Biografia não, história sim

Lilia Schwarcz e Heloísa Starling, São Paulo, 2015.

Heloisa Starling e Lilia Schwarcz. Foto: Reprodução/site ufmg.br

No final do mês de agosto a historiadora e professora da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) Heloisa Starling e a antropóloga e professora da Universidade de São Paulo (USP) Lilia Schwarcz participaram, aqui em Curitiba, do festival literário Litercultura; vieram para falar do novo lançamento – Brasil: uma biografia.
Em conversa com a imprensa ambas deixaram muito claro que não queriam contar a história do Brasil, queriam fazer do Brasil um personagem. Oras, é de se pensar que viria um romance histórico, ou talvez algo mais leve, descontraído, menos compromissado com os fatos “oficiais”, de certa forma até conseguiram, elencaram discussões que nem sempre são visíveis, deram o papel de protagonista às minorias. Mas, a biografia do Brasil talvez fosse um projeto muito ambicioso, quiçá impossível. Como contar a história de vida de um país? Aparentemente isso é mais marketing que compromisso historiográfico.
O século XX trouxe um problema para a literatura, o público morreu. Escritores não sabiam mais para quem escreviam; a partir desta dúvida o discurso que afastava os leitores, promovido pelos próprios autores, tornou-se prática comum e chegou até o século XXI, e no presente o público está visivelmente mais longe. O escritor de hoje mutila-se, torna-se inútil uma vez que insiste em discursar que não escreve para um público, e sim para si mesmo, sendo que sua função é se comunicar com as palavras. É o mesmo que um jornalista não querer dar a notícia ou um médico não fazer questão de curar um enfermo.
Diferente da Idade Média onde clérigos escreviam para clérigos ou no Iluminismo que a burguesia escrevia para a burguesia, hoje se tem leitor vivo e público morto. E quando questionei Heloisa Starling para quem havia escrito esta biografia ela disse “para um maior número de pessoas possível”, ou seja, escreveu para todo mundo, logo não escreveu para ninguém. De uma coisa ela e a Lilia sabiam, queriam romper as barreiras da academia, romper com a linguagem, mas não com o rigor – o que de fato conseguiram, pesquisaram acervos da Europa, França e Bahia, foram mais de cem, sem contar a pesquisa iconográfica realizada por uma equipe de quase vinte pessoas.
Mas, é preciso debater mais sobre a proposta da biografia, pois isso, mostram elas, é o grande diferencial da obra. Sustentam fugir dos manuais acadêmicos como História Concisa do Brasil, do Boris Fausto, ou então dos livros especializados como Raízes do Brasil, de Sérgio Buarque, ou ainda A Devassa da Devassa, de Kenneth Maxwell, que retrata o momento da Inconfidência Mineira. O próprio Maxwell escreveu para a contracapa do livro e disse se tratar de uma “história do Brasil abrangente, sensível e ancorada em pesquisa rigorosa.” Não é questão de termos, é apenas uma ideia pouco verdadeira, é mercadológica. E foi incessantemente difundida pelas autoras, seja no livro ou na entrevista coletiva.

 

Brasil: uma biografia é um manual para o grande “público”, entenda-se aqui o que vai além do especializado, este sim um público de fato, e um belo manual por sinal, com imagens inéditas. É mais um livro que poderia receber o título de História Geral do Brasil, que possivelmente entrará para a lista de best-sellers, como aconteceu com Laurentino Gomes em 1808, 1822 e 1889. Ou Uma breve história do mundo, do Geoffrey Blainey. A diferença é que estes foram um pouco mais honestos com suas propostas. Mas todos possuem valor inestimável, Heloisa Starling e Lilia Schwarcz produziram uma obra que trará as pessoas para mais perto de sua história – e, de novo, com o rigor histórico; a necessidade de reafirmar é pela imensa quantidade de volumes que contam a “história verdadeira”, porém fracassam na pesquisa.

Quem não se lembra do aclamado Guia politicamente incorreto da história do Brasil e o da América Latina do Leandro Narloch? Pretensioso e fraco; estava mais para rebeldia juvenil, aparentemente trazia revelações, mas não passava de especulações que estão na boca do povo. Tentou escrever história, o máximo que conseguiu foi dar uma bela aula de retórica.
livroA tentativa de escrever a biografia do Brasil aos meus olhos foi frustrada, não por incompetência delas, e sim por não ser possível. Basta pegar o sumário do livro que se vê que o que se tem é uma história do Brasil nesses cinco séculos de vivência. A proposta do Brasil: uma biografia mostra o que acontece desde o século XX, a carência de público. Fizeram desta forma porque não têm para quem escrever, mas queriam ter muitos leitores e aqui merecem aplausos, escreveram para se comunicar.

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