Música Erudita. Ed. 168 – Um paranaense romântico

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A primeira figura da tendência nacionalista da música brasileira é a do compositor e diplomata Brasílio Itiberê da Cunha, um paranaense. Ele foi precursor do nacionalismo em nossa música. O primeiro a inspirar-se em motivos populares e a imprimir à sua obra características nitidamente brasileiras.

Brasílio Itiberê compôs música de câmara e coral, além de peças para piano. Sua rapsódia “A Sertaneja”, para piano, de 1869, o popularizou, especialmente pela canção tradicional “Balaio, meu bem, Balaio”, tema musical folclórico recolhido por ele em Paranaguá, a sua cidade natal. Sua obra anunciou o período de nacionalismo musical. Em suas composições, a preocupação nacionalista surge com o emprego de temas originais ao lado de melodias autenticamente populares.

A trajetória musical de Brasílio Itiberê é fácil de compreender.  Ele nasceu em Paranaguá, filho de João Manuel da Cunha e de Maria Lourenço Munhoz. Sua iniciação musical foi ao piano, que aprendeu na casa dos pais. A família exerceu forte influência. Em sua casa havia música e poesia. Brasílio foi irmão do poeta e crítico literário e musical João Itiberê da Cunha e tio do também compositor Brasílio Itiberê da Cunha Luz.

Para estudar, Brasílio  mudou-se para São Paulo, onde cursou a Faculdade de Direito do Largo de São Francisco. Formado em Direito, ingressou na carreira diplomática atuando em vários países, entre eles Itália, Peru, Bélgica, Paraguai e na Alemanha. Não deixou a música de lado. Na Europa, tornou-se amigo dos grandes pianistas de seu tempo, como Anton Rubinstein, Sgambatti e Liszt e de músicos que reforçaram sua formação romântica e nacionalista, especialmente Wagner.

A escola nacionalista de composição, cujo desenvolvimento, depois da fase precursora, se completou em poucos decênios, é a mais importante da música brasileira. Seus representantes, no entanto, não se dedicaram à ópera ou ao balé, formas que poderiam ter ilustrado a tendência. As óperas de compositores brasileiros do período não passaram de esboços mais ou menos frustrados e nunca foram incorporadas aos repertórios executados. Nepomuceno, Francisco Braga, Henrique Oswald, Leopoldo Miguez e, na mocidade, Francisco Mignone e Heitor Villa-Lobos escreveram óperas, raramente representadas.

Sua obra hoje é acessível. Gisele Rizental gravou pela Gramofone boa parte das composições para o piano. E quando Arthur Moreira Lima gravou Brasílio Itiberê – quase um disco inteiro – uma injustiça secular se desfazia: excetuando A Sertaneja, pouquíssima coisa dele foi gravada – conhecia-se apenas duas peças gravadas: Noturno (Ana Cândida LP Funarte 1981 – gravação original Rádio MEC 1961) e Protetor Exu (Arnaldo Estrella Antologia de Música Erudita Brasileira  – Selo Festa 1968).

É preciso dizer também que Brasílio Itiberê nunca foi chorão como foi Nazareth ou Villa-Lobos. Mas foi sim, um chorão no sentido lato da palavra. Uma pergunta sempre vem à mente quando peças de diversos compositores que mal tem a ver com o choro são objeto de arranjos para conjunto de choro. Sim, é super válido, mas há uma gama de compositores clássicos brasileiros que compuseram choros e valsas (ou peças de outro gênero mas que são choros no fundo) de rara beleza que estão dando sopa por aí. E este é o caso de Brasílio Itiberê.

Passemos ao abolicionista e ao nacionalista. A Sertaneja é tida como a primeira obra erudita brasileira de cunho nacionalista – ou como bem diz Bruno Kiefer, “início de um movimento contínuo e orgânico de busca consciente, da autoafirmação nacional.” Tudo indica que sua militância político-social-musical nasceu de um exercício puramente intelectual, como Alexandre Levy, Alberto Nepomuceno e ao contrário de Francisco Braga, Villa-Lobos ou Francisco Mignone que vivenciaram de perto as manifestações populares. Citando Helza Camêu, Bruno Kiefer reflete que foi após seu ingresso na Faculdade de Direito de São Paulo que tomou contato com “lundus e modinhas, música de salão marcada por características brasileiras” bem ao gosto dos estudantes da época.

De qualquer maneira, é importante revisitar a obra de nosso primeiro compositor nacionalista. Brasílio Itiberê é uma figura rara num Paraná de pouca produção musical em seu tempo. Ele não pode retornar à pátria, como pretendia, depois do último posto diplomático.  Foi nomeado embaixador em Portugal, porém, morreu antes de assumir a função. Faleceu na capital alemã no dia 11 de agosto de 1913, uma segunda-feira, aos 67 anos de idade.

 

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Brasílio Itiberê da Cunha. Ilustração: Carlos Garcia Fernandes

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