Minha história com Sartre

Toda vez que quero afirmar algo, mas não quero dizer que estou a afirmar, seja por insegurança ou por não querer ser pretensioso, uso a frase de Gabriel García Márquez: Eu não vim fazer um discurso. Acredito que nós dois usamos da má-fé.
Li sobre a má-fé em Sartre e inúmeras outras coisas li em Sartre e é sobre ele que agora não venho fazer um discurso; talvez um relato, um relatório, uma descrição, mas não, mas nunca um discurso.
Li um texto de um professor da USP sobre a universidade contemporânea, no final, as notas das citações, um total de oito, cinco eram de Theodor Adorno, as outras três eram obras sobre as teorias de Adorno, mas aquele texto dizia muito mais por Sartre que por Adorno. Naquela altura estava concluindo O Ser e o Nada, acreditei estar contaminado por Sartre, afinal ele de fato me contaminou, não só naquele momento, acho que para sempre. Mas para minha surpresa depois das notas uma breve biografia sobre o autor do texto: especialista em Descartes, Bergson e Sartre. O professor também estava contaminado por Sartre, todos que lêem se contaminam, impossível é o contrário. De certa forma fiquei feliz, identifiquei um companheiro engajado pela luta existencialista. Pode ser ingenuidade, prefiro acreditar que não.
Sempre tive uma queda por intelectuais; é uma admiração, um respeito, coloco-os em pedestais, onde lá são inalcançáveis e intocáveis. A lista é grande: de Eça a Foucault; de Caetano a Simone (de Beauvoir). Para minha sorte esta lista tem gente que habita meu cotidiano e posso beber direto da fonte. Em Sartre, no entanto, encontrei o timoneiro da minha lista, da minha vida. Fui alertado por um antigo professor que tomasse cuidado com a filosofia existencialista, pois poderia ela apenas passar como uma filosofia, porém perigosamente poderia estacionar como uma filosofia de vida, para cair no lugar-comum. O aviso veio nas últimas páginas d’O Ser e o Nada, já era tarde.
Minha história com Sartre começou com uns catorze anos, meu pai comprou o seu clássico, abandonou na prateleira dele e caiu na minha, onde ficou abandonado por quase dez anos. Depois, na faculdade, veio a cadeira de Filosofia Contemporânea, nada suficiente para despertar qualquer coisa, achei interessante a parte dos fenômenos e etc., mas nada mais (Merleau-Ponty julguei mais simpático). No último ano da faculdade li um livro de cartas dele com a Simone; fiquei fascinado com aquela relação de amor, com seus percalços como qualquer uma, mas fundamentalmente amorosa. Sartre e Simone pairavam no meu imaginário, e só.
Este ano foi fatal. Li a conferência O existencialismo é um humanismo, emendei com O Ser e o Nada. Depois parti para Que é a Literatura?, Esboço para uma teoria das emoções, O Muro e por aí foi. Em Sartre mergulhei intensiva e extensivamente. Fui acusado de “pregar a palavra de Sartre”, não me importei. No começo aparentemente eu tinha aprendido um monte de frases de efeito: “o homem está condenado a ser livre”, “todo fim se revela um meio para atingir outro fim” etc., etc. Mas as frases eram tantas e tão adequadas que passei a julgar a palavra de Sartre a “revelação”. Aleluia irmãos!
E agora quero buscar quem contrariou Sartre para estar certo, de fato, que encontrei a tal filosofia de vida. Até agora topei apenas com uns marxistas dogmáticos que o acusaram de praticar uma filosofia burguesa, argumento pouco convincente, até equivocado. O Sartre, para usar da sua teoria, se tornou o Em-si e o Para-si da minha vida, do meu jeito de viver a vida, de encarar a vida.

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