Contabilidade Celeste

No mundo das  religiões, evangélicos desaceleram e católicos  perdem menos

 

Paul_Freston_PRONTO

Paul Freston. Foto: Reprodução/site calvin.edu

Os nomes devem soar estranhos à maioria dos leitores, mas são importantes no âmbito da  Sociologia, da  História das Religiões no Brasil, e no universo das  Estatísticas,  e até no mundo acadêmico do  exterior, como Estados Unidos e Canadá: Paul Freston, Gedeon Freire de Alencar, Luiz André Brunetto, Paulo Ayres Mattos, Ricardo Mariano. Mariano é exceção: é bem conhecido, tem uma obra consolidada na análise do fenômeno religioso e sobre o avanço pentecostal no país, com obras editadas por importantes editoras. Não se filia a correntes religiosas.
Pois tais “scholars” respeitáveis – quase todos  de confissão evangélica ou protestante tradicional – têm registrado com certa frequência uma nova realidade: os evangélicos brasileiros não mais estão crescendo como nas proporções anteriores registradas até  2000. Os números não mentem, “mas os homens mentem”, como assinala a revista Cristianismo Hoje (CH), em recente alentado levantamento sobre o chamado “boom evangélico no Brasil” e sua desaceleração. A publicação é de orientação protestante, dirigida a um público de boa formação universitária.
Pois anote-se: desde 1890 os protestantes (ou evangélicos) começaram a ser registrados pela estatísticas oficiais. E de lá até 2010 o crescimento foi verdadeiramente impressionante – nos seus primórdios brasileiros eram  chamados de “bíblias” ou “glórias”. Chegaram em 2010 a 42.275.000. No período – 1991 a 2010 – o universo evangélico brasileiro  cresceu de forma sem paralelo no mundo todo, percentual de  120%; hoje o crescimento deve ser de 60%, número ainda ascendente. Mas cresce a metade do que vinha crescendo.  Embora os números ainda sejam de crescimento,  conforme o bispo emérito da Igreja Metodista do Brasil, Paulo Ayres Mattos, doutor em Teologia e professor da Universidade Metodista. Ele lembra, por exemplo, em declaração à revista Cristianismo Hoje, já citada: “Entre 1991 e 2000 o aumento médio foi de 120%. Dali em diante caiu pela metade. Isso não pode ser ignorado  por quem  trabalha com rigor e seriedade as mutações no campo religioso brasileiro”.

Ufanismos

O respeitadíssimo historiador da Ciência das Religiões, o britânico-brasileiro Paul Freston, hoje lecionando no Canadá, foi um dos que nunca se deixou levar pelo ufanismo que tanto marcou os anos 1980 no mundo evangélico brasileiro. A frase mais ou menos padrão para “cantar vitória”, na época, com as boas estatísticas, era “O Brasil é do Senhor Jesus”, querendo dizer que os evangélicos haviam conquistado a chamada Terra de Santa Cruz, tirando-lhe a hegemonia católica. Freston foi voz contrária quase isolada e hoje tem reafirmado sua posição: “Continuo achando que dentro de duas a três décadas, o crescimento do segmento evangélico vai parar”. Gedeon Alencar é outro scholar muito considerado na análise do fenômeno religioso (Protestantismo Tupiniquins – Hipótese sobre (a não) contribuição evangélica à Cultura Brasileira – Arte Editorial). Para ele (que é evangélico), a versão de que o Brasil será em poucos anos uma nação evangélica “é uma mistura de ufanismo inconsequente com ignorância deslumbrada.” E ainda, em análise impecável , depois de citar que os católicos eram  123,3 milhões da população em 2010, 64% dos brasileiros, assinala: “Vale lembrar que a queda percentual do catolicismo entre 2000 e 2010 foi de apenas 1,3%”. A conta se fecha quando se inclui na equação o número de espiritualistas – 3,8 milhões; os 600 mil seguidores do candomblé e outras crenças afrobrasileiras; os 5,1 milhões de adeptos de outras religiões; e o crescente segmento dos ateus, agnósticos e do segmento denominado “sem religião”, cujo número já beira 15,5 milhões…

“Os Idólatras”

Para o padre Francisco K (que pede anonimato), a perda mínima de católicos, agora reconhecida por acadêmicos protestantes como Gedeon e Freston, é indicativo de várias realidades. Uma delas, a de que a população “já não mais está embarcando naquela velha arenga de que os católicos são idólatras, que adoram santos, etc.”
O religioso franciscano, brasileiro que viveu vários anos na Alemanha e África, hoje morador do Sul brasileiro, assegura: “é preciso enxergar as muitas explicações para a desaceleração do crescimento evangélico”. Dentre as causas, cita “a sucessiva participação de políticos e suas bancadas evangélicas em escândalos político-financeiros, que têm contribuído para queda do chamado orgulho crente”.

CARTAZ

Foto: Reprodução/site compartilhare.wordpress.com

As Divisões

Outros fatores – lembro eu – são facilmente observáveis por qualquer interessado despido de visão dogmática: a multiplicidade de igrejas, seitas e mini-igrejas de coloração evangélica, muitas vezes reflete interesses pessoais de lideranças que não se sustentam nem garantem a base de suas congregações, gerando “apostasias” e fuga do rebanho; as contendas declaradas entre grupos religiosos, como as havidas entre a Igreja Universal do Reino de Deus e a Igreja do Poder de Deus, que nasceu de uma liderança da IURD, também têm peso nessa equação; há também que se considerar ainda o crescimento impressionante que hoje se declaram sem religião ou agnósticos, ateus, além dos “evangélicos sem igreja”.
Há outras realidades que os crentes em geral relutam em apontar como causa de perdas em seus rebanhos. Uma das mais claras é a secularização da sociedade; a ascensão social de boa parte da população brasileira observada nos últimos anos, pode explicar parte dessa fuga do templo, assim como a troca da magia do sagrado pela “religião” do consumo e as benesses da modernidade, fazendo igrejas, padres e pastores elementos dispensáveis. Nessa mesma linha de raciocínio, não faltam os que apontam o maior acesso da população à formação universitária como fator de distanciamento do brasileiro de hoje das igrejas. O que não significa, em si, fuga do espírito religioso, o que é outra realidade.
Nesse ponto, dá para se indagar como uma sociedade avançadíssima – do ponto de vista universitário-científico – que são os Estados Unidos, ainda se deixe comandar – em boa parte – pelo espírito religioso dos pais peregrinos? E mais: como entender que ela aceite todo tipo de pressão política a seus homens públicos, como as promovidas pelos evangélicos daqueles típicos do bible belt, o cinturão bíblico, sobre temas seculares?

Aggiornamento

Meu interesse antigo pelo chamado fenômeno religioso me leva a prever, sem dificuldades – diante do que vi e fazendo uma síntese com aquilo que observo no mundo das crenças no Brasil e no  Ocidente – que a “verdadeira batalha final”, aquela num Armageddon imaginário, dar-se-á não mais entre católicos versus evangélicos, pois, do jeito que vão as coisas, ao longo dos anos, eles terão superado muitas das barreiras que os separam ainda hoje.
A “briga” se encaminha mesmo entre os “igrejados” e os sem religião, os ateus, os agnósticos, pois este segmento cresce vertiginosamente em número e em relevância na sociedade abrangente. E por que penso que em futuro não muito distante católicos e evangélicos estarão mais próximos, no Brasil? Porque vou concluindo que partes das duas forças foram, com o passar das últimas quatro décadas, partindo para um aggiornamento com a sociedade e também com os “termômetros” do seu tempo.  Concluíram que, afinal, o chamado “mundo” não é tão perverso como pregavam…
Assim, por exemplos, os usos e costumes que tanto caracterizaram os crentes evangélicos brasileiros – os homens de terno e gravata, bíblia debaixo do braço; as mulheres com cabelos compridos, vestidos idem, absolutamente sem jóias e sem maquiagem – são quase coisa do passado. Os usos e costumes desse perfil citado subsistem em grupos da Congregação Cristã do Brasil e congregações da Assembleia de Deus (que tem várias convenções). Estão, no entanto, muito visíveis nos crentes da Igreja Deus é Amor (do recém-morto David Miranda), e também em mini-igrejas pentecostais e esparsos movimentos ultraconservadores, quase sempre de coloração pentecostal. E geralmente voltadas para uma clientela de baixa renda e baixa escolaridade.

Para Sobreviver
futebol

Futebol e Fé. David Luiz Jogador Evangélico ora e Fernando Torres faz gol. Foto: Reprodução/site YouTube

Querem outros  exemplos de aggiornamento com a sociedade secular, que a mim soaram como imperativos de sobrevivência? Há 40 anos, para exemplificar, para boa parte das igrejas evangélicas, participar (ou assistir) a partidas de futebol era considerado “coisa do mundo”. Nem assistir à televisão e filmes era possível para boa parte desse universo de fé.
Um funcionário meu, Hélio Martins de Freitas, 48, filho de pais pentecostais, foi criado com seus cinco irmãos sob usos e costumes que proibiam terminantemente qualquer envolvimento com futebol e jogos em geral. As proibições absolutas envolviam ainda vetar qualquer tipo de álcool e cigarros (nisso, estavam  muito certos). “Era pecado”, explica Hélio, que, no entanto,  nunca ouviu falar em pastor Ricardo Godinho, que fundou a sua própria Igreja, a Betesda, há 30 anos, rompendo com a Assembléia de Deus e declarando – o que foi recebido com reprimendas na época –  o “fim dos usos e costumes na Igreja”. A palavra de libertação era : “eles não são bíblicos”. Escreveu um livro seminal sobre o assunto: “É Proibido: o que a Bíblia permite e a Igreja \Proíbe” (1998).

Cidadãos Comuns
EDIR-MACEDO

Edir Macedo. Foto: Reprodução/site brasilpost.com.br

Várias igrejas e grupos evangélicos foram seguindo o exemplo de Godinho. Mas a grande “libertação” de usos e costumes ditos engessados deu-se maciçamente  com a Igreja Universal de Edir Macedo, isto é verdade. A abrangência dessa igreja, coberta por enorme repercussão midiática, demoliu a “imagem padrão dos crentes” no Brasil. Os fiéis da Universal passaram a ser vistos como cidadãos comuns, sem as distinções exteriores, como as dos cabelos compridos das mulheres. A repercussão extramuros foi enorme.
Hoje os evangélicos de quase todas as denominações dançam Carnaval e muitos têm até blocos invocando Jesus. Não mais havia espaço para tanto ultramontanismo, assinala padre Francisco K, lembrando que “essa limpeza” também atingiu a Igreja Católica no Brasil, com relação ao Carnaval, aos excessos de penitências e “resguardos” na Semana Santa, e nos trajes que as mulheres podem usar dentro dos templos. Dentre outras mudanças. Esse aggiornamento, é verdade, foi muito além de usos e costumes no mundo católico, abrindo as janelas do mundo para a Igreja, com João XXIII. A Igreja adotou, a partir daí, uma posição também horizontal – voltada para o ser humano e suas necessidades, ao lado da transcendental.
Essa conciliação da Igreja Católica Romana com o chamado “mundo” foi muito forte a partir do Concílio Vaticano II, em exemplos: a introdução da língua vernácula no culto católico, abolindo o latim da liturgia (embora essa língua permaneça a oficial da Igreja), os padres e freiras despindo-se de seus hábitos (por vezes com exageros, pois roupas talares têm seu papel importante na assembléia dos crentes).
Essas observações são importantes para lembrar que no mundo do sagrado a contabilidade – entrada e saída de membros – encaixa-se numa realidade nada matemática. Nem comportam definições dogmáticas como as de outros séculos, aquelas do “Roma Locuta, Causa Finita” (Roma falou, está falado). Para que ninguém se surpreenda, sou capaz de apostar que já está em gestação em segmentos evangélicos no Brasil alguma adesão ao chamado Teísmo Aberto, corrente teológica que sustenta que Deus não conhece todo o futuro. Apenas parte, pois se conhecesse todo, para onde iria o livre arbítrio do homem?
É uma das ondas do mundo protestante norte-americana, gestada a partir de 1930, frontalmente oposta às idéias de Calvino. Resumo, pois: nos domínios do sagrado os planos de Deus são cada vez mais planos dos homens.

Deixe uma resposta