Sabedoria de realidades fantásticas

Li o Geografia da Pele, de Evaristo Eduardo de Miranda, em tempo recorde, fora dos meus padrões de leitura. Foram apenas  dois dias, num  total,  talvez, de 10 horas. Poderia tê-lo lido mais rapidamente. De propósito, quis sorver cada linha, pois ouvia – essa é a expressão correta – o som didático da fala do velho amigo,  o etnógrafo  ou antropólogo, embora  não graduado nessas áreas, a quem me acostumei a absorver descrições de situações humanas e paisagens que muitas vezes só ele parece enxergar.
E  também as enxergam, descobri agora, seus amigos da África profunda, do Níger e adjacências, repositórios  de mitos, fábulas, verdades e ciências, alicerces de um dia a dia difícil e, ao mesmo tempo, fundamente entranhando na alma do continente. Nas narrativas  dessas visões e no explicitar sua pedagogia, Evaristo chega  aos nossos ouvidos com sotaques carregados de verdade, em minuciosos anúncios, despindo mundos nunca dantes imaginados. São falas que apreendem realidades míninas, detalhadas, insuspeitadas ou não valorizadas.

Noelly Castro

Evaristo Eduardo de Miranda

É Fácil

Não tenho dificuldade, mais adiante, em concluir que tais verdades são as que mais importam, tal como descubro no correr das páginas do livro. Nesse  Geografia da Pele, livro trabalhado por uma editora de incontrastável padrão, fui me transportando ao Shael e suas cercanias, com espaços para o Mali, a Nigéria, as dunas do Saahara e com  direito a todos os fantasmas do primeiro dia da Criação, que ocorreu mesmo na Mãe  África. E direito também às surpresas de um clássico do encantamento, como aquele que Evaristo constrói na grande “viagem” de ida e volta a Paris, como guia da   população nativa de Maradi, morada da etnia hauçá, vila  que foi seu teto africano. A “viagem”  é um momento único em meu inventário literário.
Nunca tinha mergulhando em nada igual. Senti-me subjugado pela facilidade com que o narrador fala do longo itinerário. Pergunto-me se será  mesmo uma descrição da viagem? Jamais. É impossível, pois se trata de uma sessão de encantamento que só um mestre da narrativa poderia produzir.  É, isso sim, a fala de alguém que supera o tempo, as barreiras culturais de toda ordem, e se dispõe a abrir fronteiras para um povo esquecido e que, por quase quatro anos, foi-lhe “mater et magistra”.

Noelly Castro

Êxtase

Nunca antes me havia transportado em tão profundo êxtase  como o fiz acompanhando aquelas crianças, homens e mulheres, anciãos, na odisséia da experiência francesa. Uma construção onírica/verdade que só um pesquisador da alma humana, imune a repressões gestadas pela cultura Ocidental, com experiência comprovada, poderia promover. Essa tournée de realismo fantástico adicionou-se como mais uma das marcas registradas desse pesquisador, cientista de amplas latitudes, que jamais  ab-rogou da alma de menino travesso, observador e safo. E é com essas qualidades que ele maneja  itinerários em que o real e o sonho deambulam lado a lado. Com a maior dignidade, retroalimentando-se e construindo pontes de entendimento.
Assim, dizer que me surpreendi com essa relíquia narrativa, seria faltar com a verdade. Apenas confirmei, sem deixar de me sentir mais uma vez mesmerizado pelo domínio das descrições, que o autor é um homem especial. Registro sem qualquer restrição: o Evaristo particularmente distinguível na multidão dos escritores e cientistas é o pós-doutor em Ecologia que conheço há anos, desde quando comecei a absorver suas falas  carregadas de detalhes e profundidade no desvendar de variados campos do saber. Um deles, do qual Evaristo não se desapega (felizmente) é o do fenômeno religioso e seus desdobramentos. Não trabalha com o léxico de Mircea Eliade, nem precisaria dele. Mas os mergulhos de Evaristo na aventura do homem na busca do sagrado o levam a compor descrições  que, penso, podem facilmente acompanhar as incursões do búlgaro historiador das religiões e filósofo.

“Transmigração”

Não tive dificuldade de “transmigrar” meu espírito para aquele solo africano, fertilíssimo no comunicar realidades e apregoar avisos e premonições. Trata-se de um solo que o mundo ocidental está acostumado a associar  apenas ao  do candomblé ou magias negras. Ou a “atrasos”. Só que, no caso, benditos “atrasos”. A África do Níger, em que Evaristo nos introduz, é o continente prenhe de sabedorias – algumas visíveis aos meros mortais, mas sempre sendo alimento essencial de seus nativos e à disposição da Terra inteira. No mergulho da leitura vou encontrando as fitas penduradas em galhos de árvores a pedido da menina pastora e sem braços; espanto-me com o conteúdo revelado a partir do tombamento do baobá centenário, de cujas raízes vão surgindo lacraias, aranhas, serpentes, centopéias, baratas, bichos de quatro patas, tatus, formigas, ratazanas… Um desfile de surpresas que é parte dessa sinfonia na qual o real não deve oferecer necessariamente a mesma percepção que delas se teria no Ocidente.
Com os huaçás, os tuaregues, os peuls  (fulani, em Português) o livro me introduz  em situações, por vezes limites, que caracterizam esses grupos étnicos africanos  presentes o tempo todo nos quase quatro anos em que Evaristo pesquisou solos e plantas da África.

Noelly Castro

As Fulani

O autor não esconde quanto se encantou com a beleza das fulani, que ele trata apenas como peuls (do francês). E elas são encantadoras mesmo, alega-se que têm  DNA indo-europeu, tese nem sempre aceita pelos estudiosos de suas origens. Ah, como esquecer – repete Evaristo, com outras palavras – o leite vendido pelas peuls no mercado da vila? E não resiste ao direito, nos seus 25 anos de então, a registrar breves momentos de namoricos com  vendedoras, correspondidas nos flertes furtivos.
Eclipsei-me, embora considerando-me  leitor mais ou menos exigente. Num dado momento, foi-me impossível ler sem acompanhar-me de um gesto de agradecimento ao Onipotente pela narrativa. Foi quando achei até que deveria ler o Geografia da Pele de joelhos, em horas como aquelas da conversa de personagens com as árvores. Ou quando o ferreiro, senhorio de Evaristo, dono de mil sabedorias e como tal respeitado, mostra-lhe o pedaço de meteorito guardado entre algodões e venerado como entidade portadora de mensagens, avisos, advertências. Quase chorei – seria um momento especial em minha vida – com a história da vaca caída no fundo do poço e os demorados preparativos para retirá-la de lá, com a tecnologia dos peuls.
Até  aí, tudo bem. O soluço contido veio com a descoberta do corpo da pastora sem braço, junto com a vaca, parte do rebanho dela. A pastora tem um espaço importante naquele mundo de todos os sonhos possíveis. O dela era de estudar para parteira. Queria trazer vidas, apesar da falta de braços. Sim, naquele mundo muito mais adiantado e elevado  do que o nosso, as árvores também  falam, aconselham, repreendem, estimulam homens e mulheres que a elas recorrem.
Os animais – especialmente bois, vacas e ovelhas – conversam  entre si e muitas vezes com os humanos, verdade dogmatizada pela história de nossos pais africanos. E pela milenar observação daqueles povos. São verdades que devem ter, talvez, 200 mil anos, mas que Evaristo Eduardo de Miranda nos lança em rosto. Como dádiva e como  sugestão  para nossos roteiros de vida. Ou como reprimenda à nossa incapacidade de enxergar uma África além do folclórico e “tênues’”conexões familiares trazidas pela escravidão de 11 milhões de negros.

 

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Noelly Castro

Noelly Castro

Noelly Castro

Noelly Castro

Noelly Castro

Noelly Castro

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