22 de novembro – de Santa Cecília a Waltel Branco

E basta contar compasso

E basta contar consigo

Que a chama não tem pavio

De tudo se faz canção

E o coração na curva

De um rio

(Milton Nascimento, Lô Borges, Márcio Borges)

 

As matrículas católicas apontam Santa Cecília como padroeira da música e dos músicos. Cantava e cantou a Deus na hora da morte. Virou a protetora da música sacra e com o tempo e as profanidades suas bênçãos chegaram a todo tipo de música – e músicos. Não sei se esta popularidade toda é a razão pela qual é ela a santa que mais tem basílicas em Roma em sua homenagem. De qualquer forma gosto de pensar que a padroeira dos músicos tem várias casas para espalhar pensamentos almos e musicais.

Na mitologia grega, Apolo, entre tantas funções em sua atribulada e versátil agenda de Deus do Olimpo está a responsabilidade de guardar a música. Depois que ganhou, presente de Hermes, uma lira e se encantou com o vai-e-vem das notas, estabeleceu em sua conta esta prerrogativa. Era ele o diretor do coro das musas, sabe lá o que é isso? Elas inspiravam as criações artísticas, ele controlava tudo. Uau! Solta as musas, Apolo!

 

Mitologias, religiões, deuses, representantes, mecenas… Na história da humanidade há muitos protetores e incentivadores da música nossa de cada dia. Às vezes acho que todos eles tiraram uma longa folga e estão reunidos em algum palácio celestial a se divertir com o melhor do que foi produzido nos campos terrenos. A cada nova baixa por aqui, um sócio novo entra no clube por lá: Bach tira Hathor para dançar, Lin-Len aprende piano com Tom Jobim, Brama se delicia com Ella Fitzgerald, Jubal aprende a cantar Saudosa Maloca e assim por diante. Enquanto eles recreiam a gente pena e arregaça as mangas para contornar o que aconteceu por aqui depois que todos os deuses resolveram fazer festa.

De qualquer forma, ficou decretado que é em novembro o dia da música e dos músicos, 22. E para se entregar à efeméride com felicidade, é bom visitar o que a música fala sobre ela mesma.

A largada para o passeio, meio homenagem, meio metalinguagem, meio confissão, quem dá é Etel Frota, em composição que tem Consuelo de Paula e Rubens Nogueira como parceiros e Maria Bethânia intérprete, Sete Trovas: A canção é meu pecado/ Minha dor e redenção/ Meu brinquedo, meu reisado/ O meu bocado de pão/ A canção é meu estado/ Minha sina, distração/ Meu folguedo, meu congado/ Meu cajado, profissão […] A canção é meu sossego/ Meu destino, solidão/ Minha paz, meu desapego/ Minha dona, meu perdão.

 

Ao que tudo indica, quem faz da música profissão de fé e talento não tem muitos caminhos para sair desses contornos. É uma força maior que domina, empurra e dá os contornos da vida. Mais ou menos como João Nogueira e Paulo Cesar Pinheiro contaram em O Poder da Criação: Não, ninguém faz samba só porque prefere/ Força nenhuma no mundo interfere/ Sobre o poder da criação/ Não, não precisa se estar nem feliz nem aflito/ Nem se refugiar em lugar mais bonito/ Em busca da inspiração. A mesma dupla também escreveu Súplica, um comovente relato sobre a relação entre o artista, a arte e para quem ela é feita: A brisa traz a música/ Que na vida é sempre a luz mais forte/ Ilumina a gente além da morte/ Venha a mim, óh, música/ Vem no ar/ Ouve de onde estás a minha súplica/ Que eu bem sei talvez não seja a única/ Venha a mim, oh, música/ Vem secar do povo as lágrimas/ Que todos já sofrem demais/ E ajuda o mundo a viver em paz. E ainda dentro do repertório desses dois grandes nomes, Minha Missão: Canto para amenizar a noite/ Canto pra denunciar o açoite/ Canto também contra a tirania/ Canto porque numa melodia/ Acendo no coração do povo/ A esperança de um mundo novo/ E a luta para se viver em paz.

 

Foi para Roberto Carlos que Caetano Veloso escreveu Força Estranha, uma homenagem ao cantor com motivos de sobra que o fazem se entregar a este ofício. A composição de 1978 virou uma peça fundamental no repertório do Rei, mas ainda hoje tem gente que não sabe da autoria das palavras, que também servem, e muito, para o dono da criança: A vida é amiga da arte/ É a parte que o sol me ensinou/ O sol que atravessa essa estrada que nunca passou/ Por isso uma força me leva a cantar/ Por isso essa força estranha/ Por isso é que eu canto, não posso parar/ Por isso essa voz tamanha.

 

É por aí, nos bailes da vida ou nos botecos da cidade, que muitos iniciam o caminhar na música, a cantar de tudo um pouco, a experimentar admiração e indiferença, encantamento e cansaço, atenção e desprezo, respeito e superação. Quem toca nesses lugares, às vezes é transparente para o público, às vezes é visto, mas sempre é fundamental. Milton Nascimento e Fernando Brant falaram sobre isso em Nos Bailes da Vida, espécie de hino para os músicos: Foi nos bailes da vida/ ou num bar em troca de pão/ que muita gente boa pôs o pé na profissão/ de tocar um instrumento e de cantar/ não importando se quem pagou quis ouvir […] todo artista tem de ir/ aonde o povo está/ se foi assim, assim será/ cantando me desfaço/ e não me canso de viver/ nem de cantar. Milton, em parceria com Lô e Márcio Borges, também passeou pelo tema na belíssima e emblemática Clube da Esquina nº 2: E basta contar compasso/ e basta contar consigo/ Que a chama não tem pavio/ De tudo se faz canção/ E o coração/ Na curva de um rio.

 

E tem gente que quer mais que cantar, que compor, que tocar. Tem uma trupe, e não é aglomeração pouca, que pensa em viver na lira. Quem dera, quem dera… Foi assim que Raymundo Rolim e Dito Sapateiro traduziram esta vontade do campo da fantasia: Quero viver de olhar pro céu/ E ouvir música, lúdica, única/ Quero viver de olhar pro céu/ E ouvir música, divina música. A Divina Música é um pouco da vida que Joubert de Carvalho e Olegário Mariano pensaram em De Papo pro Ar, uma coisa meio preguiçosa de observação da natureza e esforço mínimo, mas com trilha sonora porque ninguém é tão madraço assim.

 

São muitos os que se declaram à música, que em versos ou em notas contam sobre a vida a partir desta escolha que acaba por melhorar e traduzir o entorno. Os trabalhadores da arte mais acessível, do perfume das flores que podemos ouvir, das notas que tem o voo de um pássaro, da voz das cores, do barulho das estrelas, do explodir de cada sentimento que nos brota – é isso que os músicos fazem, todos os dias, o tempo inteiro: melhoram a humanidade. É caso de dar parabéns ou agradecer? Acho que não, acho que o grande lance é aproveitar o que nossos companheiros de espécie nos dão, mão beijada, e comemorar o fato de sermos mais do que feras sobreviventes; podemos nos emocionar e reconhecer.

 

E parece que é coisa de outro mundo, aqui, em nossa Curitiba, que importou de Paranaguá talvez nosso maior tesouro, nosso ouro em cordas, é que figura Waltel Branco. Maestro, arranjador, compositor, múltiplo, inteiro, apurado, delicado, nascido em 22 de novembro, dia de Santa Cecília, da Música, dos Músicos. É desses pra quem a gente desfila adjetivos sem capacidade de descrever o florir de sua música, lugar em que o extraordinário se torna frequente. 22 de novembro é dia de Waltel Branco. É com ele que a coluna se despede, assim, uma despedia instrumental, porque qualquer palavra pode ser trocada, ótimo negócio, por música de Waltel. Procure aí.

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