Romeu

Sabia que um dia nos encontraríamos.
Eu assistia suas peças com olhar de raio X. Enquanto ele vestia os mais diversos personagens, despia-o sem prestar atenção ao texto ou avaliar a performance ou saber de cenário, figurinos, outros. Ele era sempre meu protagonista num monólogo lânguido, com gestos sensuais, movimentos precisos. Via-o como a personificação do prazer e adivinhava-o intimamente pedaço por pedaço.
Um dia, entre autógrafos e sorrisos que espalhava depois da peça, fiz sabê-lo da minha presença e intenções. Ele me conhecia de outras plateias e acho que até imaginava os caminhos que eu queria percorrer, mas tinha tanta oferta de carne que nunca ousei me aproximar; talvez por isso, ficou surpreso quando contei que estava sozinha em casa e que o frio daquela noite sugeria mais o sofá que a mesa de um bar. Convidei-o.
Juntos andamos até minha casa. No caminho, primeira vez, ouvi sua voz só pra mim. A cada grave, meu coração pulava.
Subimos pelo elevador com intentos às claras, meus seios em suas mãos e nossas bocas coladas.
Esperei por aquela noite durante muitas peças. Cada pedaço do seu corpo valeu minha castidade e sonhos de meses. Rolamos pela cozinha, pela sala, minha cama. Grande erro, rolamos por minha alma.
No início, não sei por qual motivo, encenei um personagem e disse o que não sentia: aquele era um encontro casual, nada teria continuidade. Eu estava mesmo encenando porque nunca seria capaz de usar com naturalidade a expressão encontro casual e mais ainda porque o que queria mesmo era prolongar por todos os dias e noites, semanas e meses, anos e décadas, a presença daquele homem em minha vida.
Nos amamos como se aquele fosse o último dia de cada um. O prazer da carne em cada toque, a luxúria nos olhares, seivas, salivas, sumos, tudo levado às últimas consequências.
Dia seguinte, quando acordei ele não estava mais. Guardei por semanas a esperança que me procurasse de novo e como isso não aconteceu, numa quarta-feira à noite fui assisti-lo. Antes da peça acabar me esgueirei até seu camarim e fiquei aguardando. Quando entrou, me cumprimentou cheio de gentilezas e sorrisos, perguntou se eu estava bem e antes que eu falasse das minhas vontades e da minha saudade, pediu licença, disse que tinha compromisso. No entanto, não encerrou conversa, tratou da despedida de um jeito que ficou subentendido que ainda nos encontraríamos. Deixei meu nome e telefone anotado num papel, e para evitar o constrangimento de confusões, esclareci com a ridícula descrição: aquela do apartamento na Avenida Treze.
Até hoje não me procurou, mas ainda espero que meu telefone toque e do outro lado da linha seu grave me pronuncie como se fosse eu sua protagonista – Julieta perfeita para os seus textos. Romeu é o homem inesquecível da minha vida.

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