternativas de transporte para aquela gente maltratada. Fortunato ouve há mais de trinta anos que o novo Prefeito vai fazer o Metrô e dar conforto e alternativas aos Infortunatos da Silva. É mentira, é mentira, é mentira, como diria o deputado símbolo do Brasil, o corrupto do mensalinho Severino Cavalcanti, o achacador de restaurantes de quilo. Quando ele embarca imprensado naquela gente toda, já recebe de boas vindas o bafo fétido e familiar daquelas bocas  que em sua maioria não sentiram o sabor de um desjejum matinal. Fortunato sabe que seu hálito com certeza deve também fazer parte daquele odor. Ele não lembra há quanto tempo não toma um café da manhã ao sair de casa. Pensativo não tira o ex-presidente Lula da cabeça. A chuva que começa a cair lá fora ajuda sua tentativa de entender por que sua vida e a de seus familiares e a de muitos que conhece em nada mudou. Ora, mas por que diabos o homem foi endeusado pela maioria, saindo da presidência como o  grande salvador dos pobres? O homem que acabou com a miséria no Brasil? Onde aconteceu isso meu Deus? Ele repete sempre que nunca na história desse país o povo teve tanta felicidade e bem estar. Será que foi só por aqui que tudo ficou na mesma? Fortunato pensa em seu pai que está num corredor de um Hospital a espera de um leito há mais de 10 dias e de que sua mulher  continua acamada convalescendo de uma surra que levou de um PM na frente do sindicato das empregadas domésticas. E ela, coitada, nem sabia o que estava acontecendo ali, pois fora apenas levar sua ficha cadastral quando ocorreu o tumulto e a correria e em seguida a surra. Fortunato continua a divagar naquele ônibus dos infernos e lembra daqueles filmes americanos que sempre vê na TV nos domingos de folga. Costuma observar tudo em detalhe de como é a vida no primeiro mundo: o povo feliz indo de Metrô para o trabalho, aqueles carros grandes e bacanas, aquele policial forte de uniforme azul marinho toda equipado e o bandido sendo preso, algemado e condenado por um juiz preparado e pouco complacente. E aqueles prédios poderosos então? O que é aquilo “irmão”? Pensa Fortunato. Como aqueles americanos conseguem ser tão bem tratados, bonitos, saudáveis e felizes e nós não?  Será que essa esculhambação que nos presenteiam o tempo todo é só aqui? Não falam que somos uma potência? A sexta economia do mundo? Por que essa miserável e infeliz vida espremida, sem saúde, sem segurança, sem dinheiro, sem educação e principalmente sem respeito? Fortunato da Silva é cutucado por todos os lados naquela caixa de ferro que se arrasta canaleta afora. Deprimido, pensa que seria ótimo se fosse evaporado de repente, sem nada sentir. Lembra que certa vez leu um livro em que as pessoas eram evaporadas, sumiam sem deixar vestígio e nunca mais eram vistas e nem ninguém mais perguntava delas. Pensa mais uma vez: será que essa porra de reencarnação existe mesmo? Não seria bom ser evaporado e já nascer americano? O ponto de descida de Fortunato está chegando, chove muito lá fora, o coletivo para e ele desce sobre uma poça d’água que lhe encharca os pés e uma parte das calças. Ali parado, vê então o ônibus se afastar lentamente, lhe respingando ainda alguns nacos de lama e ele pensa por derradeiro: a vida é mesmo triste e esculhambada nesse tal de terceiro mundo.

 

Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

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