Prateleira. Ed. 168

O tempo envelhece depressa – AntonioTabucchi

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Antônio Tabucchi. Foto: Reprodução/site posfacio.com.br

Um ano antes de morrer, Antônio Tabucchi foi convidado para Festa Literária Internacional de Paraty. Homem de ideias e valores claros, não teve como concordar com o governo brasileiro da época sobre a decisão de não extraditar Cesare Battisti, condenado por assassinatos na Itália. Em protesto, recusou o convite, a fazer duas coisas ao mesmo tempo: empunhar a bandeira daqueles que acreditam que a justiça tem que ser respeitada e acabar com todas as chances possíveis de ter suas descobertas e experiências compartilhadas em nosso território.
O livro de contos de Tabucchi, italiano de nascença e português por opção e paixão primeira por Fernando Pessoa, “O Tempo Envelhece Depressa” trata de maneira delicada a passagem do tempo, que “dá e tira a vida”, como escreveu Bernardo Carvalho na orelha do livro. As nove histórias traduzidas aqui no Brasil por Nilson Moulin (com edição da CasacNaify) passeiam por lugares que despertam, se não uma inquietação universal, pensamentos particulares ao leitor sobre o passado, a passagem do tempo e a provisoriedade do presente. Os tons melancólicos dos personagens não miram na tristeza, mas nas reflexões pré-socráticas atribuídas a Crísias do próprio título. A leitura poderia ser rápida e fluida pelo texto bem escrito, mas não é fácil encarar a ficção de Tabucchi sem envolver os próprios juízos nas questões maiores.

Adriana Sydor

Comunidades imaginadas

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Foto: Divulgação

Benedict Anderson conseguiu contar sobre a formação dos estados nacionais fora da visão eurocêntrica. Detalha com precisão as nações asiáticas, americanas e também as europeias. Mais que isso. Traz a definição de uma nação e explica porque é uma comunidade, imaginada e limitada.
Nós, enquanto indivíduos pertencentes a uma nação, embora façamos parte de diferentes classes sociais, podemos fazer parte de uma mesma comunidade pelo fato do projeto comum de nação. E como somos muitos, jamais conheceremos todos, por isso imaginada. Limitada pelo fator fronteiriço e cultural.
Anderson também discorre sobre soberania nacional, além de outras coisas que faz de uma comunidade imaginada uma nação.

O brilho do bronze

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Boris Fausto. Foto: Carlos Fausto

Boris Fausto é um dos historiadores mais respeitados quando a pauta é história do Brasil; o alto quilate serve também para a história de São Paulo, que recebeu estudo minucioso do autor. No final do ano passado, no entanto, retomou um hábito da juventude e lançou o diário O brilho do bronze. Livro que serviu para superar a morte da educadora Cynira Stocco Fausto, com quem foi casado durante 49 anos. Aos poucos o luto deixa de estar presente e as reflexões se abrem para a trivialidade cotidiana, embora, é verdade, marcado pela ausência, mas isso não faz com que o texto seja pesado, melancólico, Boris Fausto conservou um senso de humor refinado e nos ensina, de certa forma, a rir da morte.

Força é recomeçar sempre

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André Gide. Foto: Reprodução/site drakebennett.org

André Gide é um dos grandes nomes da literatura francesa, não apenas pelos seus livros ou pelo Nobel em 1947, mas também por fundar uma das mais importantes editoras, arrisco, do mundo: a Gallimard; por ela passaram nomes como Camus, Sartre, Borges, Kafka, Hemingway, Proust, Llosa e outros tão expressivos. A volta do filho pródigo, escrita por ele originalmente em 1909, traz seis textos e já de cara, embora seja ainda pouco, n’O Tratado de Narciso (Teoria do Símbolo), Gide mostra sua perspicácia e o porquê, como se o Nobel não bastasse, tornou-se um dos nomes de maior influência do século XX na França, quando diz que “Todas as coisas já foram ditas; mas como ninguém escuta, força é recomeçar sempre”.

Do amor ao Nobel

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Isabel de Nóbrega. Foto: Reprodução/site observador.pt

“Sim, essa arma, digo bem, que ela sabia constituir, no arsenal das suas seduções, a mais mortífera das suas armas: os olhos, precisamente”, foi como o crítico português João Gaspar Simões descreveu em seu livro As mãos e as luvas – de 1975 – Isabel de Nóbrega, uma rapariga da alta burguesia que encantava não só pelos seus olhos ou pelas pernas bem desenhadas; o poeta e escritor português Helder Macedo descreveu as senhoras como Dona Isabel da seguinte forma: “eram mulheres bonitas que liam livros e faziam coisas ousadas, o que despertava o nosso fascínio”.
(Em As mãos e as luvas Gaspar Simões conta sua história de amor com Isabel de Nóbrega, até o momento de ela substituí-lo por um ignoto jornalista e tradutor. Ele a representa como uma espécie de Madame Bovary. Os críticos fazem pouco do romance, talvez pelo excesso de moralismo e alfinetadas.)
A jornalista portuguesa Joana Emídio Marques disse que o caso de amor dela com o desconhecido tradutor “poderia ser um plot para um romance neo-realista ou para um filme surrealista. Mas a realidade é sempre mais interessante que a ficção e mais surreal do que o surrealismo.” Isso porque ela era de família de alta reputação e bem educada; e ele antes de embarcar no universo das letras era um torneiro-mecânico.
Mas a questão capital é que Isabel de Nóbrega iluminou como um poste o futuro literário do tradutor, mostrou a ele que Fernando Pessoa não poderia ser desprezado e que a vida não se resumia às lutas políticas do Partido Comunista. Não podemos creditar a ela tudo, mas graças a ela José Saramago deixou a militância e a tradução e chegou ao Nobel de Literatura.

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