Nos palcos da cinelândia curitibana

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Com a inauguração do grande auditório do Teatro Guaíra apenas em dezembro de 1974, Curitiba ficou, desde a demolição do antigo em 1939, sem um grande auditório. Por 45 anos este vácuo cultural foi preenchido pelos empresários que exploravam os cines-teatro, principalmente o Avenida e o Palácio, notadamente nos anos 1940 e início dos 1950. Cada um contratava determinada companhia teatral para a temporada, geralmente de duas semanas, pois era uma peça por dia, e não havia um repertório tão extenso. Para o Avenida, inaugurado em 9 de abril de 1929 com a revista Rio-Paris da companhia Tro-Loló, Dulcina, Jaime Costa e Odilon de Azevedo. Para o Palácio a Companhia Teatral Aracy Cortes e Oscarito, antes de se tornar astro das chanchadas da Atlântida, ator dramático. Ainda Mário Brasini e o grande Procópio Ferreira.

Havia ainda os avulsos, récitas que entravam na programação para um só dia. Vicente Celestino, amigo do empresário e exibidor Henrique Oliva, que administrava o Palácio era presença constante pelo seu sucesso. Além dos discos e rádios, estrelou o filme “O ébrio” com  Rodolfo Arena, Alice Archembeau, direção de Gilda Abreu, produção da Cinédia em 1946. Sessões muito concorridas no próprio Palácio. Vinham orquestras, shows, de tudo.

Uma noite muito lembrada foi a apresentação do tenor polonês Jan Kiepura e sua esposa, a cantora Martha Eggert, também no Palácio. A dupla já era famosa pelos filmes musicais alemães da UFA (Universum Film Aktieengesellshaft) exibidos por aqui, além da colônia polonesa, bastante numerosa. A récita foi uma noite fabulosa, o cinema abarrotado, muitos, não conseguindo entrar, ficaram ouvindo em silêncio do lado de fora, pelas portas laterais que davam para a rua Voluntários da Pátria. Da plateia entusiasmada, atiraram muitas flores ao palco, provocando com que o chinó, usado pelo cantor, saísse do lugar. Ao final eles tomaram um carro aberto e a multidão foi empurrando o veículo em desfile pela avenida, até o “Grande Hotel” aplaudindo.

Em 16 de outubro de 1951, Beniamino Gigli se apresentou no pequeno palco do cine Ópera, acompanhado pelo maestro Enrico Sivieri em um piano Essenfelder, fabricado em Curitiba e cedido pela Rádio Guairacá. Tenor italiano de fama internacional foi considerado o sucessor do mito Caruso, tendo participado de alguns filmes e gravado inúmeros discos para a RCA Victor.
Até meados dos anos 1940 as telas usadas nos cinemas eram feitas de tecido gorgorão branco, ou tela garsa, e por isso tinham que ser lavadas com certa frequência, pois manchavam ou amarelavam pelo acúmulo de poeira. Aproveitavam estes eventos para isso.

Quando chegaram as de material plástico esta operação ficou mais fácil, principalmente quando a lavagem era sem desmontar as enormes telas. Depois as reinstalavam – as caixas de som e as produções cinematográficas voltavam a ser projetadas.

No início dos anos 1970, em meio ao turbilhão da ditadura e do movimento hippie, é encenado no palco do Cine Marabá, que ainda conservava os camarins do antigo Theatro Hauer, na Rua Mateus Leme, o musical “Hair”. Além do sucesso em discos e das músicas que tocavam nas rádios, como Aquarius, Let the sunchine in e Good morning starchine, esta peça revelou uma leva de atores talentosos como Ney Latorraca e Sônia Braga.

Ainda na entrada do cinema, policiais, “apresenta- não apresenta”, nós nervosos, com os ingressos na mão, verdadeiro tumulto. Fomos recompensados principalmente com o banho coletivo ao fim do primeiro ato. Sensacional, outra noite memorável.

Em maio de 1972 assisti no cine Vitória, na Rua Barão, apinhado, a apresentação da Orquestra da Rádio e Televisão Francesa, regência de Jean Martignon. No programa peças de Villa-Lobos, Berlioz e outros. No início, uma eletrizante execução, a melhor que já ouvi, do Hino Nacional seguida da Marselhesa. Também neste cinema, no ano anterior, a Orquestra Sinfônica de Utah, regência de Maurice Abravanel.

Eventos promovidos pela iniciativa privada ou com entidades consulares que mantinham na Curitiba de então, de alta cultura, em uma cidade considerada exigente. E hoje? O melhor é tomar um avião ou ônibus para o mais perto que é São Paulo, para um final de semana com exposições, concertos, peças ou filmes que não serão programados por aqui. E ainda não teremos que pagar a taxa abusiva para comprar os ingressos na bilheteria terceirizada do teatro Guaíra, sem qualquer comodidade ou serviço que justifique este pagamento.

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Companhia de comédias Lyson Baster no aeroporto do Bacacheri em 1943. Da esquerda para a direita: Alceu – pianista, o exibidor Henrique Oliva, Lyson Baster, Alfredo Vidiani, Oscar Raffs- gerente do Oliva, EzioZanelo – publicista.

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