O nosso caminho das Índias

Don Alvar Nuñes Cabeza de Vaca - Imagem: Reprodução/site encina4.scoom.com

O Paraná iniciou a sua história como trilha da cobiça em busca de um equívoco. Os navegantes que vinham fazer fortuna nesta região do planeta seguiam pelo Peabiru, caminho aberto pelos índios que poderia levá-los ao império de um soberano branco, sua terra de prata, suas cidades e templos repletos de tesouros à espera do primeiro saqueador. Maior e mais rico que o México, calculavam, baseados nos relatos dos nativos e em desmedidas esperanças.
Em 1547, o espanhol Domingos de Irala conseguiu chegar, afinal, ao território de Charcas. Em prantos de absoluta frustração confirmou a lenda e o engano que mobilizou várias expedições em longa sucessão de naufrágios, massacres e sacrifícios que jamais seriam recompensados. O império existia. Era o Peru. O soberano branco era o Inca. A serra de prata era Potosí. Mas tudo já fora conquistado em 1531, por Francisco Pizarro.
Pelo Peabiru, que cruzava o Paraná de leste a oeste, passaram várias tentativas de descobrir o império já conquistado. Aleixo Garcia comandou a primeira. Pero Lôbo e o Bacharel de Cananéia prometeram a Martin Afonso de Souza voltar com quatrocentos escravos carregados de ouro. Foram todos mortos e deglutidos. Don Alvar Nuñes Cabeza de Vaca conseguiu chegar a Assunção em 1542. Ao continuar em direção ao Peru, foi impedido pela febre dos pântanos e pelos guaicurus, índios aguerridos, que logo perderam o medo e dominaram o cavalo, grande trunfo dos conquistadores.
Peabiru, o caminho do percurso que se inicia, na linguagem pleonástica dos nativos. Duzentas léguas, oito palmos de largura, sempre cercado por uma erva que servia para mascar ou fumar. Erva-mate, na compreensão de alguns. Apenas bambuzais, segundo botânicos. Só poderia ser ela, a própria, a maconha, enfartam de alegria os autodidatas que defendem a tese do uso natural e legítimo da espécie desde remotíssimas eras antes da chegada de Cabral.
Foram longas jornadas pelos sertões do Paraná. Ruiz Dias e Melgarejo, um sevilhano que acompanhou Cabeza de Vaca, fala do desconforto a que se submeteram durante meses na paisagem estranha, imersos no caos de catinga e insetos, cansaço e privações, obrigados à convivência com os índios e, pior, com o pequeno exército arrebanhado na escória dos portos espanhóis, onde não faltavam fugitivos, criminosos, loucos não declarados e frades corrompidos. Conta os esforços para ultrapassar as terras vertiginosas na serra do mar, as paisagens de pedra que se erguem no meio dos campos, as florestas quase impenetráveis, tão espessas que cobriam o céu, tão escuras que lembravam o inferno. Os rios, tão caudalosos quanto o Guadalquivir, que se lançam em cataratas impressionantes.
Desses primeiros visitantes ficaram os fragmentos de crônicas, hoje dispersos em vasta bibliografia e em vários idiomas. São frutos da observação de homens sinceros e, às vezes, fantasiosos. Bem distintos dos enfadonhos relatórios oficiais, preferidos pelos historiadores, que já continham os defeitos de estilo desse tipo de literatura em versão atual: a linguagem da burocracia, culto da personalidade, divulgação de feitos nem sempre comprováveis e farta bajulação dos governantes.

 

(Imagem: Don Alvar Nuñes Cabeza de Vaca – Reprodução/site encina4.scoom.com)

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