Quando anjos não voam

Atribui-se a Aristóteles a afirmação de que a falta de asas é um dos limites ontológicos do homem, uma de suas carências. E é dele também a construção de boa parte do edifício da lógica, dentre eles um dos seus desvios, aquilo que se chama de silogismo: uma conclusão presumida como inevitável entre premissas que se opõem.
Mas toda essa falação, supostamente escolástica, trata anedoticamente de um caso em que voar era preciso, como Lula anuncia para os seus inimigos como ameaça fatal nas eleições futuras, mas persistia a impossibilidade física de fazê-lo e aí o que fez o personagem: lança mão de um sofisma que tinha tudo de silogismo.
É a história do amante japonês que marca um encontro com a amásia na ausência do marido e quando está relaxado prestes à deliciosa aventura surge um ruído de automóvel lá fora. É o marido, anuncia a mulher, e abre a janela do apartamento para que o amante, às pressas e dando uma de Tarzan, se agarre num galho de árvore próximo. Pelado, com frio, encosta-se num canto e disposto à dura provação. O marido ouve o movimento nas árvores e pergunta quem está lá. O japonês, gelando, diz que é um anjo.
-Andjo, Andjo!
-Anjo? Se é anjo trate de voar!
E já estava com o rifle voltado para o vulto que se esgueirava quando o silêncio da noite é cortado pela voz súplice do amante frustrado.
– Não pode. Andjo é filhoton!
E como se sabe filhotão não voa porque ainda está treinando.

 

flying-machine

Imagem: Divulgação

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